OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
VOL. 17 Nº.1, DT 2
Dossiê Temático Educação Ambiental, democracia
e participação social no enfrentamento da crise civilizatória
provocada pelas mudanças climáticas globais
Julho 2026
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PANC E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: INTER-RELAÇÕES POSSÍVEIS PARA
FORMAÇÃO DE UM SUJEITO ECOLÓGICO DECOLONIAL
ANA BEATRIZ DA SILVA CUNHA DE BARROS
anabeabarros@icloud.com
Atualmente, é pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (FGVCes, Brasil).
Mestre em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Análise Ambiental Integrada pela
Universidade Federal de São Paulo - Diadema. Graduada em Ciências Biológicas, licenciatura e
bacharelado, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2019). Atuação com ênfase em
Educação Ambiental com foco no resgate dos saberes da terra e uso de plantas no cotidiano,
fortalecendo a integração corpo-natureza. Agente de promoção Ambiental pelo Programa
Ambientes Verdes e Saudáveis - PAVS (2022 - 2024).
LUCIANA APARECIDA FARIAS
luciana.farias@unifesp.br
Possui graduação Química pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1998), mestrado (2002)
e doutorado (2006) em Ciências pela Universidade de São Paulo. Pós-doutorado em Educação
Ambiental pelo Programa de Interunidades da USP (2015), especialização em Psicologia
Transpessoal (2017) e Pintura Espontânea (2019). Tem experiência na área de Química
Ambiental, Educação Ambiental e Psicologia Ambiental, atuando principalmente nos seguintes
temas: representações sociais, percepção ambiental, percepção de risco, educação ambiental,
educação socioemocional e questões étnico-raciais. Investiga também a relação entre as práticas
religiosas Umbanda e Candomblé e a Educação Ambiental, a partir da interpretação da Lei
Federal 11.645/08, a qual determina a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e
afro-brasileira nas escolas. Possui curso de produção de documentários na Academia
Internacional de Cinema. Coordena o projetos de ensino, pesquisa e extensão: EDUCAÇÃO
AMBIENTAL TRANSPESSOAL. Atualmente é professora Associada IV da Universidade Federal de
São Paulo, campus Diadema, do Departamento de Ciências Ambientais (Brasil) e coordenadora
do programa Análise Ambiental Integrada.
CRISTINA ROSSI NAKAYAMA
crnakayama@unifesp.br
Possui graduação em Ciências Biológicas (1994) e mestrado em Ecologia e Recursos Naturais
(1999) pela Universidade Federal de São Carlos. Doutora em Microbiologia pela Universidade de
São Paulo (2005), fez pós-doutorado no Departamento de Microbiologia da USP, desenvolvendo
pesquisa com a ecologia microbiana do ciclo do metano no ambiente marinho antártico. Exerceu
ainda a função de gerente de projeto na América do Sul para o Censo de Vida Marinha Antártica
(CAML), um projeto do Censo de Vida Marinha (CoML) que integra as atividades Ano Polar
Internacional (API). Trabalhou como supervisora na empresa CC Technologies, prestadora de
serviços de monitoramento ambiental para a Petrobras. Atualmente é professora associada 2 no
Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São
Paulo (Brasil). Como pesquisadora, tem experiência em Microbiologia Ambiental, atuando
principalmente nas seguintes áreas: ecologia e biodiversidade microbianas; ciclo do metano;
arquéias metanogênicas e bactérias metanotróficas; e biodegradação aeróbia e anaeróbia de
compostos xenobióticos.
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PANC e Educação Ambiental: Inter-Relações Possíveis para Formação
de um Sujeito Ecológico Decolonial
Ana Beatriz da Silva Cunha De Barros, Luciana Aparecida Farias,
Cristina Rossi Nakayama
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Resumo
As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) estão associadas a saberes tradicionais
que devem ser resgatados e, de maneira a favorecer a formação de um Sujeito Ecológico
Decolonial. Nesse sentido, o estudo procurou responder: como a relação PANC, sociedade e
meio ambiente pode favorecer a formação do Sujeito Ecológico Decolonial no espaço urbano?
A estratégia metodológica adotada foi a realização de dois cursos (um presencial e outro
virtual), com duração de quatro dias. O público alvo foi a comunidade do campus Diadema
(Unifesp), mas com vagas também para o público externo. As PANC foram utilizadas como
tema transversal para abordagem socioambiental e decolonial, a partir do trabalho teórico de
Malcom Ferdinand.
Palavras-chave
PANC, Educação Ambiental, Meio Ambiente, Sujeito Ecológico Decolonial.
Abstract
Non-Conventional Food Plants are associated (PANC) with traditional knowledge that must be
reclaimed in order to foster the formation of a Decolonial Ecological Subject. In this context,
the study sought to answer the following question: how can the relationship between PANC,
society, and the environment contribute to the formation of a Decolonial Ecological Subject in
urban spaces? The methodological strategy adopted involved conducting two short courses
(one in-person and one online), each lasting four days. The target audience was the
community of the Diadema campus (Unifesp), with additional spots offered to the general
public. PANC were used as a cross-cutting theme to address socio-environmental and
decolonial issues, drawing on the theoretical framework of Malcom Ferdinand.
Keywords
PANC, Environmental Education, Environment, Decolonial Ecological Subject.
Como citar este artigo
Barros, Ana Beatriz da Silva Cunha de, Farias, Luciana Aparecida & Nakayama, Cristina Rossi
(2026). PANC e Educação Ambiental: Inter-Relações Possíveis para Formação de um Sujeito
Ecológico Decolonial. Janus.net, e-journal of international relations VOL. 17 Nº. 1, DT 2 Dossiê
Temático Educação Ambiental, democracia e participação social no enfrentamento da crise
civilizatória provocada pelas mudanças climáticas globais, Julho 2026, pp. 77-96. DOI
https://doi.org/10.26619/1647-7251.DT0526.5
Artigo submetido em 5 de janeiro de 2026 e aceite para publicação em 10 de maio de
2026.
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PANC E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: INTER-RELAÇÕES POSSÍVEIS
PARA FORMAÇÃO DE UM SUJEITO ECOLÓGICO DECOLONIAL
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ANA BEATRIZ DA SILVA CUNHA DE BARROS
LUCIANA APARECIDA FARIAS
CRISTINA ROSSI NAKAYAMA
Introdução
A quem não convém a existência das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)?
Para responder a essa questão, é necessário refletir sobre os interesses ligados ao
agronegócio hegemônico, à indústria alimentícia ultraprocessada e ao modelo de
desenvolvimento urbano e econômico que marginaliza os saberes tradicionais.
Por outro lado, as PANC, são de fácil cultivo e cura para muitas doenças (Ranieri, 2017),
sendo também parte da construção cultural de um povo. Dessa forma, por mais que haja
grande incentivo para o apagamento das subjetividades relacionadas a elas, as PANC
resistem, uma vez que criaram raízes para além da terra e ainda vivem, mesmo que
restritas à algumas regiões.
As PANC carregam um acrônimo, flexível e de fácil pronúncia, trazendo em si a grandeza
de espécies pouco conhecidas pela população, sendo também um convite para o
despertar de um maior mero de indivíduos a conhecê-las, a fim de contemplar e
resgatar os saberes de mais de uma categoria vegetal em seus uso e consumo. É
imprescindível nos questionar o porquê de nossa alimentação - global - ser tão monótona
e homogênea, sendo o Brasil um dos grandes campeões em fitodiversidade, com grande
potencial para garantir comida no prato sem desperdício e veneno, mas que continua
trabalhando com tantos agrotóxicos para movimentar sua economia (Kinupp; Lorenzi,
2021). Em todos lugares do mundo, de forma regional ou local é possível se deparar com
plantas que possuem este perfil, por isso que para definir quando uma planta se torna
PANC considera-se a distribuição geográfica, incluindo plantas nativas ou exóticas, bem
1
Agradecimentos: À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo apoio
financeiro à pesquisa por meio da concessão de bolsa de estudos; e à Universidade Federal de São Paulo, por
viabilizar a realização do mestrado em Análise Ambiental Integrada.
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como aquelas que são pouco consumidas por grande parte da população. Além disso,
outro fator importante para a definição são as partes que podem ser consumidas e isso
fica a critério da região ou ocasião específicas, sendo elas: rizomas, bulbos, tubérculos,
folhas, flores ou caules (Souza, 2020).
No Brasil, historicamente, estas plantas eram conhecidas localmente e estavam
presentes na culinária dos povos originários do Brasil e da América como um todo e,
também dos povos africanos que foram escravizados no país. Mas foram sumindo da
mesa, do prato e do imaginário da população em geral (Belluzzo, 2008). Entretanto,
algumas plantas de origem indígena e africana (antes consideradas PANC) se mantiveram
e foram incorporadas nos pratos dos brasileiros, particularmente no Nordeste e no
Sudeste do país, sendo elas: palmito, milho, inhame, banana e mandioca. Porém, as
demais, que eram encontradas com mais facilidade tornaram-se escassas, como por
exemplo: a taioba, a araruta, orapronóbis, Cambuci e pinhão (Belluzzo, 2008; Cascudo,
2004).
Dentro dessa perspectiva, indo além da comum caracterização das PANC e suas relações
com o espaço, é necessário se compreender com mais profundidade essa questão, a fim
de discutir e questionar princípios, fundamentos e formas de um habitar colonial
conforme Ferdinand (2022) propõe, bem como isso se relaciona com as fraturas da
modernidade (colonial e ambiental) que implicaram na perda da diversidade das plantas
nativas - não do Brasil, mas também em outros territórios nos quais o habitar colonial
se consolidou. E que atualmente são “redescobertas” e identificadas como não
convencionais mantendo apagamento daqueles que as conhecem desde sempre.
Nesse contexto, o estudo se justifica, pois, ainda são poucos os estudos que abordam de
maneira explícita o racismo ambiental e epistemicídio, com embasamento teórico e uma
Educação Ambiental decolonial, quando tratam dos saberes sobre PANC (Schittini;
Rodrigues, 2023). A maioria dos não abordam diretamente a questão étnico-racial
quando tratam PANC, trazendo diferentes enfoques, com ênfase em dimensões
educativas, nutricionais, ambientais e culturais (Oliveira; Ludwig, 2021; Cherobini e col.,
2022; Benedito e col., 2024; Paiva Junior; Oliveira, 2024; Rodrigues e col., 2024; . Dessa
forma, embora contribuam para a valorização das PANC e para a promoção da uma
educação ambiental crítica em diferentes contextos, ao não abordarem de forma explícita
e aprofundada as questões étnico-raciais apresentam uma lacuna importante, aspecto
fundamental para compreender os saberes tradicionais, o epistemicídio e as
desigualdades no acesso à terra, ao alimento e ao conhecimento no Brasil.
Desse modo, o presente estudo procurou responder a seguinte questão de investigação:
como a relação PANC, sociedade e meio ambiente pode favorecer a formação do Sujeito
Ecológico Decolonial no espaço urbano? Pois, conforme Núñez e col. (2020) é necessário
se expor a importância de fazer dos corpos territórios, retomar saberes ancestrais e
memórias permitindo às pessoas reescreverem e imprimirem seu caminho na história,
no aqui e no agora, por meio de redes de afeto e pertencimento que favoreçam a todas
as formas de vida. Este caminho, que favorece a micropolítica, é trilhado em conjunto e
com foco em ações ambientais, a partir de um estilo de ser e viver de pessoas que
partilham valores e outros aspectos em prol da causa ambiental, mas também se
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diferenciam em sua individualidade e subjetividade, sendo um exemplo o “sujeito
ecológico”, preconizado por Carvalho (2012, p. 65), que possui múltiplas faces de ser:
Em sua versão grandiosa como um sujeito heroico, vanguarda de um
movimento histórico, herdeiro de tradições políticas de esquerda, mas
protagonista de um novo paradigma político-existencial; em sua versão o
new age é visto como alternativo, integral e equilibrado, harmônico,
planetário, holista; e também na sua versão ortodoxa, onde é suposto aderir
a um conjunto de crenças básicas, uma espécie de cartilha ou ortodoxia
epistemológica e política da crise ambiental e dos caminhos para enfrentá-
la.
Por fim, é diante de tal riqueza, que no presente estudo, enxergou-se a possibilidade de
adjetivar esse sujeito ecológico com o termo “decolonial”, partindo do entendimento que
o indivíduo, detentor de antigos saberes tradicionais, faz parte de um grupo/perfil de
pessoas que tenha amadurecido em si, ou ainda está amadurecendo a compreensão
da inter-relação que se estabelece entre a questão ecológica e a questão colonial, e
precisa ser valorizado e/ou formado nas sociedades atuais. A escolha pelo adjetivo tem
origem nas reflexões a luz de uma Ecologia Decolonial, proposta por Malcom Ferdinand
(2022), na qual ele consegue apresentar o cenário em que a apropriação da terra, o
desbravamento, o massacre de ameríndios e violências infligidas contra ameríndias, se
tornam elementos do projeto de colonização que intitula como “Habitar Colonial”, o qual
tem sustentado a estruturação de sociedades contemporâneas e, como bem nos lembra
Krenak (2022) são parte de um processo de valorização das antigas “pólis”, que inspiram
o ocidente a criar a cidade como oposto de floresta, nas quais os muros criados são
capazes de evitar todas “ameaças externas” (bichos selvagens, indígenas, quilombolas,
ribeirinhos, beiradeiros,) em prol de uma lógica sanitarista, - as quais nos dias de hoje
não são mais suportadas pela Terra -, que precisa urgente e constantemente ser
transmutada, para lógicas plurais e reais em prol da vida dos seres, corpos e vivências
ancestrais. Nesse contexto, as PANC por sua natureza diversa, local, resistente,
invisibilizada e ancestral se colocam como um contraponto direto a esse modo
insustentável de habitar o mundo.
Caminhos metodológicos para a formação e vivência do Sujeito Ecológico
Decolonial
O presente estudo, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Análise Ambiental
Integrada cujo objetivo principal é proporcionar o exercício da interdisciplinaridade
junto às discussões que envolvam a complexidade teve caráter qualitativo e como base
a metodologia de Educação Ambiental Pesquisa diagnóstico-avaliativa” levantada por
Sato (2001), que tem caráter avaliativo no sentido de superar limites, não por meio
de apontamentos, mas também a partir dos processos a serem desenvolvidos e que
indicam novas orientações para determinada temática. Esta é uma das abordagens que
permite análises dos sentidos e trajetórias envolvidas na formação teórica e prática do
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sujeito ecológico, como preconiza Carvalho (2001), e também decolonial, como preconiza
Ferdinand (2022).
O estudo passou pela aprovação do Comitê de Ética, tendo como número CAAE
71588723.2.0000.5505 / Número do Parecer: 6.295.235, e todos os participantes antes
de responderem sinalizaram de maneira positiva ao preenchimento do questionário.
Do público alvo
Camargos e col. (2022) apontam em seu estudo, que muitas pessoas, particularmente
os mais jovens, de uma forma geral, conhecem e não tiveram acesso aos conhecimentos
sobre PANC e com isso tendem a apresentar desinteresse na área. Sendo assim, a
pesquisa foi desenvolvida para comunidade da UNIFESP, campus Diadema, mas também
foram ofertadas vagas para a comunidade externa. Sendo que os participantes foram
convidados a se habilitar voluntariamente a participar do curso, que foi divulgado no site
da Unifesp, nas redes sociais e cartazes distribuídos pelo campus.
Das oficinas e coleta de dados
O curso foi ofertado em três versões: piloto, presencial e on-line. A versão piloto contou
com 30 vagas, enquanto as demais disponibilizaram 50 vagas cada, todas destinadas a
participantes com idade mínima de 18 anos e registradas como cursos de extensão no
sistema SIEX da universidade.
Para cada modalidade presencial ou on-line foram consideradas as especificidades
de linguagem e metodologia adequadas, levando em conta as possibilidades e limitações
de cada formato em termos de tempo, recursos, mediação e estratégias de
sensibilização. Também foi considerada a adoção do formato híbrido, conforme discutido
por Gaspi e Júnior (2020).
A versão piloto foi realizada entre os dias 4 e 7 de junho de 2024, das 19h30 às 21h30,
no formato presencial. Essa edição foi prejudicada pela greve nas universidades federais:
embora tenham sido registradas 19 inscrições, apenas dois participantes estiveram
presentes.
A segunda edição, também presencial, ocorreu entre os dias 28 e 31 de janeiro de 2025,
no mesmo horário. A escolha da data considerou o retorno dos estudantes do recesso de
fim de ano para a conclusão do semestre, cujo calendário foi impactado pela greve.
Houve 28 inscrições, mas apenas quatro pessoas participaram efetivamente.
Diante desse cenário, optou-se por oferecer uma terceira edição no formato on-line (com
um encontro presencial ao final), com o objetivo de avaliar se esse modelo aumentaria
a participação. Essa edição híbrida ocorreu entre os dias 19 e 22 de maio de 2025, sendo
o último encontro presencial, destinado à troca de mudas e à degustação. O curso teve
25 inscrições, com média de três a quatro participantes nos encontros virtuais e apenas
uma presença no encontro presencial.
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Ao todo, as três edições somaram 14 participantes efetivos, número que também
corresponde à quantidade de questionários respondidos. Entretanto, uma das respostas
precisou ser descartada devido ao preenchimento incorreto do questionário.
O questionário aplicado foi adaptado de Camargos e col. (2022), de maneira a avaliar os
conhecimentos prévios dos participantes sobre o tema, totalizando 29 questões. Esse
instrumento foi disponibilizado no primeiro dia do curso por meio de um QR Code, que
direcionava para um formulário no Google Forms, composto por perguntas objetivas e
dissertativas, organizadas em três blocos (Apêndice IV): caracterização dos
participantes, hábitos de consumo alimentar e conhecimentos sobre PANC.
O primeiro bloco coletava informações de identificação, como cidade, estado, idade,
identidade de gênero, área de formação e motivação para participar do curso. Cada
participante registrava um código orientado pela pesquisadora, garantindo o anonimato.
Essa etapa visava compreender o sujeito que chegava ao curso trazendo consigo sua
bagagem pessoal, construída socialmente.
O segundo bloco foi composto por perguntas voltadas à compreensão ca[ v dos hábitos
de consumo alimentar e da relação com as plantas, considerando seu uso como alimento
ou em práticas cotidianas (como plantas ornamentais, frutíferas, ervas aromáticas e
PANC). As questões buscavam identificar a frequência de consumo, a valorização, a
origem dos alimentos e os motivos associados às escolhas alimentares.
Por fim, o terceiro bloco concentrou-se no nível de conhecimento prévio sobre PANC. Os
participantes foram convidados a descrever, por meio de palavras livres, o que lhes vinha
à mente ao ouvir o acrônimo "PANC", além de responder se sabiam consumi-las, se todas
são comestíveis e se cultivavam essas plantas em casa.
Da proposta: curso PANC, Pessoas e Perspectivas Plurais
O curso “PANC, Pessoas e Perspectivas Plurais” foi desenvolvido com base em um plano
de ensino elaborado pelas autoras, tendo como objetivo principal propor uma reflexão
crítica e sensível sobre a formação do sujeito ecológico e o consumo de PANC, a partir
de uma perspectiva decolonial, reafirmando a importância dos vínculos entre o meio
ambiente e as dimensões humanas na construção social contemporânea.
Cada encontro do curso foi estruturado a partir de um plano de aula, considerando-se a
carga horária de duas horas por dia. Foram detalhadas as atividades, os objetivos e a
descrição dos conteúdos a serem abordados em cada bloco do encontro, sempre em
diálogo com a pergunta de investigação da pesquisa. Sendo que foram organizados com
base em uma trajetória temática e reflexiva, estruturada da seguinte forma:
1º dia Por que formar um sujeito ecológico decolonial?
2º dia Terra, mãe, casa, colônia e quintal
3º dia Daninhas que alimentam o SER
4º dia Conhecer, plantar e (a)colher
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O primeiro encontro, intitulado “Por que formar o sujeito ecológico decolonial?”, marcou
o início da jornada reflexiva proposta pelo curso. O objetivo foi promover um olhar crítico
sobre o sujeito em questão, suas motivações e inquietações diante da crise
socioambiental contemporânea. Para isso, iniciou-se a aula com uma atividade de
sensibilização: a leitura coletiva do poema Eu, Etiqueta”, de Carlos Drummond de
Andrade. A proposta era estimular a percepção do consumo como elemento estruturante
do sistema capitalista, o qual dita os rumos da sociedade da qual fazemos parte.
Em seguida, foi introduzido o conceito de sujeito ecológico, conforme proposto por
Carvalho (2001), possibilitando a fundamentação teórica para uma crítica ao modelo de
consumo dominante e seus impactos na crescente crise ecológica global.
Na segunda parte do encontro, o adjetivo “decolonial” foi agregado ao conceito de sujeito
ecológico, com o intuito de contextualizar a razão de ser do curso: ampliar a
compreensão crítica desse sujeito diante dos processos históricos de colonização e suas
consequências. Para tanto, foi apresentada a imagem da primeira missa realizada em 26
de abril de 1500, marco simbólico da colonização europeia no Brasil. A proposta foi
tensionar os discursos hegemônicos sobre a origem do país, contrapondo o que é dito
com o que foi vivido por aqueles que habitavam esta terra antes da invasão colonial.
Essa reflexão foi sustentada pela fala de Ailton Krenak, que afirma:
O Brasil o existia, o Brasil é uma invenção, e a invenção do Brasil nasce
exatamente da invasão inicialmente feita pelos portugueses, depois
continuada pelos holandeses e, depois, pelos franceses num moto
contínuo, onde as invasões nunca tiveram fim. Nós estamos sendo invadidos
agora (Bolognesi, 2018, episódio 1).
As implicações desse processo colonial seguem sendo determinantes na constituição das
relações sociais e raciais no Brasil. Como aponta Carneiro (2023), trata-se de um
dispositivo de racialidade que, desde o período escravista, garantiu às pessoas brancas
a liberdade de Ser, enquanto negava esse direito às pessoas negras, relegadas à condição
de força de trabalho compulsória. Mesmo após a abolição, esse padrão foi mantido: a
população negra foi excluída dos processos de transição social e econômica, sendo
novamente empurrada para as margens, sem acesso a emprego, moradia ou dignidade.
Em muitos casos, essas pessoas foram reduzidas a objetos de estudo, servindo como
base de dados para pesquisas conduzidas por cientistas brancos, sem qualquer
protagonismo.
Nesse contexto, o curso propunha o reconhecimento e a valorização de um sujeito que
não nasce agora, mas que séculos resiste e sobrevive às mazelas do "Habitar
Colonial", como conceituado por Ferdinand (2022). Este sujeito existe, está
presente, mas teve e continua tendo o direito de Ser sistematicamente negado, desde
os primeiros navios negreiros que aportaram na África e nas Américas, antes mesmo da
constituição do Brasil como nação. Por fim, aos participantes, após essa introdução ao
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conceito de Habitar Colonial, foram apresentados os múltiplos rostos, cores e valores do
Sujeito Ecológico Decolonial.
O segundo encontro, “TERRA: e, casa e quintal”, demarcou o momento de
apresentação e reconhecimento do conceito de “Habitar colonial” trazido por Ferdinand
(2022) e dos impactos dessa experiência ocidental que provocou o apagamento de
saberes tradicionais latinoamericanos e africanos, com intuito de refletir sobre a
importância de sensibilizar a população à pluralidade social e à diversidade vegetal na
formação do sujeito ecológico decolonial. Os participantes foram convidados a sentir e
reconhecer esse Outro, outrora negado. Para contextualizar essa questão, foi
apresentado uma fala de Jerá Guarani (2024, p. 1), que nos convida a pensar sobre o
Ser e sua relação com o ambiente, falando de sua própria cultura, a Guarani: “Nasce
também a necessidade de falar, de divulgar a cultura Guarani, as culturas indígenas e o
modo de vida, [dizer] que é absolutamente possível, normal, saudável e necessário viver
junto dentro da natureza”.
No terceiro encontro, as PANC foram apresentadas como parte integrante da Teia da
Vida, estabelecendo conexões entre a abordagem naturalista da Educação Ambiental
(Sauvé, 2005) e uma perspectiva crítica de valorização dos saberes populares. Essa
articulação foi enriquecida pelos conceitos de Refazenda, obra de Gilberto Gil vinculada
ao movimento da contracultura (Souto, 2021), e pela visão sistêmica e relacional da
complexidade (Capra; Luisi, 2014).
A atividade proposta envolveu a entrega de cartas a cada participante, representando
um ser vivo. Cada carta trazia informações sobre localização geográfica, hábitos e
características gerais. Em seguida, cada pessoa se apresentava ao grupo, interpretando
seu ser de forma criativa e sensível, sem revelar diretamente o nome ou a espécie
representada.
A cada apresentação, um fio de barbante era passado entre os participantes, tecendo,
ao final, uma representação simbólica e visual da Teia da Vida. Essa dinâmica evidenciou
a interdependência entre todos os seres e reforçou a ideia de que fazemos parte de um
movimento coletivo de resgate de pessoas, sementes e saberes.
O exercício propiciou um aprofundamento na temática das PANC, integrando os
conteúdos discutidos anteriormente e promovendo uma análise interdisciplinar e crítica
sobre os modos de habitar, cultivar e conhecer o mundo.
Na versão on-line, essa dinâmica foi realizada sem o barbante, e a relação estabelecida
foi dialogada.
O último encontro (tanto na versão presencial, quanto na on-line), foi marcado por uma
sensibilização centrada nas PANC como elementos vivos que compõem a mesa, o
cardápio cotidiano e a resistência de pessoas e territórios historicamente silenciados e
apagados. A atividade trouxe à tona discussões sobre cultura, território, identificação de
plantas e a resiliência que permeia os saberes populares associados à alimentação e ao
cultivo.
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A proposta teve início com um momento de degustação e troca de mudas de Taioba,
Capuchinha, Chaya e Ora-Pro-Nobis, criando um espaço de troca afetiva e material entre
os participantes. Em seguida, foi realizada uma dinâmica sensorial de despertar dos
sentidos tato, olfato, paladar e escuta por meio da manipulação e observação das
plantas, convidando cada participante a narrar memórias, sentimentos e saberes
evocados pelo contato com aquelas espécies.
Essa vivência conduziu a uma abertura para perspectivas plurais sobre o mundo natural
e social, reforçando a formação de um sujeito ecológico decolonial alguém que
reconhece as diferentes formas de vida como parte de sua identidade, história e modos
de habitar o mundo.
Análise dos resultados
A análise ambiental integrada foi conduzida a partir de uma avaliação quali-quantitativa,
conforme a abordagem proposta por Camargos et al. (2022), aliada à avaliação da
percepção ambiental dos participantes. Esta última foi orientada pela lógica de formação
de um “sujeito ecológico decolonial”, conceito elaborado a partir de uma síntese teórica
fundamentada nos trabalhos de Sato (2001), Carvalho (2001) e Ferdinand (2022).
A proposta também incorporou uma análise e síntese de caráter interdisciplinar, nos
termos sugeridos por Slavicek (2012), que defende a superação da mera justaposição
de saberes. No presente estudo, essa integração envolveu os campos da Botânica (com
foco nas PANC), da Filosofia (por meio das epistemologias plurais na concepção de
sujeito), das Ciências Ambientais (em especial a Ecologia e a Ecologia Decolonial) e da
Educação Ambiental (com ênfase na formação do sujeito ecológico decolonial).
Essa perspectiva permitiu ultrapassar os limites das abordagens tradicionais de análise
e resolução de problemas, promovendo uma compreensão crítica das questões
socioambientais como construções históricas atravessadas pelo colonialismo e pelas
consequências da diáspora africana elementos que contribuíram para a desvalorização
dos saberes tradicionais e das múltiplas formas de relação com a natureza.
Resultados e Discussão
O curso “PANC, Pessoas e Perspectivas Plurais”, em suas três versões, apresentou
resultados que ora se aproximaram, ora se distanciaram entre si, sendo que a análise foi
feita a partir dos diálogos estabelecidos e das respostas dadas pelos participantes. Na
primeira parte, foram descritos o número de inscritos e de participantes, enquanto, na
segunda parte, a partir das respostas ao questionário, analisou-se apenas o conteúdo
dos participantes do curso.
De uma maneira geral, ainda que o número de concluintes tenha sido baixo (14
participantes), o curso atraiu perfis variados, o que reforça seu caráter interdisciplinar,
plural e de diálogo entre saberes. Áreas como Educação, Ciências Ambientais/Biológicas
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e Saúde foram mais recorrentes (inclusive entre os concluintes), revelando aderência
natural ao tema.
Por outro lado, o interesse de indivíduos de áreas como Engenharia, Gestão e
Computação foi um indicativo da relevância transversal do debate sobre PANC, inclusive
em campos tradicionalmente menos associados ao tema.
Tal resultado se aproxima do resultado obtido no estudo conduzido por Winch (2023),
nos quais formatos presenciais, on-line e híbrido não tiveram diferenças significativas no
percentual de participação. Os resultados obtidos no presente estudo também não
parecem estar ligados diretamente ao formato, mas sim ao contexto de instabilidade
institucional (greve) e, possivelmente, a uma fragilidade no vínculo dos estudantes com
atividades extracurriculares de uma maneira geral.
Em estudos futuros seria importante investigar outros fatores que impactam a frequência
em cursos de extensão em tempos de instabilidade e estabilidade institucional. Além de
avaliar as expectativas e motivações dos inscritos, barreiras logísticas (horário,
transporte, local), engajamento com a temática do curso e estratégias de comunicação
e divulgação.
Ao considerar as três edições do curso (Piloto, Presencial e Online), é possível traçar um
panorama do perfil geral dos participantes (Tabela 1). O formato on-line atraiu
participantes de mais cidades e regiões periféricas, indicando maior capilaridade
territorial, bem como também teve a predominância clara de estudantes da UNIFESP,
sugerindo maior adesão institucional ao curso remoto, talvez por acesso mais direto à
divulgação digital. Mesmo com número semelhante de inscrições nas três edições, a
edição on-line teve maior presença média por encontro, ainda que baixa, indicando leve
vantagem do modelo remoto em termos de engajamento real.
Tabela 1. Perfil dos participantes nas edições presenciais vs. edição online (Bloco 1 do
questionário).
Fonte: autoria própria.
Característica Presenciais
(Piloto + Jan/2025)
On-line
(Maio/2025)
Participantes
6 (2+4)
8 (com variação média 3-4 participantes
nos encontros online)
Cidades
3 (Diadema, Cotia, São Paulo)
4 (SP, São Caetano, SBC,
Itapecerica)
Faixa Etária
50% ≥25 anos
62% ≥ 20 anos
Sexo
Masculino (66%)
Feminino (62,%)
Vínculo com a
Unifesp
50% estudantes / 50%
externos
87,|% estudantes da UNIFESP
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Em relação às motivações para a participação no curso, as respostas revelaram uma
diversidade de motivações heterogêneas, mas que se articularam em torno de cinco
grandes núcleos afetivo-intelectuais: natureza, aprendizado, pesquisa, formação docente
e alimentação transformadora. Em todas elas, o tema das PANCs operou como ponto de
convergência entre ciência, afeto e prática social (Tabela 2).
Tabela 2. Categorias de motivação para participação no curso sobre PANCs.
Fonte: autoria própria.
Categoria
Descrição
1) Interesse pelo
meio ambiente
e pela
natureza.
Interesse espontâneo
ou afetivo por temas
ligados à natureza,
plantas e meio
ambiente.
“Interesse pelo meio ambiente”.
“Me recomendaram, e adoro plantinhas e a
natureza”.
“Sou amante de plantas, biólogo e me interessei
pelo tema”.
2) Desejo de
aprender /
ampliar
conhecimento.
Curiosidade ou
intenção de aprender
mais sobre PANCs e
temas ambientais.
“Aprender um pouco mais sobre o assunto”.
“Adquirir informações sobre as mudanças
relacionadas às questões ambientais”.
“Curiosidade”.
“Aprender sobre as PANCs a partir de uma
perspectiva mais humana”.
3) Interesse
acadêmico,
científico ou
profissional.
Relacionou o curso a
pesquisas, projetos
comunitários, políticas
públicas ou áreas de
estudo específicas.
“Minha motivação para participar desta oficina é
aprofundar meu conhecimento sobre PANC como
alternativa sustentável de alimentação [...],
ampliando minha visão crítica e prática sobre
justiça ambiental e diversidade”.
4) Formação
docente /
educação
ambienta
Ligação com formação
em licenciatura ou
aplicação do tema em
práticas educativas.
“Achei muito interessante esse tipo de planta
[...] Faço Licenciatura em Ciências e o curso tem
tudo a ver com educação e com formas
diferentes de aprender sobre a natureza, de um
jeito mais humanizado, o que me parece a ideia
da oficina”.
5) Encantamento
com as PANCs
e seu potencial
transformador.
Despertar por
descobrir as PANCs,
seu valor alimentar e
suas possibilidades de
transformação de
hábitos.
“Adoro plantas e fiquei contente sabendo deste
curso sobre PANCs porque é um tema pouco
falado [...].”;
“Já tive contato com PANCs ao realizar um
estágio e me apaixonei pela botânica
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Por outro lado, a baixa adesão às três versões do curso, suscitou uma reflexão do estudo
para a presença das PANC no meio acadêmico. que o estímulo para a pesquisa com
foco na biodiversidade e recursos genético de tais plantas é recente e se desenvolveram
a partir da década de 1990 (KINUPP, 2007). Nesse sentido, o tema ainda se constitui
uma linha recente e restrita, o que pode justificar a baixa familiaridade do público-alvo
com essa questão, ainda que desperte alguma curiosiade. A produção científica e a
institucionalização das PANC estão mais concentradas em cleos específicos e ainda em
processo de expansão, o que limita a demanda espontânea (BARROS e col., 2016;
DURIGON, 2024).
Outro fator que pode ter influenciado na baixa adesão ao curso diz respeito às questões
geracionais e culturais. Atualmente, observa-se uma ruptura na transmissão de saberes
intergeracionais, especialmente em relação ao uso e preparo das PANC, o que contribui
para um certo distanciamento do tema, tanto por estudantes universitários quanto por
parte da comunidade em geral. Mariano et al. (2024) apontam que os participantes mais
velhos, maioria em seu estudo, demonstravam maior afinidade com plantas medicinais
e sabiam como prepará-las, sendo essa construção fortemente influenciada pela
transmissão oral e cotidiana no ambiente familiar. Esse cenário se articula com as
discussões de Camargos (2022), que destaca a relação afetiva e prática de adultos e
idosos (entre 32 e 88 anos) com quintais urbanos vivos, espaços que preservam, de
forma física e simbólica, os saberes trazidos da roça. No entanto, esse fluxo de
conhecimentos tem sido interrompido pelo avanço de modelos alimentares
industrializados, pela diminuição dos quintais e pela descaracterização da vida rural, o
que resulta em menor interesse das gerações mais jovens, mesmo em contextos
acadêmicos ligados às ciências ambientais.
O segundo bloco de respostas, voltado ao consumo e à relação cotidiana com as plantas
de uma maneira geral, teve início com a pergunta sobre a importância de incluir vegetais
na dieta. Em todas as três versões do curso, sem exceção, os 13 participantes
assinalaram a opção “Importante”, entre as alternativas disponíveis (“Pouco Importante”
e “Não é Importante”). Essa percepção foi corroborada pelas respostas à questão
seguinte, que investigava a frequência do consumo de vegetais: com exceção de apenas
uma pessoa (na versão on-line), todos os participantes afirmaram incluir vegetais em
sua alimentação, seja de forma diária ou semanal.
Na questão “Onde você costuma adquirir seu próprio alimento?”, observou-se uma
variedade de respostas entre as opções apresentadas: Grandes redes de supermercado,
mercados locais, feiras, aplicativos, restaurantes, grupos de consumo e diretamente do
produtor. Tanto no piloto quanto nas demais versões do curso, os locais mais citados
foram as grandes redes de supermercado e as feiras sendo que esta última não foi
mencionada na versão presencial. Entre as formas menos frequentes de aquisição,
destacaram-se os grupos de consumo e a compra diretamente do produtor. os
aplicativos e os restaurantes apresentaram uma oscilação nos resultados, sendo mais ou
menos citados conforme a versão do curso.
Em relação ao preparo dos alimentos, ficou evidente que a maioria dos participantes
cozinhava com frequência, seja diariamente ou de três a quatro vezes por semana. Esse
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dado revelou uma importante oportunidade de sensibilização para o tema das PANC, uma
vez que o hábito de cozinhar favorece a abertura ao experimento com novos sabores,
cores e formas dessas plantas alimentícias.
O perfil dos participantes interessados no curso demonstrou afinidade prévia com o tema
das PANC, buscando ampliar seus conhecimentos sob uma nova perspectiva. Além disso,
tratavam-se de pessoas que consomiam regularmente vegetais e preparavam suas
próprias refeições, indicando, ainda que de forma restrita, um grupo que mantinha uma
relação cotidiana com as plantas alimentícias, mesmo quando adquiridas em grandes
redes de supermercado, mercados locais, feiras ou aplicativos. Esse perfil reflete o sujeito
urbano contemporâneo, cujas práticas alimentares são moldadas pela urbanização, o que
frequentemente os afasta de uma cultura alimentar tradicional (POLESI et al., 2017). Um
indicativo disso é o baixo número de jovens que adquirem alimentos diretamente de
pequenos produtores ou por meio de grupos de consumo solidário, que fazem a ponte
entre o campo e a cidade. Como destacam Polesi et al. (2017), são os adultos mais
velhos e idosos os que mais valorizam as hortaliças não convencionais e os hábitos
alimentares enraizados na cultura popular.
Ainda no Bloco 2 do questionário, a pergunta sobre o conhecimento do conceito de
“Soberania Alimentar” foi incluída com o objetivo de compreender o nível de engajamento
e apropriação crítica dos participantes em relação à temática. As respostas revelaram
uma construção gradativa ao longo das três versões do curso. De maneira geral, observa-
se que os participantes do piloto apresentaram uma compreensão mais básica e centrada
no acesso aos alimentos, com respostas como: “É a possibilidade de se alimentar de
forma saudável e nutritiva, tendo acesso a uma grande diversidade de alimentos”. Já os
participantes da versão presencial demonstraram uma compreensão intermediária, que
avançava para aspectos de autonomia alimentar e liberdade de escolha, como: “Ter
controle sobre o que planta pra quem vende, tendo em mente as necessidades da
população ao decorrer de suas culturas”.
Por fim, na versão on-line, as respostas foram mais amplas e politizadas, demonstrando
uma visão mais articulada com os debates contemporâneos sobre direito à alimentação,
justiça social e valorização da agricultura familiar. Exemplo disso é a resposta: “Envolve
o direito à terra, sementes tradicionais e políticas que valorizem agricultores familiares e
comunidades, garantindo alimentação saudável como um direito, não como mercadoria”.
A partir da análise qualitativa das respostas, foi possível categorizar quatro eixos
principais de compreensão sobre soberania alimentar entre o grupo de participantes das
três edições: 1) acesso e diversidade de alimentos; 2) autonomia e poder de escolha; 3)
produção local, justiça social e relação com o produtor; 4) desconhecimento ou
indefinição.
Essas categorias não apenas refletem níveis distintos de apropriação do conceito, como
também revelaram diferentes graus de envolvimento com os princípios que sustentam a
soberania alimentar, especialmente entre os que demonstram maior familiaridade com
temas como democratização do alimento, agroecologia e práticas culturais de cultivo e
consumo. Tais diferenças reforçam a necessidade de abordagens formativas adaptadas
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a cada público, que ampliem a compreensão do tema e promovam o diálogo entre
saberes acadêmicos, populares e tradicionais. Haja vista que a soberania alimentar
defende o direito dos povos a definirem seus próprios sistemas alimentares com base em
suas culturas, saberes e práticas agrícolas locais. Valorizar as PANC é, portanto, uma
forma de resgatar essa autonomia cultural e alimentar, fortalecendo os vínculos com o
território e com a biodiversidade local.
As demais questões que encerravam o Bloco2 abordavam a relação direta dos
participantes com plantas em casa, e os dados revelaram que, na maioria das versões,
os participantes afirmaram tê-las em casa. Entre os que não possuíam plantas (25% na
versão presencial), todos indicaram interesse em tê-las futuramente, o que demonstrou
uma predisposição positiva à conexão com o cultivo doméstico.
No entanto, ao serem questionados sobre as dificuldades no cuidado com as plantas,
surgiram relatos recorrentes de esquecimento na rega, falta de tempo, vidas sobre a
frequência e a quantidade de água, além de incertezas quanto à luminosidade ideal e à
rotina de cuidados. Exemplos disso são respostas como: “Esqueço de regar: “Não tenho
o hábito de cuidar delas diariamente”, ou ainda “Às vezes o tenho muito tempo de
buscar insumos para manejar o solo”. Mesmo entre aqueles que tinham experiência,
como os participantes que citaram o cultivo de jiboia, suculentas, laranjeira, manjericão
e orquídeas, essas dificuldades persistiram, indicando que o cuidado com plantas,
embora desejado, ainda é permeado por obstáculos práticos e falta de conhecimento
técnico básico.
Por fim, uma questão de transição para o Bloco 3, que tratava exclusivamente das PANC,
indagava se os participantes consideravam arriscado consumir alimentos que o são
comumente ingeridos pela maioria das pessoas. Em todas as versões, a maioria
respondeu “sim”: 75% nas versões presencial e on-line. Isso demonstra que, embora
existisse abertura ao consumo de novos alimentos, ainda havia receios em relação ao
desconhecido, o que reforça a necessidade de educação alimentar, experimentação
segura e construção de confiança no uso das PANC.
O Bloco 3, iniciava com a pergunta: “Você conhece as PANC?”. Na versão piloto, todos
os participantes responderam que “sim”, demonstrando familiaridade com o termo.
na versão presencial, apenas 50% conheciam, e na on-line, 62 % responderam
afirmativamente. Isso indica que, apesar de algum grau de difusão do tema, ainda
lacunas no reconhecimento das PANC, especialmente entre os que não tiveram contato
prévio com práticas ou projetos educativos sobre o assunto.
As questões seguintes abordavam dúvidas recorrentes sobre o consumo e cultivo dessas
plantas. Quando questionados se todas as PANC são orgânicas, nenhuma das versões
apresentou participantes com certeza sobre essa informação; as respostas oscilaram
entre “Não” e “Não sei”, o que revela uma confusão entre os conceitos de PANC e
alimentação orgânica.
Na questão sobre a comestibilidade de todas as partes das plantas (“Todas as partes da
PANC são comestíveis?”), houve diversidade nas respostas: na versão piloto, as opiniões
se dividiram igualmente entre “Sim” e “Não”; nas versões presencial e on-line,
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prevaleceram as respostas “Não” e “Não sei”, evidenciando uma incerteza sobre as partes
comestíveis e uma possível insegurança alimentar associada ao desconhecimento.
As perguntas seguintes trataram de aspectos práticos: conhecimento sobre cultivo e
colheita de PANC. Nelas, a maioria dos participantes das três versões respondeu “Não”
ou “Não sei”. Apenas em parte da amostra presencial e on-line alguns participantes
indicaram que as PANC podem ser de cil cultivo. Notavelmente, somente na versão
presencial alguém afirmou que elas poderiam ser colhidas em qualquer lugar, o que pode
refletir maior experiência prática ou percepção de territorialidade em relação às PANC.
Por fim, ao serem questionados se conheciam alguma preparação com PANC, 50% dos
participantes on-line responderam “Sim”, enquanto os demais optaram por “Não” ou
“Não sei”, tendência semelhante às versões presencial e piloto, em que predominou o
desconhecimento sobre receitas ou formas de uso culinário.
Apesar de uma parcela significativa dos participantes demonstrar algum conhecimento
sobre PANC, os dados apontam que não havia, entre os participantes, o hábito de
consumir, plantar ou cuidar dessas espécies. De acordo com o estudo de Camargos
(2022), uma das principais dificuldades apontadas pelas pessoas para consumir PANC é
a dificuldade de acesso elas não são encontradas facilmente em supermercados,
mercados e feiras livres. Isso sugere que o interesse pelas PANC está mais associado a
uma lógica de consumo convencional do que a uma valorização cultural ou agroecológica.
Tal constatação evidencia a necessidade de promover discussões educativas que
transcendam a perspectiva utilitarista, resgatando o valor simbólico, alimentar e
ecológico das PANC no contexto urbano e universitário.
Considerações Finais
O presente estudo apresentou inter-relações e possibilidades de ampliação da
abordagem de uma Ecologia Decolonial em práticas de Educação Ambiental, cujo
principal objetivo é sensibilizar sobre esse universo das PANC que muitos ainda
desconhecem justamente por viverem em um contexto global de um habitar colonial,
que nos impede de perceber o quanto somos invadidos e influenciados, tanto pelo projeto
colonial de desumanização/zoomorfização quanto pela destruição da paisagem e do
ambiente-terra. As PANC não representam apenas uma relação material ou alimentar,
mas também constituem dimensões da identidade de um povo ou grupo em relação ao
sagrado ou ao divino que cultuam para poder viver.
Desse modo, o curso PANC, Pessoas e Perspectivas Plurais”, foi elaborado para favorecer
o surgimento e a retomada de um Sujeito Ecológico Decolonial em formação contínua
buscando responder à pergunta: Quais o as inter-relações entre a formação e
vivência do Sujeito Ecológico Decolonial e as PANC em ambiente urbano, considerando a
Região Metropolitana de São Paulo? E como estas podem ser relevantes para o campo
da Educação Ambiental?”
Acredita-se que as três edições do curso foram positivas. Deram-se passos significativos
nesse caminho, que exige coragem para manifestar e ampliar o debate que antecede a
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formação do Sujeito Ecológico Decolonial, enfatizando o afeto, a beleza e a riqueza das
relações que as "daninhas", as PANC que são não convencionais despertam em si e
no outro. Isso vai além das dores, atrocidades e mazelas que constituem o habitar
colonial.
A participação ativa dos indivíduos, por meio de falas e pensamentos compartilhados, foi
essencial para a reflexão coletiva que o tema decolonial requer. Nas três versões do
curso, observou-se que, mesmo entre aqueles que já haviam ouvido falar sobre PANC,
poucos sabiam identificá-las, tê-las em casa, preparar pratos ou mesmo reconhecer quais
partes são comestíveis. Agora, percebe-se um avanço nesse sentido, o que é bastante
significativo.
O ponto alto do processo foi identificar, ainda que minimamente, um despertar em
relação às questões decoloniais apresentadas no prato, no plantar e no colher. Houve
espaço para vidas, queixas e críticas, o que estimulou os participantes a se perceberem
e entenderem como a colonização ainda molda nosso modo de agir, pensar e nos
constituir como humanos e não-humanos, corpos e vidas privilegiadas ou não.
E, assim como nos estimula Hooks (2019) sobre a importância de se ter coragem de falar
aquilo que se pensa e posicionar diante do medo, pois isto é parte de uma luta
libertadora, como a autora nos mostra pelas palavras de Audre Lorde em seu poema “A
littany for survival” :
e quando falamos temos medo
de nossas palavras não serem ouvidas
nem bem vindas
mas quando estamos em silêncio
ainda assim temos medo
é melhor falar então
lembrando
sobreviver nunca foi nosso destino (HOOKS, 2019, pág.54).
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