OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
VOL. 17 Nº.1, DT 2
Dossiê Temático Educação Ambiental, democracia
e participação social no enfrentamento da crise civilizatória
provocada pelas mudanças climáticas globais
Julho 2026
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA ALDEIA INDÍGENA KA’APOR (ZÉ GURUPI):
SENSIBILIZAÇÃO E PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS
DAVI SOUSA DE SOUSA
davisousa10zd@gmail.com
Estudante de Licenciatura em Geografia - Centro Universitário Única - Uniúnica - Ipatinga, Minas
Gerais (Brasil)
LIEIDE VIDAL DE LIMA
lieidelopes89@gmail.com
Licenciada em Geografia
Estudante de Pedagogia - Centro Universitário Única - Uniúnica - Ipatinga, Minas Gerais (Brasil)
RONALD ASSIS FONSECA
Ronald.ufv@hotmail.com
Doutor em Ciência Florestal
Professor e Coordenador de Pesquisa - Centro Universitário Única - Uniúnica - Ipatinga, Minas
Gerais (Brasil)
CLÉLIO RODRIGO PAIVA RAFAEL
Clelio_rodrigo10@hotmail.com
Doutorando em Manejo de Solo e Água Professor e Coordenador de Pesquisa - Centro
Universitário Única - Uniúnica - Ipatinga, Minas Gerais (Brasil)
FRANCIEL REX
francielrexx@gmail.com
Doutor em Engenharia Florestal
Orientador de Iniciação Científica Professor e Coordenador de Pesquisa - Centro Universitário
Única - Uniúnica - Ipatinga, Minas Gerais (Brasil)
Resumo
Este artigo relata e analisa uma experiência de Educação Ambiental desenvolvida na aldeia
indígena Ka’apor Gurupi, no Maranhão, Brasil, com estudantes do Ensino Fundamental e
da Educação de Jovens e Adultos (EJA), professores e lideranças comunitárias. A atividade
teve como objetivo promover sensibilização ambiental e estimular práticas sustentáveis
vinculadas ao território, à escola e à vida comunitária. O estudo caracteriza-se como relato
de experiência, de abordagem qualitativa, sistematizado a partir de registros fotográficos,
audiovisuais e anotações de campo. A intervenção foi organizada em três momentos: aula
expositiva-dialogada e prática de plantio de sementes de açaí e outras espécies; caminhada
diagnóstica pela aldeia para observação das condições ambientais; e palestra com lideranças
seguida de mutirão de coleta de resíduos. Os resultados indicaram que as atividades
favoreceram a aproximação entre conteúdos escolares, saberes locais e práticas concretas de
cuidado com o território. A presença do cacique e de lideranças reforçou a dimensão coletiva,
política e cultural da ação. A experiência também evidenciou que os resíduos sólidos presentes
em territórios indígenas não podem ser compreendidos apenas como problema
comportamental, mas como expressão de processos mais amplos de consumo, colonialidade,
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Educação Ambiental na Aldeia Indígena Ka’apor (Zé Gurupi):
Sensibilização e Práticas Sustentáveis
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pressão territorial e inserção desigual de produtos industrializados nas aldeias. Conclui-se que
práticas pontuais de Educação Ambiental são relevantes, mas precisam ser articuladas a ações
contínuas, interculturais e territorializadas, capazes de fortalecer a autonomia comunitária, a
proteção da floresta e a responsabilidade coletiva.
Palavras-chave
Educação Ambiental, Povos Indígenas, Território, Resíduos Sólidos, Interculturalidade.
Abstract
This article describes and analyses an environmental education initiative carried out in the
Ka’apor indigenous village of Zé Gurupi, in Maranhão, Brazil, involving primary school pupils,
students in Adult and Youth Education (EJA), teachers and community leaders. The activity
aimed to promote environmental awareness and encourage sustainable practices linked to the
local area, the school and community life. The study is characterised as an experience report,
using a qualitative approach, systematised on the basis of photographic and audiovisual
records and field notes. The intervention was organised into three stages: a lecture-discussion
session combined with the practical activity of planting açaí seeds and other species; a
diagnostic walk through the village to observe environmental conditions; and a talk with
community leaders followed by a collective waste collection effort. The results indicated that
the activities fostered a connection between school curriculum, local knowledge and concrete
practices of caring for the territory. The presence of the chief and community leaders
reinforced the collective, political and cultural dimensions of the initiative. The experience also
highlighted that solid waste in indigenous territories cannot be understood merely as a
behavioural problem, but as an expression of broader processes of consumption, coloniality,
territorial pressure and the unequal introduction of industrialised products into the villages. It
is concluded that one-off environmental education initiatives are relevant, but need to be
linked to ongoing, intercultural and locally-rooted actions capable of strengthening community
autonomy, forest protection and collective responsibility.
Keywords
Environmental Education, Indigenous Peoples, Territory, Solid Waste, Interculturality.
Como citar este artigo
Sousa, Davi Sousa de, Lima, Lieide Vidal de, Fonseca, Ronald Assis, Rafael, Clélio Rodrigo Paiva &
Rex, Franciel (2026). Educação Ambiental na Aldeia Indígena Ka’apor (Zé Gurupi): Sensibilização
e Práticas Sustentáveis. Janus.net, e-journal of international relations VOL. 17 Nº. 1, DT 2 Dossiê
Temático Educação Ambiental, democracia e participação social no enfrentamento da crise
civilizatória provocada pelas mudanças climáticas globais, Julho 2026, pp. 153-168. DOI
https://doi.org/10.26619/1647-7251.DT0526.9
Artigo submetido em 5 de janeiro de 2026 e aceite para publicação em 10 de maio de
2026.
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA ALDEIA INDÍGENA KA’APOR (ZÉ
GURUPI): SENSIBILIZAÇÃO E PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS
DAVI SOUSA DE SOUSA
LIEIDE VIDAL DE LIMA
RONALD ASSIS FONSECA
CLÉLIO RODRIGO PAIVA RAFAEL
FRANCIEL REX
Introdução
Diante da crise socioambiental contemporânea, os povos indígenas têm vivenciado
impactos intensos decorrentes do desmatamento, das invasões territoriais, da introdução
de resíduos e das mudanças nos padrões de consumo. Esses processos afetam
diretamente comunidades cuja relação histórica com a terra e com a floresta constitui
base material, cultural, espiritual e política de existência (COMISSÃO PASTORAL DA
TERRA, 2023). Nesse cenário, a Educação Ambiental (EA) assume papel formativo
importante, desde que não seja reduzida à transmissão de condutas individuais
consideradas sustentáveis, mas compreendida como prática crítica, situada e vinculada
às disputas territoriais, à justiça socioambiental e à defesa dos modos de vida
comunitários (ARAÚJO et al., 2013; OLIVEIRA; BARBA; SIMÃO, 2025).
A EA em territórios indígenas exige uma leitura que ultrapasse abordagens
comportamentais. Problemas como acúmulo de resíduos, alteração dos hábitos
alimentares, pressão sobre áreas de floresta e presença crescente de produtos
industrializados não podem ser analisados apenas como falta de conscientização. Eles
expressam a inserção desigual das comunidades indígenas em circuitos econômicos
externos, marcados pela dependência de mercadorias, pela ausência de infraestrutura
pública adequada e pela transferência dos impactos ambientais para os próprios
territórios. Por isso, a EA precisa problematizar as relações entre colonialidade,
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capitalismo, racismo ambiental, consumo e perda de autonomia territorial (COSTA;
LOUREIRO, 2024; PROSDOCIMO; MORAES; ROSA, 2025).
A incorporação de autores indígenas amplia essa fundamentação, pois desloca o debate
ambiental de uma visão externa sobre os povos originários para a escuta de suas próprias
formulações políticas, cosmológicas e pedagógicas. Baniwa (2019) compreende a
educação escolar indígena como campo de disputa e defende uma escola intercultural,
bilíngue, diferenciada e vinculada aos projetos coletivos dos povos indígenas. Krenak
(2019), critica a separação moderna entre humanidade e natureza, mostrando que essa
ruptura sustenta modos predatórios de desenvolvimento. Kopenawa e Albert (2015), por
sua vez, associam a devastação da floresta ao avanço de uma economia de mercadorias
que transforma a terra em objeto de exploração.
No campo da educação escolar indígena, estudos no Brasil têm mostrado que não
uma relação automática e harmoniosa entre comunidades indígenas e meio ambiente.
Pesquisa realizada na aldeia Kariri-Xocó, em Alagoas, identificou processos de
degradação em espaços sagrados e de uso coletivo, com práticas insustentáveis
relacionadas ao lixo, ao uso dos recursos naturais e à pressão sobre áreas de floresta
(SANTOS, 2020). De modo semelhante, investigação com o povo Paiter Suruí, na Terra
Indígena Sete de Setembro (RO/MT), relacionou o aumento do consumo de produtos
industrializados ao acúmulo de resíduos sólidos e aos impactos sobre saúde, cultura e
integridade territorial (OLIVEIRA; BARBA; SIMÃO, 2025).
Ao mesmo tempo, experiências de EA em aldeias indígenas mostram o potencial de
intervenções pedagógicas contextualizadas, construídas a partir do território e dos
saberes locais. Araújo et al. (2013) defendem que a Educação Ambiental em sociedades
indígenas brasileiras precisa superar a abordagem restrita à escola e dialogar com
políticas públicas, autodeterminação étnica e gestão territorial. Nesse sentido,
experiências como a ação “Do solo à bioconstrução”, desenvolvida na aldeia Itap
Tupinambá de Olivença (BA), apontam que atividades práticas, articulando EJA, oficinas
comunitárias e conhecimentos tradicionais, podem fortalecer vínculos entre saber
técnico-científico, território e participação comunitária (SANTOS; COSTA, 2020).
A aldeia Zé Gurupi, do povo Ka’apor, localizada no Maranhão, compartilha essa realidade
de tensão entre permanência cultural, pressão externa sobre o território e desafios
ambientais cotidianos. A antiga aldeia Urutawirenda, renomeada em homenagem ao
senhor Gurupi na década de 1980, reúne atualmente cerca de 30 famílias e 116
pessoas, entre crianças, adultos, idosos e gestantes. A comunidade mantém forte vínculo
com a floresta como base de vida, mas enfrenta problemas relacionados à gestão de
resíduos e à conservação de áreas de uso comum. Esse contexto torna relevante o
desenvolvimento de ações educativas que articulem história, identidade, território e
práticas sustentáveis.
Neste cenário, o presente artigo tem como objetivo relatar e analisar uma experiência
de Educação Ambiental desenvolvida na aldeia indígena Ka’apor Zé Gurupi, no Maranhão,
centrada em atividades de sensibilização ambiental e práticas sustentáveis com
estudantes do Ensino Fundamental e da EJA, em diálogo com lideranças locais. A
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intervenção integrou aula teórica, prática de plantio de mudas, caminhada diagnóstica
pela aldeia e mutirão de coleta de lixo, articulando escola, cacique e comunidade.
Metodologia
Este estudo caracteriza-se como um relato de experiência, de abordagem qualitativa,
decorrente de uma estratégia diversificada de EA realizada na Aldeia Indígena Ka’apor,
conhecida atualmente como aldeia Zé Gurupi, localizada no estado do Maranhão, Brasil.
A ação teve como foco a sensibilização ambiental e o estímulo a práticas sustentáveis,
articulando escola, comunidade e lideranças tradicionais.
Contexto histórico e caracterização da aldeia
A aldeia hoje denominada Gurupi recebeu, inicialmente, o nome de Urutawirenda,
como era chamada por seus primeiros moradores. Entre esses moradores pioneiros
destacam-se Kanamyha Ka’apor e Lourival Ka’apor, que, juntamente com algumas
famílias, constituíram o núcleo original da aldeia Urutawirenda. Parte das famílias vivia
nessa aldeia e outra parte residia em uma aldeia próxima, identificada como aldeia do
senhor Zé Gurupi, situada nas imediações de uma localidade conhecida como Camaleão.
Figura 1. Localização da Aldeia
Fonte: Os autores, 2025
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Com o passar do tempo, as famílias que moravam junto ao senhor Gurupi, nessa
aldeia próxima, migraram para o local onde hoje se encontra a aldeia Gurupi. Nesse
período, o território continuava a ser conhecido pelo nome de Urutawirenda. Entre os
anos de 1980 e 1985, com o falecimento do senhor Gurupi, que teve três esposas e
dois filhos, a comunidade decidiu renomear a aldeia, passando de Urutawirenda para
aldeia Gurupi, como forma de homenagem à sua liderança. A única filha viva do
senhor Zé Gurupi é Rosary Ka’apor, atualmente residente na aldeia Kamuxirenda.
Ao longo dos anos, a aldeia Gurupi cresceu, recebendo moradores de outras aldeias
e também vivenciando a saída de algumas famílias. Em determinado momento, a aldeia
chegou a reunir aproximadamente 250 indígenas. Posteriormente, em função de
estratégias de proteção territorial e de cuidado com a natureza, o território foi sendo
subdividido em diversas aldeias, permitindo maior controle das áreas de floresta e
dificultando a entrada de pessoas não autorizadas e de agentes de desmatamento.
Atualmente, a aldeia Gurupi tem como cacique Sessin Ka’apor e como lideranças
Tapirã Ka’apor e Deusilene Ka’apor. A comunidade é composta por 30 famílias,
totalizando 116 pessoas, das quais 57 são do sexo masculino e 59 do sexo feminino.
Entre esses moradores, 14 crianças menores de 5 anos, 7 idosos e 3 gestantes. Apesar
das dificuldades e adversidades enfrentadas, o povo Ka’apor permanece com forte
nculo com a natureza e compromisso com a preservação de sua cultura e de seu
território, mantendo uma relação de resistência e cuidado com a floresta, entendida como
“mãe” e base do bem-estar coletivo.
Participantes da ação educativa
As atividades de EA foram desenvolvidas no contexto escolar da aldeia Gurupi,
envolvendo estudantes do Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Participaram diretamente 50 estudantes, além de professores da comunidade, do cacique
Sessin Ka’apor e de outras lideranças locais. A participação deu-se de forma coletiva,
inserida na rotina escolar e comunitária, sem procedimento de amostragem
probabilística, incluindo todos os estudantes presentes nas datas das atividades.
Delineamento da intervenção
A intervenção foi planejada e executada por professores e lideranças comunitárias,
organizada em três momentos complementares, distribuídos em dois dias de atividades:
1) Aula teórica e prática de plantio: No primeiro momento, os professores conduziram
uma aula expositiva-dialogada sobre preservação ambiental, abordando a importância
da proteção de florestas, rios e biodiversidade, com enfoque na responsabilidade das
atuais gerações em relação ao futuro da aldeia. Em seguida, foi realizada uma atividade
prática de plantio, na qual os 50 estudantes do Ensino Fundamental e do EJA trouxeram
saquinhos com terra e participaram do plantio de sementes de açaí e de outras espécies
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de interesse da comunidade. Durante o plantio, foram apresentadas orientações básicas
sobre preparo do solo, cuidados iniciais com as mudas e relevância ecológica das espécies
trabalhadas.
2) Caminhada diagnóstica na aldeia: Após a aula inicial, foi organizada uma
caminhada pela aldeia, envolvendo estudantes, professores e lideranças. O objetivo foi
observar as condições ambientais locais, com atenção especial à presença de resíduos
sólidos, ao estado de conservação da vegetação e às condições dos espaços de uso
coletivo. Ao longo do percurso, foram realizadas pausas para diálogo, nas quais os
participantes eram convidados a relatar percepções sobre lixo, organização dos espaços,
uso dos recursos naturais e responsabilidades individuais e coletivas na preservação do
território. Esse momento configurou-se como um diagnóstico participativo, estimulando
a reflexão crítica sobre práticas cotidianas e sobre a gestão de resíduos na aldeia.
3) Palestra com lideranças e mutirão de coleta de lixo: Em data posterior, foi
realizada nova reunião com a comunidade escolar e lideranças, contando com a presença
do cacique Sessin Ka’apor. Nesse encontro, o cacique e demais lideranças reforçaram,
em suas falas, a importância de manter a aldeia limpa, evitar a poluição de áreas comuns
e fortalecer o cuidado com a “mãe floresta”. Após a palestra, organizou-se um mutirão
de coleta de resíduos, envolvendo estudantes, professores e lideranças. Os participantes
percorreram diferentes pontos da aldeia recolhendo lixo presente em áreas de circulação,
espaços comunitários e arredores de residências, com posterior acondicionamento
adequado dos resíduos. Esse momento buscou articular o conteúdo discutido
anteriormente com uma ação concreta de melhoria das condições ambientais locais.
Registros e sistematização das informações
As ações foram documentadas por meio de registros fotográficos e audiovisuais,
produzidos durante as aulas, a caminhada diagnóstica e o mutirão de limpeza.
Professores e lideranças também realizaram anotações de campo sobre a participação
dos estudantes, as falas das lideranças e as percepções manifestadas ao longo das
atividades.
Para a elaboração deste artigo, os registros foram revisados e organizados em eixos
descritivos relacionados a: processos de sensibilização ambiental, práticas sustentáveis
estimuladas (plantio de árvores e manejo de resíduos) e participação comunitária e
fortalecimento do senso de responsabilidade coletiva. A análise tem caráter descritivo,
preservando o anonimato individual dos participantes e respeitando os acordos
estabelecidos com a comunidade, bem como o caráter pedagógico da intervenção
desenvolvida na aldeia Zé Gurupi.
Resultados
A intervenção em EA na aldeia Zé Gurupi envolveu diretamente 50 estudantes do Ensino
Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos, além de professores, do cacique Sessin
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Ka’apor e de outras lideranças comunitárias. Os registros fotográficos e audiovisuais,
aliados às anotações de campo, mostram que as três etapas planejadas foram
efetivamente realizadas e contaram com participação contínua dos sujeitos envolvidos.
As atividades permitiram articular momentos de estudo em sala de aula com ações
práticas no território da aldeia, em consonância com o objetivo de promover
sensibilização ambiental e práticas sustentáveis no cotidiano da comunidade.
No primeiro momento, a aula expositiva-dialogada sobre preservação ambiental (Figura
2) criou um espaço de escuta e de troca de experiências sobre florestas, rios e
biodiversidade. A sequência imediata com a prática de plantio favoreceu a apropriação
concreta dos conteúdos discutidos, à medida que os estudantes prepararam saquinhos
com terra e realizaram o plantio de sementes de açaí e de outras espécies de interesse
da comunidade (Figura 3). Os registros indicam que o plantio funcionou como um eixo
mobilizador, permitindo que os alunos visualizassem, na prática, o potencial de
recuperação e cuidado com a vegetação local a partir de ações simples, realizadas em
conjunto.
Figura 2. Aula expositiva dialogada
Fonte: Os autores, 2025
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Figura 3. Plantio de mudas de açai.
Fonte: Os autores, 2025
A caminhada diagnóstica (Figura 4) pela aldeia contribuiu para ampliar o olhar dos
estudantes sobre o espaço em que vivem. Durante o percurso, foram identificados pontos
com presença de resíduos sólidos e áreas com maior ou menor cuidado em relação à
vegetação e aos espaços de uso coletivo. As pausas para diálogo possibilitaram que os
participantes relacionassem essas observações às discussões feitas em sala, refletindo
sobre formas de descarte, organização dos ambientes e responsabilidades individuais e
coletivas na preservação do território. Esse momento consolidou a dimensão de
diagnóstico participativo da intervenção, aproximando a análise das condições
ambientais da experiência cotidiana dos moradores.
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Figura 4. Caminhada pela aldeia
Fonte: Os autores, 2025
Na etapa seguinte, a palestra conduzida pelo cacique Sessin Ka’apor (Figura 6) e por
outras lideranças reforçou, em linguagem própria da comunidade, a importância de
manter a aldeia limpa e de proteger a “mãe floresta” como fundamento da vida e da
cultura Ka’apor. Em seguida, o mutirão de coleta de lixo materializou as orientações da
palestra em uma ação concreta de cuidado com o espaço comum. Estudantes,
professores e lideranças percorreram diferentes áreas da aldeia recolhendo resíduos
espalhados, o que resultou na limpeza de locais de circulação e de convivência
comunitária. A participação conjunta de crianças, jovens e adultos conferiu caráter
coletivo à atividade e deu visibilidade à ideia de que a responsabilidade ambiental é
compartilhada.
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Figura 5. Palestra conduzida cacique Sessin Ka’apor
Fonte: Os autores, 2025
Os registros fotográficos e audiovisuais das três etapas, somados às anotações de campo,
evidenciam que a intervenção favoreceu processos de sensibilização ambiental, práticas
sustentáveis e fortalecimento da participação comunitária. O plantio de sementes, a
identificação de pontos de acúmulo de resíduos e a realização do mutirão de limpeza
funcionaram como experiências que aproximaram teoria e prática, ajudando os
estudantes a compreender o vínculo entre suas ações diárias e a conservação do
ambiente da aldeia. Ao mesmo tempo, a presença ativa das lideranças na palestra e nas
atividades coletivas contribuiu para reforçar o sentimento de pertencimento e de
responsabilidade compartilhada pela preservação do território Ka’apor.
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Discussão
A estratégia diversificada de educação ambiental na aldeia Gurupi mostra que a
articulação entre escola, lideranças e território, por meio de atividades como aula teórica,
plantio, caminhada diagnóstica e mutirão, responde a um conjunto de desafios apontados
na literatura sobre EA em contextos indígenas. Araújo et al. (2013) destacaram que a EA
Indígena no Brasil tem se mantido fortemente vinculada à lógica da educação escolar
formal, muitas vezes descolada do território e das práticas comunitárias, o que exige
uma mudança de paradigma em direção a processos formativos que integrem cultura,
autodeterminação étnica e manejo ambiental. Nesse sentido, o desenho metodológico
adotado em Gurupi, com atividades realizadas em sala, na aldeia e em espaços de
circulação coletiva, aproxima-se da perspectiva de uma Educação Ambiental que
ultrapassa o espaço estritamente escolar e incorpora dimensões comunitárias e
territoriais (ARAÚJO et al., 2013).
A caminhada diagnóstica e a identificação de pontos de acúmulo de resíduos dialogam
com achados de pesquisas que problematizam o mito da “harmonia automática” entre
povos indígenas e meio ambiente. Santos (2020) mostra que a aldeia Kariri-Xocó
reconhece a falta de cuidado com as matas e a percepção de que a aldeia “não é um
espaço limpo”, evidenciando situações de desmatamento e descarte inadequado de
resíduos, apesar do discurso de valorização da natureza.
De forma convergente, Oliveira, Barba e Simão (2025) discutem o impacto do lixo na
aldeia Paiter Suruí e relacionam o aumento dos resíduos sólidos ao consumo de produtos
industrializados, à mudança de hábitos alimentares e à presença crescente de
embalagens e materiais descartáveis no cotidiano da comunidade. Esse processo,
contudo, não deve ser interpretado apenas como alteração comportamental interna às
aldeias. Trata-se de uma expressão concreta de um modelo colonizador, predatório e
neoliberal, que insere territórios indígenas em circuitos desiguais de mercado, amplia a
dependência de mercadorias e transfere para as comunidades o ônus ambiental do
descarte, sem garantir infraestrutura adequada de saneamento, coleta, tratamento e
destinação final dos resíduos. Essa leitura se aproxima da EA crítica, pois compreende os
conflitos ambientais como parte de processos históricos ligados à colonialidade, ao
capitalismo e à exploração da natureza (COSTA; LOUREIRO, 2024).
A presença do lixo, nesse sentido, revela a entrada de uma lógica externa de consumo
que tensiona práticas tradicionais, reorganiza hábitos cotidianos e produz novas formas
de vulnerabilidade socioambiental. Por isso, a EA em territórios indígenas precisa
problematizar não apenas o descarte correto, mas também as relações entre consumo,
colonialidade, racismo ambiental, desigualdade, perda de autonomia territorial e
fragilização das políticas blicas voltadas às comunidades indígenas (PROSDOCIMO;
MORAES; ROSA, 2025). Esse enquadramento evita responsabilizar individualmente os
moradores e permite compreender os resíduos como parte de uma crise socioambiental
mais ampla, na qual povos indígenas são pressionados por dinâmicas externas de
mercado, ao mesmo tempo em que seguem defendendo seus territórios, seus modos de
vida e suas formas próprias de relação com a floresta (BANIWA, 2019; KRENAK, 2019;
KOPENAWA; ALBERT, 2015).
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Os resultados também evidenciam a relevância de práticas pedagógicas que articulam
conteúdos escolares e experiências concretas no território, como o plantio de sementes
de açaí e outras espécies de interesse da comunidade. A experiência relatada por Santos
e Costa (2020) na aldeia Itapoã Tupinambá, ao trabalhar o tema “solo” com uma turma
de EJA e culminar em uma oficina de bioconstrução, mostra que atividades práticas,
situadas no espaço da aldeia e integrando saberes técnico-científicos e conhecimentos
tradicionais, favorecem a apropriação crítica dos conteúdos e reforçam vínculos com o
território (Santos e Costa, 2020).
De modo semelhante, em Gurupi, integrar aula expositiva-dialogada, plantio e
caminhada diagnóstica opera como um elo entre a EA formal e as práticas cotidianas da
comunidade, aproximando-se da ideia de uma teia de relações sociais, culturais e
naturais que sustenta processos de EA popular em aldeias indígenas.
Outro ponto importante dos resultados é o papel das lideranças na condução e
legitimação da intervenção. Em Kariri-Xocó, Santos (2020) enfatiza a importância do
cacique, do pajé e de contadores de histórias na mediação de novas práticas
educacionais, apontando que a EAl escolar ganha densidade quando dialoga com esses
sujeitos e com as formas próprias de organização da comunidade. Na pesquisa com o
povo Paiter Suruí, Oliveira, Barba e Simão (2025) também vinculam a EA escolar indígena
à defesa do território e à luta por justiça ambiental, considerando a escola como espo
formativo com forte dimensão política.
A presença do cacique Sessin Ka’apor e de outras lideranças em todas as etapas da
intervenção em Gurupi, especialmente na palestra e no mutirão de coleta de lixo,
reforça essa leitura: a sensibilização ambiental não é apenas um processo pedagógico,
mas também um movimento de afirmação política e cultural, em que o cuidado com a
floresta é reafirmado como princípio organizador da vida coletiva.
A leitura da experiência de Zé Gurupi também ganha maior densidade quando articulada
às formulações de intelectuais indígenas brasileiros. Krenak (2019) questiona a ideia de
humanidade separada da Terra e ajuda a compreender que o cuidado ambiental, para
povos indígenas, não se limita à conservação de recursos, mas envolve modos de
existência e vínculos espirituais, afetivos e políticos com rios, florestas, animais e
territórios. Kopenawa e Albert (2015) evidenciam que a devastação da floresta resulta
do avanço de uma economia de mercadorias que transforma a terra em objeto de
exploração, ameaçando simultaneamente a vida material, a cosmologia e a continuidade
dos povos. Baniwa (2019) contribui ao mostrar que a educação escolar indígena precisa
romper com heranças integracionistas e assimilacionistas, assumindo caráter
intercultural, comunitário e territorializado. Assim, a ação realizada na aldeia Gurupi
não deve ser lida apenas como atividade de limpeza e plantio, mas como prática
pedagógica situada, capaz de articular escola, território, memória, liderança e proteção
da floresta.
Essa leitura reforça que a EA em aldeias indígenas deve ser compreendida como processo
político-pedagógico e não como intervenção pontual de correção de hábitos. A atividade
realizada em Zé Gurupi aproxima-se de uma EA crítica quando transforma a aldeia em
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e-ISSN: 1647-7251
VOL. 17 Nº. 1, DT 2
Dossiê Temático Educação Ambiental, democracia e participação social
no enfrentamento da crise civilizatória provocada pelas mudanças climáticas globais
Julho 2026, pp. 153-168
Educação Ambiental na Aldeia Indígena Ka’apor (Zé Gurupi):
Sensibilização e Práticas Sustentáveis
Davi Sousa de Sousa, Lieide Vidal de Lima, Ronald Assis Fonseca,
Clélio Rodrigo Paiva Rafael, Franciel Rex
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espaço de leitura do mundo, permitindo que os estudantes observem o território,
identifiquem problemas ambientais, escutem as lideranças e participem de ações
coletivas. No entanto, para evitar superficialidade, é necessário explicitar que problemas
como lixo, desmatamento, poluição e mudança nos hábitos alimentares não surgem
isoladamente. Eles se relacionam à expansão de mercados, à fragilização de políticas
públicas, à pressão sobre territórios indígenas e à imposição histórica de modelos de
desenvolvimento que desorganizam formas próprias de vida. Nessa perspectiva, a escola
indígena pode assumir papel estratégico ao articular conhecimentos científicos, saberes
comunitários e reflexão crítica sobre as estruturas que produzem a degradação
ambiental.
Ao mesmo tempo, as evidências sugerem que ações pontuais, embora relevantes, não
são suficientes para alterar estruturalmente práticas de consumo, manejo de resíduos e
relação com o território. Araújo et al. (2013) argumentam que a EA indígena precisa ser
concebida em consonância com políticas blicas, marcos legais e iniciativas que
garantam condições materiais, formação adequada de professores e continuidade das
práticas educativas.
Em linha com essa perspectiva, Santos (2020) e Oliveira, Barba e Simão (2025) indicam
que projetos e oficinas de EAl em aldeias indígenas ganham força quando fazem parte
de processos educativos mais amplos, de caráter continuado e intergeracional. Nessa
chave, os resultados obtidos em Zé Gurupi podem ser lidos como um passo inicial: a
intervenção demonstrou potencial para mobilizar estudantes e lideranças, fortalecer o
sentimento de responsabilidade coletiva e gerar melhorias imediatas na limpeza da
aldeia, mas também aponta para a necessidade de instituir ões recorrentes de EA,
integradas ao calendário escolar e comunitário, ancoradas na história, na organização
social e nas estratégias de proteção territorial do povo Ka’apor.
Considerações finais
A experiência de Educação Ambiental na aldeia Ka’apor Gurupi mostrou que um
conjunto de ações simples (aula expositiva, plantio de mudas, caminhada diagnóstica e
mutirão de limpeza) é capaz de sensibilizar estudantes e fortalecer práticas de cuidado
com o território. A articulação entre escola, lideranças e comunidade aproximou
conteúdos de preservação ambiental da realidade concreta da aldeia, em sintonia com a
proposta de uma EAcrítica e territorializada.
Os resultados sugerem que também em contextos indígenas problemas de acúmulo
de resíduos e pressão sobre áreas de uso coletivo, como descrito para outras aldeias
brasileiras (SANTOS, 2020; OLIVEIRA; BARBA; SIMÃO, 2025; COMISSÃO PASTORAL DA
TERRA, 2023). Nesse cenário, o plantio de árvores e o mutirão de coleta de lixo
funcionaram como práticas pedagógicas que aproximam teoria e ação, à semelhança de
outras experiências que integram saberes técnico-científicos e conhecimentos
tradicionais em atividades de campo e oficinas comunitárias (SANTOS; COSTA, 2020).
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Como passo seguinte, destaca-se a necessidade de transformar iniciativas pontuais em
ações contínuas, integradas ao calendário escolar e às estratégias de proteção territorial
do povo Ka’apor. A experiência demonstrou potencial formativo, mas sua continuidade
depende de planejamento coletivo, participação das lideranças, diálogo intercultural e
condições materiais para enfrentar problemas como descarte de resíduos, consumo de
produtos industrializados e conservação dos espaços comunitários. Desse modo, a EA na
aldeia Gurupi deve ser compreendida não apenas como prática de sensibilização, mas
como processo pedagógico, político e territorial, voltado ao fortalecimento da autonomia
comunitária, da memória coletiva e do cuidado com a floresta.
Referências
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