No entanto, conforme descrito na teoria do Orientalismo de Edward Said (1979), a
representação do conflito nos meios de comunicação mainstream tende a ser enviesada
e a difundir a narrativa Ocidental, silenciando as vozes e perspetivas de quem realmente
se encontra no terreno. Mas, como tem acontecido com as grandes guerras do nosso
tempo, o conflito alastrou-se para o mundo online, onde a não-filtragem de informação
permite pintar uma imagem mais clara da disputa. A partilha instantânea de imagens e
declarações nas redes sociais não tem resultado somente na polarização da opinião
pública, mas também na materialização de preconceitos contra minorias que o mundo
para lá das fronteiras do conflito assume serem representadas por duas fações em guerra
– a comunidade judaica, da qual o Estado de Israel se considera guardião, e a
comunidade muçulmana, do lado palestiniano, representada pelo Hamas no olho público.
Em Berlim, portas apareceram marcadas com estrelas de David (BK, 2023). Porém, é
incorreto declarar que apenas a comunidade judaica tem sido alvo de “ataques
preconceituosos” – uma palavra-chave na nossa pesquisa – desde 7 de outubro. Pelo
contrário, os ataques de ódio contra muçulmanos (islamofobia) dispararam desde o
evento, para níveis considerados preocupantes (TellMAMA UK, 2023; VOA News, 2023).
Por fim, a categoria “Violência” trouxe resultados distintos das categorias anteriores.
Apesar do superior número de amostras para a subcategoria “Sofrida pelos
palestinianos”, ambas as partes conflitantes têm um número semelhante de
proclamações que indicam terem sido vítimas de violência infligida pelo opositor. Ainda
que os tipos de violência relatados tenham motivações distintas, no caso de Israel, os
discursos demonstram que as violações e massacres sofridos têm origem em visões
antissemitas. No caso da Palestina, acusa-se a existência de um “genocídio” motivado
pelo desejo de limpeza étnica em Gaza, e a prática de crimes de guerra por parte de
Israel. Deste modo, ambos os povos, segundo a lente pós-colonial, poderiam ser vistos
como vítimas pela comunidade internacional.
De facto, na literatura é reconhecida a violência sofrida por Israel, especialmente no que
diz respeito aos ataques terroristas cometidos pelo Hamas contra civis israelitas (Bontea,
2023). Também nos discursos surge este reconhecimento; porém, se nos basearmos
somente no número de frases identificadas, corremos o risco de retirar conclusões
precipitadas. Frequentemente, Israel recorre à memória dos atos históricos cometidos
contra o povo judeu, em particular ao Holocausto, para suportar o seu discurso e a
necessidade de se proteger para sobreviver. Deste modo, não é possível afirmar que
ambos sofram o mesmo tipo de violência e que as suas vozes estejam a ser apagadas
da mesma forma.
Quando analisado o conteúdo dos discursos, questões como a da desproporcionalidade
da violência devem ser tidas em conta. Os estudos realizados anteriormente indicam que,
apesar de Israel constantemente recorrer à ideia do “Estado de Exceção” para justificar
os seus atos violentos face à “ameaça palestiniana” (Lloyd, 2012, p. 65), o que é
verificado nos discursos é uma violência exacerbada que vai para além da autodefesa,
colocando a Palestina como uma vítima nesta categoria e Israel para lá da legalidade no
Direito Internacional.