OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
VOL. 17 Nº.1, DT 2
Dossiê Temático Educação Ambiental, democracia
e participação social no enfrentamento da crise civilizatória
provocada pelas mudanças climáticas globais
Julho 2026
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A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO-
CULTURAL NO MUNICÍPIO DO SOYO (PROVÍNCIA DO ZAIRE/ANGOLA)
MONTEIRO GUILHERME
guilherme.mo33@hotmail.com
Universidade Federal do Paraná, Curitiba (Brasil)
MARÍLIA ANDRADE TORALES CAMPOS
mariliat.ufpr@gmail.com
Universidade Federal do Paraná, Curitiba (Brasil)
Resumo
Este artigo tem como objetivo analisar a relação entre a Educação Ambiental e a preservação
do patrimônio histórico-cultural no município do Soyo, enfatizando o papel das práticas
pedagógicas nesse processo. Através da Educação Ambiental e da valorização do patrimônio,
são promovidas experiências educativas que atuam como alicerces para compreender o meio
ambiente de forma mais profunda e crítica. Essas práticas permitem recuperar narrativas
culturais que se integraram à dinâmica natural e influenciaram gerações passadas,
profundamente enraizadas em aspectos históricos e culturais únicos. O estudo concentra-se
na atuação de diversos atores, incluindo professores de história do Liceu “Madre Maria de
Fátima Martins”, do Mpinda/Soyo. O estudo seguiu uma abordagem metodológica centrada
na análise qualitativa, empregando como principais ferramentas a entrevista semiestruturada
e a revisão de fontes bibliográficas. O intuito foi aprofundar a compreensão de cada uma das
perspectivas apresentadas pelos participantes. Descobriu-se que essas atividades não apenas
fomentam a conscientização ambiental, mas também contribuem para a formação científica
e cidadã dos estudantes. Os resultados evidenciam que a integração da Educação Ambiental
com a valorização do patrimônio histórico-cultural potencializa a conscientização e a
preservação ambiental. As práticas pedagógicas contextualizadas são fundamentais para
desenvolver um senso de responsabilidade ambiental e patrimonial nos estudantes, com
vistas a formação de uma cidadania consciente e ativa em relação ao seu papel na relação
entre a sociedade e a natureza.
Palavras-chave
Educação Ambiental, Preservação do Patrimônio, Práticas Pedagógicas.
Abstract
This article aims to analyze the relationship between Environmental Education and the
preservation of historical and cultural heritage in the municipality of Soyo, emphasizing the
role of pedagogical practices in this process. Through Environmental Education and the
appreciation of heritage, educational experiences are promoted that act as foundations for
understanding the environment in a deeper and more critical way. These practices allow for
the recovery of cultural narratives that have integrated into the natural dynamics and
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A Educação Ambiental e a Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural no
Município do Soyo (Província Do Zaire/Angola)
Monteiro Guilherme, Marília Andrade Torales Campos
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influenced past generations, deeply rooted in unique historical and cultural aspects. The study
focuses on the actions of various actors, including history teachers from the "Madre Maria de
Fátima Martins" High School in Mpinda/Soyo. The study followed a methodological approach
centered on qualitative analysis, employing semi-structured interviews and bibliographic
review as the main tools. The aim was to deepen the understanding of each of the perspectives
presented by the participants. It was discovered that these activities not only foster
environmental awareness but also contribute to the scientific and civic education of students.
The results show that integrating Environmental Education with the appreciation of historical
and cultural heritage enhances environmental awareness and preservation. Contextualized
pedagogical practices are fundamental to developing a sense of environmental and heritage
responsibility in students, with a view to forming a conscious and active citizenry in relation
to their role in the relationship between society and nature.
Keywords
Environmental Education, Heritage Preservation, Pedagogical Practices.
Como citar este artigo
Guilherme, Monteiro & Campos, Marília Andrade Torales (2026). A Educação Ambiental e a
Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural no Município do Soyo (Província Do Zaire/Angola).
Janus.net, e-journal of international relations VOL. 17 Nº. 1, DT 2 Dossiê Temático Educação
Ambiental, democracia e participação social no enfrentamento da crise civilizatória provocada pelas
mudanças climáticas globais, Julho 2026, pp. 119-138. DOI https://doi.org/10.26619/1647-
7251.DT0526.7
Artigo submetido em 5 de janeiro de 2026 e aceite para publicação em 10 de maio de
2026.
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A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO
HISTÓRICO-CULTURAL NO MUNICÍPIO DO SOYO
(PROVÍNCIA DO ZAIRE/ANGOLA)
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MONTEIRO GUILHERME
MARÍLIA ANDRADE TORALES CAMPOS
Introdução
Nos últimos tempos, tem sido observada uma crescente atenção dada pela sociedade,
imprensa e Administração Pública à preservação do patrimônio cultural angolano. Após
mais de 30 anos desde a implementação da chamada Constituição Cidadã (Gungula,
2023), que estabeleceu uma sólida proteção legal sobre o assunto, tanto o poder blico
quanto a sociedade estão finalmente reconhecendo a importância compartilhada de
preservar e valorizar os bens histórico-culturais para assegurar sua transmissão integral
para as futuras gerações.
A conservação do patrimônio histórico-cultural, apesar de ser um tema pouco explorado
no contexto angolano, vem se tornando cada vez mais relevante para os gestores
públicos, especialmente no que se refere às condições de preservação dos monumentos
e locais históricos em todo o país. Nesse processo de preservação, é essencial priorizar
os bens materiais que podem estar em risco de degradação acentuada, a ponto de não
ser possível realizar sua restauração posteriormente.
A educação patrimonial pode ser aplicada em diversas áreas do conhecimento, graças à
sua natureza interdisciplinar, que inclui a Educação Ambiental. Dessa forma, ela
possibilita que os indivíduos compreendam a complexidade do mundo e atuem de forma
inovadora e crítica (Loureiro, 2004).
Os museus desempenham papel fundamental como locais de pesquisa e preservação do
patrimônio, contribuindo para a construção do saber por parte dos educandos. A
conservação do patrimônio histórico-cultural no ambiente escolar precisa ser realizada
com o intuito de instigar a reflexão dos alunos sobre a importância de valorizar todo o
1
Agradecimentos: À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio
financeiro à pesquisa do primeiro autor. Ao CNPq pelo financiamento da Bolsa Produtividade em Pesquisa da
segunda autora. Ao Centro de Educação Ambiental e Preservação do Patrimônio (CEAPP), pelo acolhimento e
estrutura de pesquisa oferecida.
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patrimônio presente nas diferentes esferas, promovendo, assim, processos de formação
da cidadania (Moraes, 2005) voltados a uma necessária transformação social.
O município do Soyo (Província Zaire/Angola), pela sua dimensão e grandeza, abriga
alguns monumentos de grande interesse histórico e cultural, tais como o Porto Rico, a
Ponta do Padrão, o Porto do MPinda, a Pedra do Feitiço e o Museu Tradicional do
Mpangala. É um patrimônio que exige uma atenção especial, pois, se não forem
preservados, esses monumentos históricos e seus locais culturais correm o risco de
desaparecimento, o que poderia significar uma grande perda para a identidade histórico-
cultural da região.
Com isso, importa compreender como a Educação Ambiental poderia representar um
processo de valorização da relação da sociedade com seu meio natural e cultural,
especialmente no que se refere às práticas pedagógicas escolares. Portanto, o presente
artigo visa analisar a relação existente entre a Educação Ambiental e a preservação do
patrimônio histórico-cultural por meio das práticas pedagógicas que envolvem
professores. Mais especificamente, nos referimos ao contexto do Liceu “Madre Maria de
Fátima Martins”, do município de Mpinda (Soyo/Angola).
Porto do Mpinda: história, cultura e natureza
O Porto do Mpinda, atualmente, destaca-se como ponto turístico, histórico e religioso
localizado no município do Soyo. Nele, encontra-se a primeira igreja católica construída
após a chegada dos portugueses em Angola, vinculada à missão católica da mesma
instituição. O Porto de Mpinda possui uma história marcante e profundamente ligada à
escravatura em Angola, sendo considerado o local inicial desse período trágico, ligado à
lógica colonialista europeia naquele momento. Dessa forma, a narrativa histórica de
Mpinda pode ser dividida em três principais períodos: Pré-colonial, Colonial e
Contemporâneo.
Na época pré-colonial, o Porto de Mpinda foi cenário de uma vivência histórica transmitida
oralmente através das gerações, conforme as tradições locais. Antes da chegada dos
colonizadores, Mpinda era conhecido como Ndomanuele Man Nguangua, enquanto seu
porto era chamado de Ntalani. Nessa fase, a região era habitada por um povo humilde,
trabalhador e devotado ao cristianismo. O Porto de Mpinda desempenha um papel central
na memória histórica da escravatura em Angola, com sua história perpetuada entre
gerações (Massanga, 2022).
De acordo com Massanga (2022), no período pré-colonial, o local era ocupado e cultivado
pela população de Ndomanuele Man Nguangua. Antes da chegada dos portugueses, o
porto servia como ponto de partida para pescadores e moradores que buscavam madeira
e outros materiais para construir suas habitações rudimentares. Além dessas atividades,
eram realizadas pesca, agricultura, colheita, caça e outras formas de subsistência que
sustentavam a comunidade local.
Destaca-se que, durante a época Pré-colonial, essas regiões não tinham contato com o
cristianismo, mas apresentavam uma forte expressão de poder tradicional centrada na
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figura do Deus todo-poderoso, conhecido como Nzabi-ya-mpungu. Nesse período,
Domanuele Man Nguagua possuía um sacerdote chamado Tató Nak (Idem, 2022).
na época Colonial, em 1482, os portugueses chegaram pela primeira vez à Ponta do
Padrão, na região de Mpinda. Ao alcançarem o Porto Mpinda, encontraram o local deserto
e procuraram saber o nome da área onde haviam desembarcado. De acordo com
Massanga (2022), os homens seguiram caminhando por uma curta distância e
depararam-se com três mulheres que estavam ocupadas limpando jinguba (amendoim).
As senhoras ficaram apavoradas ao verem, pela primeira vez, os homens de pele branca.
Diziam entre si: Olhem os albinos que acabaram de desembarcar.” Enquanto isso, os
homens que cortavam dendém ouviram os comentários e se aproximaram.
O rei do povo
2
comentou que os estrangeiros pareciam vir com boas intenções, com o
objetivo de propagar a palavra de Deus. Isso porque traziam uma cruz nas os, símbolo
de uma missão divina. Foi através desse gesto simbólico que os portugueses conseguiram
ganhar a confiança do rei, que acabou aceitando a proposta apresentada.
Figura 1. Porto do Mpinda
3
Fonte: Arquivo pessoal (2026)
No aspecto religioso, percebe-se que os portugueses sempre demonstraram uma
intenção clara de controlar também a esfera espiritual. Tal fato resultou em uma série
de tensões entre os sacerdotes do Mpinda e os missionários portugueses. Em certo
momento, a população local matou um sacerdote português, o que desencadeou grande
controvérsia. Esse evento resultou na chegada de novos missionários portugueses à
2
O título "rei do povo" é atribuído a um chefe soba, líder tradicional de diferentes grupos étnicos no país,
podendo exercer sua autoridade em uma província, município ou até mesmo em uma aldeia.
3
Antigo Porto do Mpinda que servia de travessia dos escravos transatlântico entre a África, América e a Europa.
Desde o fim do tráfico de escravos em Angola, em 1858, e nos países africanos de língua oficial portuguesa,
este local nunca mais recebeu a atenção adequada devido à negligência das instituições responveis,
principalmente no âmbito do Ministério da Cultura. Atualmente, o espaço é utilizado apenas como um ponto
de travessia para o contrabando de combustível.
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Ponta do Padrão. Esses missionários deslocaram-se por várias localidades, como Ponta
do Padrão
4
, Tropa de Guarda Fronteira em Angola (TGFA) e Lunuango, um bairro
adjacente do município do Soyo. Em Lunuango, a população afirmou que o local ideal
para a construção de uma igreja era Mpinda, considerado um território sagrado e
carregado de poder espiritual. Finalmente, em 1937, foi erguida pelos portugueses a
Missão
5
do Mpinda com a participação ativa dos moradores locais na sua construção.
Patrimônio histórico e cultural
Em sua acepção mais ampla, derivada do latim “patrimônium”, o patrimônio diz respeito
ao legado que nos é transmitido pelas gerações passadas e que, por sua vez, procuramos
passar às gerações futuras. Embora essa definição continue válida, não é suficiente
compreender o patrimônio apenas como os testemunhos materiais do percurso histórico.
Todos os elementos tangíveis da cultura criados pelo ser humano possuem uma
existência física delimitada a um contexto temporal específico (Peralta, 2003), o que lhe
atribui contornos particulares.
O patrimônio não se resume ao que é herdado, mas abrange o que, por meio de uma
seleção consciente, um grupo relevante de indivíduos decide preservar e transmitir às
próximas gerações. Em outras palavras, uma escolha cultural embutida na intenção
de perpetuar o patrimônio cultural. Isso implica também uma sensação de pertencimento
ou posse coletiva por parte de um grupo em relação ao legado que considera partilhado.
Essa concepção de patrimônio, associada à ideia de posse subjacente, remete-nos
inevitavelmente ao reconhecimento de um valor intrínseco ao que é preservado (Idem,
2003).
No entanto, destaca-se que, nos dias de hoje, um crescente interesse pela valorização
e preservação do patrimônio, demonstrando esforços para destacar tanto bens materiais
quanto simbólicos que reflitam elementos de sua história, resistência e evolução em
diferentes contextos e significados. Considerando esse desperta de interesses, valeria
destacar o que aponta Russi (2011), sobre a compreensão do que é patrimônio, que tal
conceito surge quando selecionamos, definimos e escolhemos certos objetos, práticas e
manifestações como representantes de uma cultura, desejando que sejam preservados
e transmitidos.
A Educação Patrimonial desempenha um papel fundamental no processo de valorização
e preservação do patrimônio cultural, indo muito além da simples divulgação desse
patrimônio. Não se trata apenas de promover e disseminar os conhecimentos acumulados
no campo técnico da preservação cultural, mas, acima de tudo, de possibilitar a criação
de relações genuínas com as comunidades, que o as verdadeiras guardiãs desse
patrimônio.
4
Ponta do Padrão é um ponto turístico de grande relevância histórica, marcando o local onde os primeiros
portugueses desembarcaram em Angola em 1482. O termo "padrão" remete aos antigos "padrões dos
descobrimentos", monumentos de pedra usados pelos navegadores portugueses para assinalar territórios
explorados.
5
Comparado a uma Paróquia da Igreja Católica.
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De acordo com Canclini (1989), este conjunto de elementos culturais históricos,
artísticos, arquitetônicos e paisagísticos que compõem o patrimônio ambiental e
mantêm uma forte ligação com as culturas locais está cada vez mais em foco, afastando-
se gradualmente da ênfase no progresso. No entanto, a análise realizada aqui não busca
culpar exclusivamente a modernização econômica pelo esquecimento dos atributos,
aspectos e elementos que caracterizam e delineiam os traços culturais de um local
específico. Em vez disso, busca-se interpretar e analisar essa modernização, que por
vezes se mostra insatisfatória em relação as necessidades sociais, em diálogo com as
tradições mantidas ao longo de diversas gerações humanas.
Ao observar os artesãos, Canclini (2008, p. 353) revela porque eles “continuam a
produzir cerâmica e tecidos manuais na sociedade industrial; os artistas usam tecnologias
avançadas e ao mesmo tempo olham para o passado no qual buscam certa densidade
histórica ou estímulos para imaginar”. No meio de tudo isso, embora o patrimônio una
todas as nações, contribua para a memória coletiva e para a identidade dos indivíduos,
a desigualdade de sua formação e adoção, segundo o autor, também exige sua
investigação como espaço de luta material e simbólica entre classes, nações e grupos.
O patrimônio local e a relação com o meio ambiente
Ao longo das últimas décadas, o conceito de patrimônio tem passado por uma notável
transformação, acompanhando as flutuações do próprio entendimento de cultura e sendo
fortemente influenciado pela ascensão dos nacionalismos. Hoje, essa noção expandiu-se
significativamente, multiplicando os contextos em que é aplicada. Muitas vezes, vai além
da ideia inicial de seleção de elementos do passado para preservar no presente e
transmitir ao futuro. Abrange de forma quase indiscriminada tanto fenômenos naturais
quanto as mais diversas expressões culturais, sejam elas materiais ou intangíveis.
Choay (2014) destaca que a palavra, originalmente, estava relacionada às estruturas
familiares, econômicas e jurídicas de uma sociedade estável e enraizada no tempo e no
espaço. Contudo, ao ser moldada por diferentes qualificativos (como genérico, natural,
histórico), tornou-se um conceito “nômade”, com um percurso distinto e marcante nos
dias de hoje.
A relação entre o patrimônio cultural e o meio ambiente é evidente em muitas
comunidades nas quais a história e a cultura local estão profundamente enraizadas na
paisagem natural. Em Angola, por exemplo, a legislação prevê a proteção dos bens
culturais e do meio ambiente, reconhecendo que ambos são essenciais para a identidade
e a continuidade das comunidades. A Educação Ambiental desempenha um papel crucial
nessa interseção, ao promover uma consciência maior sobre a importância de proteger
o patrimônio cultural e o meio ambiente através da Lei de Base do Ambiente (Lei n
5/98) e da Lei do Patrimônio Cultural (Lei n.º 14/05).
De acordo com Choay (2005), o termo “patrimônio”, quando utilizado isoladamente e
sem qualificações específicas, adquiriu um poder semântico excessivo, abrangendo
diversos significados, desde o linguístico e literário (oral e escrito) até o prático,
arquitetônico, urbano e territorial. Essas interpretações podem ser aplicadas em
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diferentes escalas, seja local, nacional ou mundial. Neste sentido, o autor destaca que a
França foi o primeiro país a introduzir a noção de “patrimônio”, assimilando nela o
conceito de “monumento histórico”. A autora explica que, antes da década de 1960, a
utilização do termo “patrimônio” na França, com um sentido próximo ao atual, era
esporádica e limitada a dois momentos históricos.
Com base no exposto sobre patrimônio cultural e meio ambiente, é possível afirmar que
a preservação do patrimônio cultural é um esforço multifacetado que exige a colaboração
de diversos setores da sociedade. A Educação Ambiental emerge como uma ferramenta
poderosa para promover a conscientização e a valorização do patrimônio cultural,
integrando práticas pedagógicas que incentivam a participação ativa de todos os
membros da comunidade. A conservação do patrimônio cultural e natural não é apenas
uma questão de proteção de artefatos históricos, mas também uma forma de garantir a
continuidade e a identidade das culturas locais. Assim, é imperativo que as iniciativas de
preservação considerem a sustentabilidade ambiental e envolvam a comunidade de
maneira significativa e inclusiva.
Educação Ambiental na defesa do patrimônio histórico-cultural
Autores como Sauvé (1997) e Loureiro (2004) têm demonstrado um crescente interesse
em analisar a evolução teórica e metodológica da Educação Ambiental, para atribuir
novos significados práticos e conceituais a este campo de ações teóricas e práticas. A
Educação Ambiental, após um período inicial de surgimento e estabelecimento, expandiu-
se para um amplo espectro teórico, incorporando diferentes interpretações e
fundamentos filosóficos. Essa expansão tem provocado uma verdadeira “disputa de
paradigmas”, tensionando e enriquecendo os processos educativos na esfera ambiental
(Gaudiano, 1997).
A prática docente da Educação Ambiental não se de forma isolada de diretrizes
filosóficas e discussões teórico-metodológicas que buscam compreender a relação do ser
humano com o meio ambiente. Essas diretrizes tornam-se ainda mais complexas quando
vinculadas a modelos teóricos que analisam criticamente a realidade e as recomendações
presentes em diversos documentos orientadores do campo da Educação Ambiental.
Historicamente, a Educação Ambiental tem sido orientada por diferentes paradigmas que
norteiam diretamente sua dimensão prática. Embora a multiplicidade de paradigmas
possa ser positiva por fomentar discussões, ela também pode resultar em lacunas na
compreensão do tema. Segundo Capra (2006), um paradigma é um conjunto de
conceitos, valores e percepções compartilhados por uma comunidade científica,
formando uma abordagem específica para compreender a realidade. Carr e Kemmis
(1988) complementam, afirmando que um novo paradigma surge quando a
necessidade de desenvolver uma base teórica para explicar aspectos específicos de um
problema.
O paradigma comportamentalista foca na modificação do comportamento humano por
meio de práticas educativas que incentivam ações ecológicas corretas. o paradigma
emancipatório visa a transformação social e a emancipação dos indivíduos através da
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educação crítica e reflexiva, promovendo uma compreensão mais profunda das relações
sociais e ambientais.
A Educação Ambiental, quando aplicada à preservação do patrimônio histórico-cultural,
assume um papel fundamental na formação de uma consciência crítica e cidadã. Essa
integração busca o apenas a proteção do meio ambiente, mas também a valorização
e conservação dos bens culturais e históricos, promovendo uma conexão entre a
identidade cultural e o desenvolvimento sustentável.
Precedentes legais e documentos relevantes da prevenção do
patrimônio histórico-cultural em Angola
Durante 30 anos, a preservação do patrimônio cultural construído foi inicialmente
respaldada pelo Decreto Presidencial n80/76, de 3 de setembro. Esse decreto serviu
como um meio de regulamentar o acesso, a fruição e a proteção dos bens culturais,
incluindo a salvaguarda de diversos atos normativos de classificação de bens de interesse
histórico e arquitetônico.
A Constituição da República de Angola estabelece como uma das responsabilidades
primordiais do Estado a promoção do desenvolvimento harmonioso e sustentável em
todo o território nacional, protegendo o patrimônio histórico, cultural e artístico nacional
(artigo 21º).
Uma parte significativa desses instrumentos jurídicos de classificação de monumentos de
caráter histórico e arquitetônico foi elaborada e divulgada no Diário Oficial antes da
Independência Nacional. Por essa razão, o Decreto Presidencial 80/76, de 3 de setembro,
ganha relevância por ser, se não o primeiro, o mais importante ato legal emitido pelo
Governo da Primeira República de Angola nos anos 70.
O Decreto Presidencial n.º 80/76, de 3 de setembro, adequou os regulamentos anteriores
de classificação à legislação angolana em vigor após a independência do país. Este
decreto considera válidos e integrantes do “patrimônio histórico-cultural do povo
angolano” todos os bens que preencham os critérios para classificação ou estejam em
processo de classificação (Artigo 1º). O mencionado Decreto Presidencial estabelece de
forma taxativa quais bens estão sujeitos à proteção legal.
Dessa forma, são consagrados como monumentos históricos, desde que avaliados pelo
órgão competente, “os edifícios, locais de caráter especial, estátuas, pontes, construções
de variados tipos”. No que diz respeito aos objetos materiais, esse decreto conferiu
competência à Direção dos Serviços de Museologia do Ministério da Educação e Cultura
(agora Instituto Nacional do Patrimônio Cultural do Ministério da Cultura) para, dentre
outras responsabilidades, realizar o inventário, classificação e restauração desses
objetos, podendo estabelecer as condições de uso dos edifícios classificados. Dessa
maneira, está em conformidade com o estabelecido no artigo 1º do Decreto Presidencial
80/76, de 3 de setembro, que determina que a autoridade governamental competente
deve inventariar e classificar os objetos considerados de interesse histórico-cultural para
o povo angolano.
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A Lei do Patrimônio Cultural aprovada pela Lei n.º 14/05, de 7 de outubro, foi publicada
em um momento que já havia a disciplina básica sobre os eventuais direitos reais sobre
os imóveis classificados. A lei consagra, de fato, as bases da política e do regime de
proteção e valorização do patrimônio cultural considerando como de interesse relevante
para a compreensão, permanência e construção da identidade cultural angolana.
A prática de Educação Ambiental e o patrimônio histórico-cultural
A ideia de patrimônio tem sido amplamente reconhecida por instituições nacionais e
internacionais como um legado pertencente ao mundo. De maneira semelhante, o
conceito de patrimônio cultural é descrito como uma “herança da humanidade” (Unesco,
2005). Nesse contexto, tanto o patrimônio natural quanto o cultural são identificados
como componentes fundamentais de uma mesma relação que se estabelece entre o ser
humano e a natureza, sob uma perspectiva prática. Essa prática é compreendida como
uma manifestação das liberdades humanas por meio da ação cotidiana concreta: um ciclo
de ação-reflexão-ação. Diante disso, reforça-se constantemente a importância de uma
responsabilidade ambiental em relação à preservação do patrimônio mundial (Unesco,
2005).
A conservação do patrimônio cultural se apresenta como um elemento indispensável nos
processos vinculados ao modelo atual de desenvolvimento da sociedade capitalista,
especialmente no contexto do que se busca como desenvolvimento sustentável. Estudos
como os de Ghimire e Pimbert (2000) destacam que as áreas protegidas, embora sejam
ambientes naturais por abrigarem ecossistemas em constante transformação, também
devem ser analisadas sob uma perspectiva social e cultural, considerando-se como
espaços sociais. Segundo os autores, fica evidente a estreita conexão entre seres
humanos e natureza, visto que qualquer alteração nos ecossistemas requer o
reconhecimento e o entendimento do papel específico exercido pelos seres humanos,
que, por sua vez, são igualmente uma das espécies que integram o ecossistema.
Para qualquer intervenção nas áreas de proteção, sejam elas parte do patrimônio natural
ou cultural, é indispensável o envolvimento ativo da comunidade para garantir o
engajamento de diversos sujeitos e grupos. Nesse contexto, é preciso promover
processos que adotem uma perspectiva mais crítica da Educação Ambiental e que
promova transformações na realidade, especialmente ao envolver a comunidade local na
análise e na compreensão das questões ambientais.
Segundo a Unesco (2005), considerar uma Educação Ambiental com base em valores
sociais mais amplos, que reconheça o ser humano como parte indispensável no processo
de construção do que se entende por patrimônio natural e cultural, implica em refletir
sobre estratégias que promovam autonomia e liberdade humanas dentro da sociedade.
Isso envolve abordar o ser humano sob uma perspectiva praxiológica e ontológica, com
vista a transformações mais profundas.
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O patrimônio histórico-cultural sob olhar da Educação Ambiental
De acordo com Loureiro (2004), a Educação Ambiental atua a favor da transformação da
sociedade, inspirada no fortalecimento dos sujeitos e na prática da cidadania. Esta
educação busca dar passos para superar as pressões da sociedade capitalista, e assim
compreender a complexidade do mundo em sua totalidade, por meio de uma educação
que se baseia nos objetivos da pedagogia crítica e emancipatória.
De acordo com Freire (1976), a educação precisa ser pensada como algo inerente ação
humana, que transforma natureza em cultura, imprimindo-lhe significados e
transportando-a para o campo da certeza de estar e participar do mundo, participar da
vida (Carvalho, 2000).
Nessa perspectiva, de acordo com Loureiro (2004), a Educação Ambiental atua nas
dimensões históricas esquecidas pela educação, envolvendo o fazer educativo, no que
concerne ao entendimento da vida e do meio natural, e revelando ou denunciando as
dicotomias da modernidade capitalista e do paradigma analítico-linear, não dialético.
Para Carvalho (2000), a educação é concebida como aquilo que se relaciona com a
atividade humana, que transforma o ambiente em cultura, dando-lhe sentido e tornando
um lugar que determina a vida e a participação no mundo. Nesse sentido, segundo
Loureiro (2004), os estudos ambientais o conduzidos a partir de uma perspectiva
histórica, deixando de estudar, para fins de pesquisa, a fim de compreender a vida e o
meio ambiente, e de apresentar ou criticar aspectos do mundo.
Sendo assim, é possível considerar que os monumentos históricos fazem parte do
patrimônio histórico-cultural e das tradições de diferentes povos, desempenhando um
papel importante na preservação, valorização e apresentação de questões relacionadas
à história e à memória, que podem ser definidas por meio de lugares, figuras ou pessoas
(Pacheco, 2017). Neste sentido, valeria lembrar que para Teixeira et al. (2005), a
Educação Ambiental e a educação patrimonial se assemelham, uma vez que ambas têm
como foco o desenvolvimento cidadão em prol das economias locais através do estímulo
ao turismo e à sustentabilidade.
Dessa forma, a preservação do patrimônio cultural implica na valorização e proteção da
cultura material e da memória coletiva, em âmbito local, regional ou nacional. Os
elementos e expressões do patrimônio cultural servem como base para a realização de
atividades educativas que buscam explorar, por meio de questionamentos, todas as
facetas desse patrimônio, enriquecendo conceitos e saberes (Noelli, 2004). E, é
justamente na imbricação entre a Educação Ambiental e a Educação Patrimonial que se
buscou os elementos necessários para a reflexão que hora propomos, considerando as
características e a história de Angola, um país marcado por um longo período colonial.
Metodologia
Este estudo adotou uma abordagem metodológica baseada na análise qualitativa,
utilizando como principais instrumentos a entrevista semiestruturada e consultas a fontes
bibliográficas, com o objetivo de examinar detalhadamente cada perspectiva dos
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participantes. As opiniões coletadas para a pesquisa foram obtidas na escola Liceu “Madre
Maria de Fátima Martins”, situada no município do Soyo. Durante esta fase, foram
envolvidos professores de história, diretamente encarregados de implementar práticas
pedagógicas que promovam a preservação do patrimônio histórico-cultural da região,
com especial atenção ao Porto do Mpinda.
Por meio de uma abordagem qualitativa e com base em fontes bibliográficas e entrevista
semiestruturada a pesquisa reúne nas considerações finais as principais descobertas e
reflexões em torno dessa interseção, proporcionando uma visão abrangente que conecta
os conceitos examinados ao longo do estudo. Serão enfatizadas as implicações práticas
e teóricas das conclusões, demonstrando de que maneira a integração dessas áreas pode
favorecer tanto a preservação ambiental quanto a do patrimônio cultural. O questionário
foi aplicado aos professores, permitindo-nos obter dados detalhados sobre suas práticas
e percepções.
A análise dos dados seguiu uma abordagem interpretativa, conforme descrito por Bardin
(2011). Após a coleta das perguntas das entrevistas semi-estruturadas, os dados foram
organizados e categorizados para identificar padrões e temas recorrentes. Essa análise
de opiniões permitiu-nos compreender as práticas pedagógicas e as percepções dos
professores sobre a integração da Educação Ambiental com a preservação do patrimônio
histórico-cultural. A identificação dos professores inqueridos seapresentada por P1 e
P2.
Depoimento dos professores do Liceu “Madre Maria Martins” do Mpinda
sobre a preservação do monumento histórico-cultural do Porto do
Mpinda/Soyo
Para analisar a realidade vivenciada no Porto do Mpinda no que diz respeito à sua
conservação e à prática de Educação Ambiental, vinculadas aos objetivos deste estudo,
investigamos as experiências dos professores do Colégio Madre Maria de Fátima Martins.
O objetivo é analisar as práticas pedagógicas dos professores relacionadas à preservação
do patrimônio histórico-cultural e sua conexão com a Educação Ambiental, considerando
as práticas educativas inseridas nesse contexto. A abordagem está pautada na
identificação dos principais desafios enfrentados na formação e valorização docente, na
proposição de ações estratégicas voltadas para a adaptação das práticas de Educação
Ambiental e na reflexão sobre o processo de implementação dessas práticas pedagógicas
nas escolas blicas do município do Soyo. Todo esse estudo é embasado nos sentidos
e significados atribuídos e produzidos pelos próprios professores dessas instituições.
Entre os dois professores entrevistados, suas opiniões mostraram-se divergentes na
seguinte abordagem: A análise realizada pelos professores aponta como principais
desafios na formação docente, no que diz respeito à preservação ambiental e à Educação
Ambiental no município do Soyo, a carência de formação específica nessa área, a limitada
oferta de programas de capacitação, a insuficiência de materiais didáticos, a
desvalorização da profissão docente e a inexistência de políticas educacionais sólidas e
direcionadas para esse propósito.
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Quanto a prática pedagógica ou de ações sobre a preservação do meio ambiente e
especificamente os sítios e monumentos histórico culturais, como é caso do porto do
Pinda, os professores 1 e 2 apontam a falta de formação específica de professores como
um dos principais desafios na Educação Ambiental e preservação do meio ambiente no
que a Preservação do Patrimônio e monumentos histórico-culturais.
O Porto do Mpinda
6
é um local histórico, é um local onde aconteceram os
primeiros batismos dos cristãos católicos na região norte do nosso país, mas,
neste momento, o porto do Mpinda não é um lugar muito explorado porque,
como vemos, não encontramos lá vestígios de quase nada, encontramos um
círculo que mostra com desenhos que ilustram os primeiros seres que
foram batizados e, fora disso, não mais nada, pelo menos a última
vez que estive não encontrei nada de relevância. Seria bom se fossem
mais pessoas a visitar para ver se melhoram o estado do local em questão,
porque é um local histórico e que não deveria estar nas condições em que se
encontra, mas, a grande questão não é conhecer a história, mas sim ter
conhecimento, formação sobre a conservação do meio ambiente e ao mesmo
tempo ter domínio de assuntos ligados a Educação Ambiental para trazer a
conservação deste lugar (P1).
Não tem havido práticas com os alunos por falta de condições para o efeito,
porém, nós professores também carecemos de materiais para a realização
de práticas sustentáveis para melhor preservar o espaço, ainda mais por falta
de segurança no local, não temos como levar os alunos, acho que primeiro
temos que velar pela segurança dos alunos antes de fazer qualquer atividade
educativa no local (P2).
A análise das declarações dos professores entrevistados revela uma forte propensão à
formalização da Educação Ambiental, juntamente com a indicação da necessidade de
ações informativas e conscientizadoras. Tal abordagem enfatiza a dimensão educativa
tradicional perceptível no conceito de Educação Ambiental adotado pelos docentes.
Além disso, destaca-se a importância de valorizar iniciativas práticas e comunitárias,
considerando que os monumentos e sítios estudados estão inseridos nas comunidades
locais. Essa proximidade entre teoria e prática favorece um maior envolvimento
comunitário e reforça a concepção da Educação Ambiental como um processo social,
coletivo e participativo.
Entretanto, a aplicação da Educação Ambiental no ensino formal enfrenta inúmeros
obstáculos. Carvalho (2005) reflete sobre o desafio de integrar a EA dentro da estrutura
escolar, dado o seu caráter transversal. Ele aponta que, por ser transversal em diversos
aspectos, a EA pode parecer estar presente em todas as áreas do currículo, mas ao
mesmo tempo carece de um espaço específico e delimitado.
6
Entrevista concedida pelos Professores 1 e 2 (P1 e P2), agosto de 2025.
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Para superar as dificuldades relacionadas à transversalidade, Cuba (2010) defende que
a Educação Ambiental seja tratada como uma disciplina específica na escola, sem perder
seu caráter interdisciplinar. Santos (2021) também compartilha dessa perspectiva ao
sugerir que a inclusão de uma disciplina voltada para os problemas ambientais nos
currículos escolares poderia incentivar mudanças significativas no comportamento dos
estudantes, transformando-os em verdadeiros defensores do meio ambiente,
promovendo atitudes ecologicamente equilibradas e saudáveis.
Quanto à preservação deste lugar histórico e concernente às práticas ambientais:
O fundamento legal e teórico que conecta a preservação de patrimônios históricos às
práticas ambientais es alicerçado na ideia de meio ambiente cultural. Tanto a legislação
quanto a doutrina apontam para a integração do patrimônio histórico como um elemento
essencial à qualidade de vida e à construção da identidade coletiva da sociedade.
Desde que estou nessa escola nunca ouve práticas de conservação ambiental,
podemos até visitar os locais históricos, sendo eu professora de história e
mesmo o porto do Pinda que fica próximo da nossa escola, mas, de visita e
descrever a história de como chegaram aqui neste lugar os portugueses não
passa. Portanto no meu ponto de vista deveria existir mias aproximação
entre as entidades e os docentes para juntos encontrarmos soluções para
este grande problema (P1).
Na fala da P1, observa-se que, em certo momento, não menção a visões ou a
diferentes formas de conservação do espaço, o que remete ao período em que a docência
era percebida como uma atividade guiada por princípios de criatividade, sendo
compreendida como um ato de fé, ou em que o professor era associado à afetividade.
Contudo, é fundamental que os professores conectem a prática social dos alunos ao
conteúdo escolar, promovendo uma aquisição do conhecimento que seja tanto crítica
quanto reflexiva. Nesse contexto, para o P2 fala em degradação dos espaços:
Quanto à sua preservação, o P2 considerou que o mesmo deixa muito a
desejar, tanto aos agentes governamentais do município, tanto os locais
como é caso dos professores. Tem havido algumas excursões por parte de
alguns professores de algumas escolas, como a escola privada Ensansi,
Pitruca, administrada por gestores cubanos e portugueses, e também a
escola missionária da Paróquia Coração Imaculada de Maria o Francisco de
Assis do Kikudo-Soyo. Por fim, tem havido missas realizadas pela missão
Católica do Mpinda em honra aos primeiros batizados, mas ainda assim deixo
aqui um alerta no sentido de continuarmos a fazer do espaço uma mola que
impulsiona a atividade acadêmica, olhando a nossa criatividade, esforço e a
prática pedagógica.
O entrevistado destaca a relevância da sensibilidade, entendida como essencial para que
o educador perceba toda a complexidade envolvida no processo de ensino. A
sensibilidade é, em si, uma forma de conhecimento: uma experiência reflexiva e
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constante (Pimenta, 2002). No entanto, é o P2 quem primeira chama a atenção para a
criatividade no ato de conhecer os sítios e monumentos históricos da cidade, bem como
na prática e conservação do meio ambiente, ressaltando sua finalidade e sentido
pedagógico:
E sobre a importância, o P2 destaca ainda que estão formando estudantes que,
futuramente, serão os professores e estes devem prestar maior dedicação edar maior
importância nos monumentos e sítios históricos para juntar a preservação do meio
ambiente. Também alerta para o distanciamento existente entre a preservação do meio
ambiente e a educação básica. É essencial que os alunos reconheçam que o
conhecimento adquirido no ensino é científico, mas é igualmente fundamental que os
professores percebam que cada aluno é único. Nesse contexto, essas diferenças podem,
por vezes, refletir nas relações de poder ou na própria forma de ser. Destaca-se aqui
alguns sinais evidenciados:
O lastimável mesmo são os sinais de abandono e também a não existência
de um sinal ou símbolo que demonstre que deste lugar houve um Porto que
representou a escravidão nos séculos passados. Não existem objetos que
identifiquem que esse lugar foi usado para levar africanos congueses para o
outro lado do Atlântico, o que deixa a desejar, porque quando o pessoal
chega no local, a primeira pergunta que faz: O porto é esse? Por isso, deve-
se fazer alguma coisa que dignifique esse pedaço da nossa história, porque
o porto do Mpinda faz parte do patrimônio cultural da humanidade do antigo
reino do Congo (P2).
De fato, o porto pode servir como fonte de rendimentos através das políticas de fomento
do turismo do governo angolano, como forma de gerar empregos e desenvolvimento da
região. Quanto à Educação Ambiental, os professores não aproveitam este espaço para
suas práticas por desconhecimento do assunto, o que o torna cada vez mais
desagradável.
A educação patrimonial, quando integrada ao currículo escolar, assume um papel
essencial na construção do conhecimento e na formação de valores sociais indispensáveis
para o desenvolvimento moral e intelectual dos estudantes. Além disso, contribui para a
preservação dos costumes e da identidade cultural de uma comunidade, assegurando
que esses valores sejam passados às futuras gerações. Segundo Scifoni (2017), essa
abordagem educacional não amplia o entendimento dos alunos sobre o patrimônio
cultural, mas também intensifica a consciência sobre a relevância de proteger e conservar
esses itens e práticas.
As concepções contemporâneas acerca da Educação Ambiental e Patrimonial, abordadas
por Silveira e Oliveira (2020), Santos (2021), Costa e Almeida (2022), Pereira (2023) e
Martins (2024), enfatizam a importância de integrar essas áreas como um caminho
indispensável para a formação de cidadãos críticos e conscientes, comprometidos com a
promoção da sustentabilidade de forma abrangente. Nesse contexto, práticas
interdisciplinares e o uso de tecnologias inovadoras tornam-se fundamentais para atingir
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esses propósitos, garantindo uma educação que seja simultaneamente relevante e capaz
de gerar transformações significativas.
Figura 2. Liceu “Madre Maria de Fatima Martins” Mpinda/Soyo
Fonte: Arquivo pessoal (2019).
O Liceu Madre Maria Martins “Mpinda/Soyo” é uma instituição ligada Igreja Católica,
localizada no município do Soyo. Com o objetivo de proporcionar uma formação
abrangente a seus alunos, especialmente em Ciências Humanas, torna-se essencial
incentivar o conhecimento sobre o patrimônio da humanidade e a sua preservação. Nesse
sentido, é fundamental que os professores desta instituição, enquanto profissionais da
educação, colaborem com os alunos para promover um intercâmbio sólido entre o
entendimento do patrimônio cultural e a sua conservação, com especial destaque para
as práticas de Educação Ambiental.
Resultados e Discussão
Com base nos documentos analisados e nos depoimentos dos dois professores, verificou-
se uma preocupação evidente em abordar as questões ambientais, especialmente no que
se refere à conservação do patrimônio histórico-cultural e à proteção ambiental. No caso
específico dos patrimônios, percebe-se uma atenção maior por parte de todos,
especialmente dos professores, em enfrentar os desafios relacionados ao impacto
ambiental. De fato, a conservação desses espaços e a prática de ações ambientais têm
se destacado como uma das maiores preocupações contemporâneas, considerando que
a degradação dessas áreas tem se intensificado significativamente em paralelo ao
aumento da população urbana.
As sugestões foram direcionadas para fortalecer a conscientização e a valorização do
patrimônio histórico-cultural entre os professores, promovendo uma educação íntegra
em aspectos ambientais e culturais. Dentre elas, destacam-se o fortalecimento da
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criatividade por parte dos professores, o aumento das práticas com os alunos, a
conservação do meio ambiente e a continuação da manutenção dos locais e sítios
históricos.
Essa metodologia foi fundamental para alcançar os objetivos do estudo, proporcionando
uma compreensão profunda das práticas no contexto do município do Soyo e da escola
em particular. A abordagem qualitativa e a entrevista semiestruturada de quatro
perguntas aplicadas permitiu-nos explorar a complexidade das relações entre Educação
Ambiental e preservação do patrimônio histórico-cultural, destacando a importância da
intervenção educacional contínua para promover a conscientização e a responsabilidade
na preservação do patrimônio ambiental e histórico-cultural.
A legislação angolana sobre a proteção do patrimônio (Lei n.º 14/05), cujo objetivo é a
proteção, conservação e valorização dos bens culturais do país, trouxe uma grande
alavanca para a continuação da conservação e proteção dos mesmos.
Com isso, torna-se essencial refletir sobre a contribuição da Educação Ambiental no
processo de conservação e proteção dos bens culturais e do patrimônio. De um lado, há
a necessidade de expandir a conscientização da população sobre o problema; de outro,
é fundamental desenvolver alternativas para promover esse conhecimento. Isso exige
considerar diferentes níveis de responsabilidade entre os professores, dado que a
formação de crianças e jovens desempenha um papel crucial nas transformações sociais
e na construção de novas perspectivas para o futuro, abrangendo também a
sensibilização da sociedade em geral.
Considerações finais
Neste artigo, investigamos a relação entre a Educação Ambiental e a preservação do
patrimônio histórico-cultural no município do Soyo, particularmente o Porto do Mpinda,
utilizando uma abordagem qualitativa para entender como as práticas pedagógicas
podem fomentar a conscientização ambiental e a valorização do patrimônio cultural. A
pesquisa revelou que a integração de práticas educativas focadas na Educação Ambiental
e na valorização do patrimônio histórico-cultural revela uma significativa preocupação
com as questões da preservação do meio ambiente e do patrimônio histórico-cultural.
Não obstante do interesse demonstrado pelos professores em preservar o meio ambiente
e o patrimônio, destaca-se também a importância da Educação Ambiental na promoção
de experiências educativas que atuem como alicerce para a preservação do meio
ambiente. Essas práticas permitem recuperar narrativas históricas e culturais integradas
à dinâmica natural, influenciando gerações passadas e enraizadas em aspectos históricos
e culturais únicos. Observou-se que a Educação Ambiental, quando combinada com a
valorização do patrimônio cultural, não apenas promove a conscientização ambiental,
mas também contribui significativamente para a formação científica e cidadã.
É crucial implementar ações que promovam o desenvolvimento do pensamento crítico
nos professores e nos estudantes, despertando seu interesse em aprender sobre o meio
ambiente e atuar ativamente em sua preservação. É necessário transformá-los em
agentes participativos, engajados em diferentes atividades e colaborando para a criação
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de comunidades com ambientes mais saudáveis. Essa estratégia tem o potencial de
fortalecer o comprometimento dos estudantes com a conservação ambiental e incentivá-
los a desempenhar um papel ativo na aplicação de práticas sustentáveis em suas
comunidades.
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