OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
VOL. 17, N.º 1
Maio 2026
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NOTAS E REFLEXÕES
A GUERRA SEM ROSTO: ESTRATÉGIA, ÉTICA E PÓS-COLONIALISMO EM
OS CUS DE JUDAS
MIGUEL NUNO DOS REIS MORAIS PALMA PERDIGÃO
miguelperdigão94@gmail.com
Mestrando em Relações Internacionais e Ciência Política, NOVA FCSH Universidade Nova de
Lisboa (Portugal). Licenciado em Relações Internacionais (ISCSP). Colaborou com o Núcleo de
Estudantes de Relações Internacionais, NERI, e realizou estágio no Observatório Político
Introdução
Publicado originalmente em 1979 apenas cinco anos após a Revolução de 25 de abril
Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, afirmou-se como um testemunho literário
incontornável para a compreensão da Guerra Colonial (19611974) e das suas
repercussões profundas na sociedade portuguesa. No âmbito das Relações
Internacionais, a obra transcende a dimensão estritamente ficcional ao inscrever a
experiência individual da guerra no processo mais amplo de descolonização que
reconfigurou o sistema internacional na segunda metade do século XX. Ao evidenciar o
colapso do império colonial português, o romance enfatiza igualmente o subsequente
reposicionamento de Portugal numa ordem internacional pós-colonial, marcada pela
redefinição das hierarquias de poder e das relações entre os antigos impérios e os
territórios recém-independentes.
A atualidade da obra reside precisamente na necessidade de revisitar o passado colonial
não como um episódio histórico definitivamente encerrado, mas como um processo cujas
implicações persistem na memória coletiva, na identidade nacional e nas dinâmicas
políticas e diplomáticas contemporâneas. Nesse sentido, a leitura de Os Cus de Judas
inscreve-se num contexto de renovado debate público sobre justiça transicional
1
,
memória histórica e legado do colonialismo, temas que continuam a gerar um amplo
debate na sociedade portuguesa.
Contudo, Os Cus de Judas não é apenas um mero romance sobre a guerra: é também
um exercício de resistência contra o esquecimento, uma denúncia da desumanização
inerente ao conflito armado e uma reflexão incisiva sobre os seus limites éticos. O próprio
título remete para um espaço inóspito e hostil o lugar onde “Judas perdeu as botas”
metáfora que condensa o sentimento de abandono, deslocação e absurdo vivido pelos
soldados portugueses em Angola. Através dessa geografia simbólica, o texto revela a
1
No plano conceptual, a justiça transicional é entendida como o conjunto de mecanismos jurídicos e políticos
destinados a lidar com legados de violência massiva (Teitel, 2000). Embora Portugal não tenha desenvolvido
instrumentos formais dessa natureza relativamente à Guerra Colonial, o debate público recente sugere a
emergência de formas simbólicas de reconhecimento e elaboração histórica.
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dimensão traumática da experiência colonial, sugerindo que a guerra não termina com o
cessar das hostilidades formais, mas prolonga-se no âmago dos seus protagonistas. Tal
como confessa o narrador:
Tão esquisito, entende, que me pergunto às vezes se a guerra acabou de facto ou
continua ainda, algures em mim, com os seus nojentos odores a suor, e de pólvora e de
sangue (Antunes, 1979, p. 157).
Esta persistência do conflito no plano subjetivo permite articular a obra enquanto uma
análise mais ampla sobre memória coletiva e o trauma pós-colonial. A presente “Nota e
Reflexão” sustenta que Os Cus de Judas antecipa debates centrais das Relações
Internacionais nomeadamente a centralidade da ética na gestão da violência e a
dimensão política da memória no espaço pós-colonial.
A Guerra como Fenómeno Não Linear
Ao longo da narrativa, António Lobo Antunes recusa apresentar a guerra como uma
dinâmica conflitual pautada pela racionalidade estratégica
2
. Pelo contrário, o narrador
evidencia a erosão do sentido e da linguagem num contexto de conflito:
Nunca as palavras me pareceram tão supérfluas como nesse tempo de cinza,
desprovidas do sentido que me habituara a dar-lhes, privadas de peso, de timbre, de
significado, de cor, à medida que trabalhava o coto descascado de um membro ou
reintroduzia numa barriga os intestinos que sobravam, nunca os protestos me surgiram
tão os, nunca os exílios jacobinos de Paria se me afiguraram tão estúpidos.” (Antunes,
1979, p.43).
A guerra surge, assim, desprovida de coerência interna, marcada por uma lógica errática
que encontra eco na conceptualização proposta por Abel Cabral Couto em Elementos de
Estratégia (1988). Para Cabral Couto, a guerra constitui um fenómeno de natureza
intrinsecamente complexa e imprevisível, cujas dinâmicas tendem a escapar a qualquer
tentativa de controlo racional. Esta leitura permite enquadrar o romance no debate mais
amplo sobre os limites da racionalidade estratégica em contextos de guerra irregular e
conflito assimétrico.
No romance, essa não linearidade manifesta-se de forma particularmente evidente
através de três dimensões centrais: (i) os soldados, imersos num estado de alienação
que os impede de compreender o propósito último do conflito; (ii) a natureza
frequentemente contraditória e absurda das ordens recebidas; e (iii) a figura de um
inimigo simultaneamente omnipresente e invisível, que se confunde com a paisagem e
com a população civil. Estes elementos consolidam a perceção de que o horror da guerra
se autonomiza dos seus próprios intervenientes, adquirindo uma dinâmica quase
autónoma, destituída de finalidade inteligível.
A própria estrutura narrativa da obra marcada por analepses e prolepses constantes,
bem como por um fluxo de consciência fragmentário reforça essa ideia de
descontinuidade. O leitor não é conduzido de forma condescendente pelo autor, sendo
2
A racionalidade estratégica referese à articulação coerente entre meios e fins na condução da guerra,
subordinando o uso da força a objetivos políticos definidos; formulação inspirada na conceção clausewitziana
da guerra como continuação da política por outros meios
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antes confrontado com um relato convulso e descontínuo que espelha, no plano formal,
a desordem psicológica e moral do conflito.
A Falência do Comando Militar e a Ética na Gestão da Violência
Na continuidade da crítica à racionalidade estratégica do conflito, o romance aprofunda
a sua denúncia ao expor o cinismo e a incompetência do comando militar. As figuras de
autoridade surgem frequentemente retratadas como burocratas distantes da realidade
operacional, mais preocupados em preservar uma aparência de controlo do que em
compreender a dimensão humana da guerra:
Os majores em reboliço abandonavam os copos de uísque, de cubos de gelo substituídos
por dados de pôquer, para eretos como soldados de chumbo barrigudos, saudarem a
entrada de uma senhora que qualquer coronel subitamente urbano comboiava, deixando
atrás de si, percetível na tremura dos galões, um rastro cochichado de cio de caserna.”
(Antunes, 1979, p.13).
Esta representação literária contrasta com a conceção defendida por Abel Cabral Couto
em Elementos de Estratégia (1988), onde o autor sublinha a responsabilidade ética dos
comandantes, cujo imperativo de ação deveria consistir numa gestão prudente e
deliberada da violência, impondo-lhe limites claros e subordinando-a a um propósito
estratégico previamente definido.
Todavia, o que se observa em Os Cus de Judas é precisamente o inverso: uma estratégia
marcada por limitações crónicas no plano ético e operacional. Em primeiro lugar, a
violência tende a autonomizar-se, convertendo-se num fim em si mesma, destituída de
uma finalidade clara. Em segundo lugar, os soldados são retratados como vítimas de uma
máquina institucional que os consome, desprovidos de apoio psicológico ou orientação
moral consistente. Por fim, a guerra surge descrita como um monte de destroços e
ruínas (Antunes, 1979, p. 172), alimentado pela estúpida violência das bombas
(ibidem), imagem que reforça a perceção de um conflito sem direção nem
responsabilidade claramente assumida.
A obra sugere, assim, que quando a liderança militar se aliena da realidade tática e
humana do conflito, a violência tende a degenerar num processo de institucionalização
da barbárie, onde o sofrimento dos combatentes deixa de constituir critério relevante de
decisão. Nesse sentido, a falência do comando não é apenas operacional, passando a ser
sobretudo ética.
Memória e Trauma: A Guerra que Não Acaba
Em Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, a guerra não termina com o silenciar das
armas. Pelo contrário, ela prolonga-se na memória daqueles que lhe sobreviveram, como
uma ferida aberta que resiste à cicatrização. O regresso do narrador a Lisboa não
representa um verdadeiro retorno à normalidade, mas antes a transição para uma nova
forma de conflito agora interior e silencioso.
As imagens do conflito persistem de forma intrusiva, assombrando o quotidiano e
impedindo qualquer reconciliação plena com o passado. O narrador sente-se perseguido
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por “caixões que me aguardam” (Antunes, 1979, p. 157) mergulhando numa melancolia
crónica que denuncia a impossibilidade de dissociar a experiência vivida da identidade
presente. A guerra, nesse sentido, deixa de ser um acontecimento delimitado pelo tempo
para se transformar numa condição existencial.
Esta representação literária aproxima-se daquilo que identificaríamos como perturbação
de stress pós-traumático, suscitando um debate contemporâneo relevante sobre os
efeitos psicológicos duradouros do conflito em antigos combatentes temática que tem
vindo a ser progressivamente discutida em Portugal (Ribeiro, 2004). O romance antecipa,
assim, uma reflexão que ultrapassa o seu tempo histórico, ao revelar que a violência
institucionalizada produz marcas que não se extinguem com a assinatura de acordos ou
com o fim formal das hostilidades.
Mais do que narrar o passado, fica demonstrado que a guerra raramente pode ser
“superada” ou “esquecida”. Ela impõe-se a quem a viveu como uma memória persistente,
exigindo confrontação crítica e um reconhecimento público das suas consequências
humanas. Neste sentido, o trauma individual descrito pelo narrador converte-se também
em metáfora de uma memória coletiva inacabada, tal como analisado por Ribeiro (2004)
no contexto das disputas póscoloniais sobre identidade e lembrança.
O Contexto Histórico e a Guerra Colonial em Angola
A Guerra Colonial em Angola (19611974) constituiu um conflito de natureza
assimétrica, no qual as forças portuguesas enfrentaram movimentos independentistas
como o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional de
Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola
(UNITA). No plano estratégico, Portugal adotou predominantemente uma doutrina de
contrassubversão amplamente descrita por Cann (1997) como a Portuguese Way of
War”, assente no controlo territorial, operações de neutralização e guerra psicológica.
Paralelamente, verificaram-se práticas repressivas que incluíram tortura, deslocações
forçadas de populações e massacres (Cann,1997). Apesar da sua racionalização, esta
abordagem revelou limitações profundas na dimensão humana do conflito. A tentativa
de conter os focos de insurgência foi acompanhada por uma escalada de violência que
agravou a desumanização generalizada. Entre as forças portuguesas, contabilizaram-se
mais de 8.000 mortos e milhares de combatentes regressaram com sequelas psicológicas
duradouras (Ribeiro, 2004). Entre a população angolana, os números são ainda mais
expressivos, incluindo mortos, deslocados e vítimas de repressão sistemática
(Birmingham, 2021).
É este enquadramento histórico que dá a Os Cus de Judas uma particular relevância. O
romance funciona como uma forma de dar a conhecer um sofrimento invisibilizado,
expondo as consequências íntimas e duradouras da guerra. A violência não é apenas
descrita enquanto fenómeno estratégico ou militar; surge antes como experiência
existencial que corrói progressivamente a estabilidade emocional dos seus protagonistas:
“As madrugadas, de resto, são o meu tormento, gordurosas, geladas, azedas, repletas
de amargura e de rancor. Nada vive ainda e, todavia, uma ameaça indefinível ganha
corpo, aproxima-se, persegue-nos, incha-nos no peito, impede-nos de respirar
livremente. (Antunes, 1979, p.30).
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Para além da devastação material, a Guerra Colonial provocou uma profunda divisão na
sociedade portuguesa. Durante décadas, o conflito permaneceu envolta num silêncio
social e político significativo, sendo a literatura um dos primeiros espaços de
problematização desse legado. Nesse sentido, Os Cus de Judas constituiu uma
intervenção decisiva ao romper com essa omissão coletiva, contribuindo para o debate
público acerca da guerra e das suas consequências.
A Literatura como Testemunho: Ética, Memória e Justiça
Os Cus de Judas extravasa largamente a categoria de romance de guerra” para se
afirmar como uma intervenção crítica contra processos de silenciamento histórico. Ao dar
voz tanto às vítimas como aos perpetradores da violência, a obra desafia as narrativas
oficiais que procuraram atenuar ou justificar o conflito colonial. A literatura assume,
assim, uma função ética: não apenas narrar acontecimentos, mas expor a dimensão
humana da violência e interpelar o leitor quanto à responsabilidade coletiva que dela
decorre. Esta dimensão testemunhal inscreve-se numa tradição literária mais ampla. Em
A Costa dos Murmúrios (Jorge, 1988), a guerra é explorada a partir das fraturas íntimas
que produz nas famílias dos militares. a obra Se Isto é um Homem (Levi, 1986),
constitui um exemplo paradigmático da literatura enquanto preservação da memória face
à barbárie.
No contexto português, onde o debate sobre a Guerra Colonial permaneceu durante anos
marcado pelo silêncio e ambivalência, Os Cus de Judas contribuiu para a construção de
uma memória coletiva crítica, obrigando o país a confrontar o seu passado colonialista.
Neste sentido, a obra funciona como instrumento heurístico para pensar os desafios
contemporâneos de responsabilização histórica no sistema internacional. A obra
demonstra como a literatura pode funcionar como instrumento analítico nas Relações
Internacionais, revelando dimensões éticas e simbólicas que frequentemente escapam
ao discurso político.
Paralelos com Debates Atuais e Justiça Transicional
A relevância de Os Cus de Judas ultrapassa o seu enquadramento histórico imediato.
Num sistema internacional ainda marcado por conflitos armados e processos incompletos
de reconciliação, a obra recorda que a guerra não se reduz a cálculo estratégico: ela
produz efeitos humanos, políticos e simbólicos de longa duração. Neste sentido, o
romance dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre justiça transicional,
memória histórica e responsabilidade coletiva.
No caso português, o processo de confrontação do passado colonial tem sido
caracterizado por ambivalência e relativa lentidão quando comparado com experiências
como a da Alemanha no pós-guerra ou da África do Sul após o apartheid
3
, onde
mecanismos institucionais de verdade e reconciliação desempenharam um papel central
na construção de narrativas públicas de reconhecimento e reparação, ainda que se trate
3
Desmond Tutu destacou-se pelo seu papel na Comissão de Verdade e Reconciliação sulafricana, enquanto os
Julgamentos de Nuremberga estabeleceram um precedente jurídico internacional para responsabilizar crimes
de guerra e contra a humanidade.
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de processos historicamente distintos e não diretamente equiparáveis. Portugal não
implementou estruturas formais equivalentes no que respeita à Guerra Colonial, o que
contribuiu para um prolongado silêncio social e político. Todavia, nas últimas décadas
tem-se observado um renovado interesse público. Iniciativas como a exposição “Guerra
Colonial: 50 Anos Depois” promovida pelo Museu do Aljube (Museu do Aljube, 2024) e
os relatórios da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CIDCR,
2023) têm contribuído para uma maior visibilidade das consequências psicológicas e
sociais do conflito.
Estes desenvolvimentos sugerem que a revisitação do passado colonial permanece um
processo em curso. Ao expor a dimensão traumática e ética da guerra, Os Cus de Judas
antecipa e alimenta essa reflexão, funcionando como catalisador de uma memória crítica
que interpela o apenas a sociedade portuguesa, mas também o modo como os Estados
a integram ou evitam integrar.
O Legado de Os Cus de Judas: Literatura, Memória e Justiça
Um dos principais méritos de Os Cus de Judas reside no facto de se tratar de um dos
primeiros relatos na primeira pessoa acerca do conflito colonial. A obra inscreve-se como
um registo literário que persiste na linguagem, no silêncio e na experiência daqueles que
viveram a guerra. Ao dar voz ao trauma dos soldados e das populações afetadas, o autor
transforma a literatura num espaço simbólico de resistência, orientado para a preservação
da memória e para a problematização crítica da identidade coletiva portuguesa. Num
contexto em que Portugal continua a debater o legado do seu passado colonial, o livro
mantém-se como intervenção relevante no aprofundamento dessa reflexão.
A receção crítica confirmou e destacou essa importância. A obra foi amplamente reconhecida
como marco da literatura portuguesa do pós-25 de Abril, tendo Maria Alzira Seixo sublinhado
a sua inovação formal e a coragem temática (Seixo, 1999). No plano literário, é
frequentemente colocada em diálogo com A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, pela forma
como ambas as obras evidenciam que a guerra não afeta apenas os combatentes, mas
também as estruturas familiares e sociais que os rodeiam.
Para além da literatura, outras expressões artísticas contribuíram para a elaboração pública
da memória da Guerra Colonial. No cinema, obras como Non, ou a Glória de Mandar
4
abordaram criticamente o legado histórico e simbólico da guerra e do colonialismo
português, problematizando a narrativa épica associada ao passado imperial. No panorama
musical, figuras como José Mário Branco e Zeca Afonso
5
refletiram, de formas distintas, as
tensões políticas e sociais associadas ao período. Estas manifestações culturais revelam que
a memória da guerra se construiu também fora do discurso historiográfico e institucional.
Num momento em que persistem debates sobre justiça transicional, responsabilidade
histórica e legado colonial no espaço pós-colonial português, Os Cus de Judas mantém plena
4
Non, ou a Glória de Mandar é um filme português de 1990 realizado por Manoel de Oliveira. Mistura
reflexão histórica e narrativa poética sobre Portugal, cruzando o presente da guerra colonial em África com
episódios do passado nacional.
5
No plano musical, a crítica ao contexto político e à Guerra Colonial encontrou expressão em canções de
intervenção como Menina dos Olhos Tristes (1971) e A Morte Saiu à Rua (1969), de Zeca Afonso, bem como
em temas como Inquietação (1972), de José Mário Branco, cuja produção artística refletiu as tensões sociais,
políticas e morais associadas ao período final do Estado Novo e ao conflito colonial.
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relevância analítica. Ao questionar a racionalidade estratégica da guerra e evidenciar as
suas implicações éticas, a obra contribui para uma reflexão crítica sobre os limites da
violência organizada e sobre a forma como os Estados enfrentam ou adiam a
confrontação com o seu passado. A releitura do romance demonstra, assim, que a memória
da guerra constitui uma dimensão estruturante da identidade internacional portuguesa e
influencia, ainda hoje, os modos de projeção externa do Estado no sistema internacional.
Deste modo, Os Cus de Judas permanece uma obra central para compreender não apenas
a Guerra Colonial, mas também os desafios éticos e políticos que continuam a moldar a
relação de Portugal com o mundo.
Referências
Antunes, A. L. (1979). Os Cus de Judas. Dom Quixote.
Birmingham, D. (2021). A história de Angola. Tinta-da-China.
Cabral Couto, A. (1988). Elementos de estratégia. Instituto de Altos Estudos Militares.
Cann, J. P. (1997). Counterinsurgency in Africa: The Portuguese Way of War, 1961
1974. Greenwood Press.
Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial. (2023). Relatório sobre
memória colonial e discriminação racial. CIDCR.
Fernandes, A. H. (2013). Todos somos mulheres: A estratégia como razão das vítimas e
dos vencidos. Nação e Defesa, 136, xxxx.
Jorge, L. (1988). A costa dos murmúrios. Dom Quixote.
Levi, P. (1986). Se isto é um homem. Difel.
Museu do Aljube Resistência e Liberdade. (2024). Guerra Colonial: 50 anos depois
[Exposição]. Museu do Aljube Resistência e Liberdade.
Ribeiro, M. C. (2004). Uma história de regressos: Império, Guerra Colonial e
pós-colonialismo. Afrontamento.
Seixo, M. A. (1999). O essencial sobre António Lobo Antunes. Imprensa Nacional-Casa
da Moeda.
Teitel, R. G. (2000). Transitional Justice. Oxford University Press
Como citar esta nota
Perdigão, Miguel Nuno Dos Reis Morais Palma (2026). A Guerra Sem Rosto: Estratégia, Ética e Pós-
Colonialismo em Os Cus de Judas. Janus.net, e-journal of international relations. VOL. 17, Nº. 1,
Maio 2026, pp. 675-681. DOI https://doi.org/10.26619/1647-7251.17.1.04