REVISTA CLARIDADE AND AMÍLCAR CABRAL: POETIC SEEDS OF POLITICAL RESISTANCE
DOI:
https://doi.org/10.26619/1647-7251.DT0726.4Palavras-chave:
Claridade, Amílcar Cabral, Osório de Oliveira, sementes de luta e resistência, poesia cabo-verdianaResumo
Este estudo examina a militância poético-política de Amílcar Cabral a partir de seu ensaio “Apontamentos sobre poesia cabo-verdiana” (1952), no qual empreende uma análise crítica da nova poesia da Claridade, revista vanguardista de Cabo Verde publicada entre 1936 e 1960. A revista, marco inaugural da chamada geração claridosa e reconhecida por contornar as restrições da censura colonial, introduziu inovações na poesia, que passou a abordar questões culturais, sociais e identitárias, incorporando inclusive poemas e mornas em crioulo cabo-verdiano, cuja publicação, por ser uma língua não oficial, era reprimida, na prática, durante o Estado Novo. Embora a Claridade tenha rompido com a estética clássica da poesia metropolitana portuguesa e passado a tematizar os problemas da terra – como a seca e a fome que assolavam a colónia –, Cabral identifica em seus poemas um inaceitável tom de resignação e de esperança passiva por tempos melhores. Em contraposição, propõe que a poesia supere tais limites e se converta em energia revolucionária. A análise do ensaio de Cabral exige, inicialmente, uma breve contextualização das edições da Claridade que precederam a publicação do ensaio. Na nossa leitura do texto de Cabral, identificamos e exploramos quatro movimentos que estruturam o argumento do autor: a relação entre poesia e função social; a periodização da poesia cabo-verdiana em fases pré- e pós-Claridade; a inflexão estética introduzida pela revista; e a passagem da poesia “resignada” para a afirmação de uma voz própria cabo-verdiana. Procuramos traçar, ao longo dos primeiros sete números da Claridade publicados antes do ensaio de Cabral, e provavelmente lidos por ele, as fontes dos seus argumentos, que nem sempre são explicitamente reconhecidas. Essas fontes incluem versos poéticos, autores, obras literárias e ensaios críticos. Argumentamos que um desses ensaios, publicado por Osório de Oliveira no n.º 2 da Claridade (1936), constitui uma fonte fundamental para a noção cabraliana de “resignação” na poesia cabo-verdiana. Este conceito, destacado por Cabral no seu ensaio, é aqui examinado em diálogo com o texto de Oliveira, a fim de mostrar como esse intercâmbio intelectual ilumina o projeto mais amplo de Cabral de converter a sensibilidade poética em força crítica e horizonte de transformação social.
