AMILCAR CABRAL: REWRITING HISTORY THROUGH POETIC DICTION
DOI:
https://doi.org/10.26619/1647-7251.DT0726.3Palavras-chave:
Poesia, história, símbolo, colonialismo, reparaçãoResumo
O discurso sobre África, particularmente a partir de uma perspetiva africana, desafia as narrativas dominantes moldadas pela glorificação europeia desde o século XV. Como articulado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, escrever sobre África exige uma abordagem corretiva das narrativas que glorificam a empresa europeia que lacerou o continente africano durante séculos. História sobre história, paisagem sobre paisagem; assim, a dominação europeia que obliterou a ordem existente deve, por sua vez, ser desautorizada, exposta e reconfigurada na escrita que a corrige. Mbembe destaca a importância da restituição e da reparação — sine qua non, os efeitos da “ferida colonial” (W. Mignolo, 2005) não podem ser resolvidos: “A reparação, além disso, é necessária devido aos cortes e cicatrizes deixados pela história” (Mbembe, 2017). Exploraremos como esta necessária reparação da história se reflete em alguns poemas de Amílcar Cabral, que lidam de forma contundente com os mitos decorrentes da visão “oniricamente imperial” (Eduardo Lourenço, 2014) que moldou grande parte da literatura escrita em português. Paradoxalmente, escrever sobre África e resgatar a sua história da epistemologia da má-fé, construída por uma perceção eurocêntrica hegemónica, exigiu que muitos autores africanos se confrontassem com os símbolos que corporizam essa ideologia. Comprometido com a luta de libertação da sua pátria e do continente africano dos laços da opressão colonial, Amílcar Cabral entendia a luta pela emancipação como um ato de cultura, enraizado na reconquista da identidade cultural dos oprimidos. Num tempo muito diferente do atual, e para um espírito mobilizado por aquilo que viria a ser a luta efetiva — a revolução e a guerra a travar, tanto nas mentes como nos campos — contra a opressão colonial, tal como vivida por Cabral, o momento não é (ainda) o de exigir reparação nos termos propostos por Mbembe. Contudo, na sua poesia, reconhece-se um gesto subtil mas persistente de reescrita ou correção de uma visão mítica que sustenta uma determinada história e a epistemologia que esta acarreta. Refletiremos sobre o significado dos símbolos que emergem deste puzzle de reconstrução de uma narrativa histórica, articulando-o com expressões poéticas mais recentes que desenvolvem o tema da necessidade de reparação como pedra angular para a construção identitária.
