OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
VOL. 17, Nº. 1
Maio 2026
125
O NEO-EURASIANISMO COMO CATALISADOR DE UMA ORDEM MUNDIAL
MULTIPOLAR
ROBERTO NARCISO ANDRADE FERNANDES
rnfernandes@iscpsi.pt
Superintendente da Polícia de Segurança Pública (Portugal) e titular do doutoramento em
Relações Internacionais: Geopolítica e Geoeconomia (Universidade Autónoma de Lisboa).
Licenciado em Ciências Policiais pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna
(ISCPSI), detém diversas pós-graduações em Direito Regional (Universidade da Madeira),
Medicina Legal e Proteção de Menores (Universidade de Coimbra). Possui ainda várias
especializações em matéria policial, de segurança e de defesa. Desde 2025, exerce funções como
assessor sénior do ISCPSI e coordena o Programa de Pós-Graduação em Direção e Estratégia
Policial (CDEP). É professor no ISCPSI e investigador integrado no Centro de Investigação do
ISCPSI (ICPOL), no Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS) e
no Instituto Brasileiro de Segurança Pública (IBSP). Integra os Conselhos Editoriais da Revista
Científica do IBSP e do European Law Enforcement Research Bulletin, figurando como perito e
formador externo da CEPOL e da COST. Entre 2019 e 2023, foi diretor do ICPOL, período em que
relançou a Politeia Revista Portuguesa de Ciências Policiais e representou Portugal na CEPOL
enquanto correspondente nacional para a investigação e a ciência. Ao longo dos seus mais de 30
anos de carreira, desempenhou funções como Chefe da Área Operacional de Comando Regional,
Chefe da Área de Apoio de Comando Regional, Comandante de Divisões Policiais (de competência
genérica), Comandante da Divisão de Investigação Criminal e Comandante de Esquadra
(destacada). https://orcid.org/0000-0002-3649-8694 | CIÊNCIA ID: 7A17-C4C6-519E
Resumo
Esta investigação analisa a influência do neo-eurasianismo na formulação da política externa
russa e o seu impacto nas dinâmicas geopolíticas contemporâneas. Inspirado no pensamento
de Alexander Dugin, este paradigma propõe uma liderança russa no espaço euro-asiático
como alternativa ao modelo liberal ocidental, promovendo uma reconfiguração hierárquica
das relações internacionais. O estudo examina como essa visão se reflete nas iniciativas de
Moscovo para expandir a sua influência sobre os espaços pós-soviéticos, fragilizar a coesão
europeia e contestar a hegemonia da OTAN e dos Estados Unidos. A análise evidencia a
perplexidade da resposta internacional perante o uso simultâneo de hard power, netwar e
desinformação pela Rússia, bem como as limitações da reação europeia, marcada por falta de
coesão e dependência estratégica. Conclui-se que o neo-eurasianismo funciona como matriz
ideológica legitimadora de uma política externa russa revisionista, que combina capacidades
convencionais e não convencionais para contestar os fundamentos institucionais da ordem
internacional liberal baseada em regras. A assimetria entre a coesão discursiva russa e a
fragmentação da resposta europeia evidencia a necessidade de uma estratégia de contra
narrativa e reforço de capacidades híbridas no plano europeu.
Palavras-chave
Desinformação, Neo-Eurasianismo, Geopolítica, Rússia, Segurança internacional.
Abstract
This research analyses the influence of Neo-Eurasianism on the formulation of Russian foreign
policy and its impact on contemporary geopolitical dynamics. Inspired by the thinking of
Alexander Dugin, this paradigm proposes Russian leadership in the Eurasian space as an
alternative to the Western liberal model, promoting a hierarchical reconfiguration of
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international relations. The study examines how this vision is reflected in Moscows initiatives
to expand its influence over the post-Soviet spaces, undermine European cohesion and
challenge the hegemony of NATO and the United States. The analysis highlights the
bewilderment of the international response to Russia’s simultaneous use of hard power,
netwar and disinformation, as well as the limitations of the European reaction, marked by a
lack of cohesion and strategic dependence. It is concluded that Neo-Eurasianism functions as
an ideological framework legitimising a revisionist Russian foreign policy, which combines
conventional and unconventional capabilities to challenge the institutional foundations of the
rules-based liberal international order. The asymmetry between Russian discursive cohesion
and the fragmentation of the European response highlights the need for a counter-narrative
strategy and the strengthening of hybrid capabilities at the European level.
Keywords
Disinformation, Neo-Eurasianism, Geopolitics, Russia, International security.
Como citar este artigo
Fernandes, Roberto Narciso Andrade (2026). O Neo-Eurasianismo como Catalisador de uma Ordem
Mundial Multipolar. Janus.net, e-journal of international relations, VOL. 17, Nº. 1, Maio 2026, pp.
125-153. https://doi.org/10.26619/1647-7251.17.1.7
Artigo submetido em 23 de abril de 2025 e aceite em 17 de janeiro de 2026.
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O NEO-EURASIANISMO COMO CATALISADOR DE UMA ORDEM
MUNDIAL MULTIPOLAR
ROBERTO NARCISO ANDRADE FERNANDES
Introdução
Esta investigação adota uma abordagem qualitativa de análise de discurso crítico
(Fairclough, 2023), aplicada a um corpus composto por 127 documentos russófonos
entre 2014 e 2025, incluindo 43 discursos presidenciais de Vladimir Putin, 28 documentos
estratégicos oficiais, 32 relatórios de think tanks russos pró-Kremlin e 24 artigos
académicos de autores eurasianistas. A delimitação temporal pós-anexação da Crimeia
(2014-2025) corresponde à janela crítica de institucionalização discursiva do
“neoeurasianismo”
1
na política externa russa. Assim e para efeitos da presente análise,
o neo-eurasianismo encontra-se operacionalizado segundo quatro dimensões inter-
relacionadas, identificáveis no discurso oficial russo pós-2014:
1) Dimensão civilizacional: Dicotomia EurásiaOcidente, com a edificação da Rússia
como civilização autónoma frente ao “decadentismo liberal” (Dugin, 1997).
2) Dimensão espacial: Reivindicação do Heartland euroasiático como zona de
influência exclusiva, em que a Ucrânia surge como “anomalia histórica
(Mackinder, 1904).
1
O neoeurasianismo é uma corrente ideológica russófona surgida na década de 1990, na sequência da
dissolução da União Soviética. Assenta em tradições intelectuais da Rússia czarista e inspirase no eurasianismo
clássico do início do século XX. O seu principal precursor, Nikolai Danilevsky (18221885), propôs uma visão
geosófica fundada em tipos culturalhistóricos (egípcio, chinês, indiano, romanogermânico, eslavo, entre
outros) enraizados em espaços geográficos específicos. Rejeitando o eurocentrismo universalista, concebia o
mundo como um conjunto de civilizações incomensuráveis. Para Danilevsky, a RússiaEurásia constituía um
tipo civilizacional autónomo, sacralizando o espaço eurasiático como fonte identitária e missão histórica
singular, o que reforça a ideia do mapa enquanto discurso de poder (Danilevsky, 1888; Fairclough, 2023). O
neoeurasianismo contemporâneo radicaliza esta matriz, apresentando a RússiaEurásia como eixo geopolítico
e alternativa civilizacional ao Ocidente liberal. Mais do que uma teoria geopolítica, configurase como uma
filosofia abrangente de inspiração histórica, estratégica, cultural e social, que se opõe à globalização e à
unipolaridade dos Estados Unidos e da OTAN. Defende a preservação das tradições culturais, nacionais, étnicas
e religiosas, bem como a promoção de modelos económicos alternativos e de uma ordem social mais equitativa.
Inserido na escola expansionista, rejeita os valores liberais e democráticos ocidentais, advogando uma
civilização autónoma, distinta do modelo europeu. A sua formulação inspirase em conceções geopolíticas como
a oposição entre poderes terrestres e marítimos de Halford Mackinder, o conceito de panregiões de Karl
Haushofer e a leitura russocêntrica de Zbigniew Brzezinski. Em síntese, caracterizase por uma orientação
antiglobalização e antihegemónica (Bassin & Aksenov, 2006; Cláudio, 2015; Souza, 2017; Brigola, 2023).
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3) Dimensão securitária: Doutrina Gerasimov de guerra não linear, combinando hard
power, FIMI
2
e operações psicológicas (Gerasimov, 2013).
4) Dimensão temporal: Narrativa revisionista que legitima a reunificação dos
“territórios historicamente russos” (Putin, 2022).
A estrutura conceptual adotada permite rastrear a presença do neo-eurasianismo nos
discursos presidenciais e documentos estratégicos analisados. A opção pela análise de
discurso crítico não visa inferir intenções causais diretas, mas identificar regularidades
semânticas, enquadramentos narrativos dominantes e estratégias de legitimação,
reconhecendo que o discurso político constitui simultaneamente reflexo, instrumento e
condição de possibilidade da ação estratégica. A triangulação metodológica entre fontes
primárias e secundárias visou mitigar riscos de determinismo ideacional, reconhecendo
que o neo-eurasianismo funciona, primordialmente, como teoria legitimadora e não como
variável causal exclusiva (Patton, 2002). Trata-se, assim, de um repertório ideacional
flexível, mobilizado seletivamente para conferir coerência simbólica, legitimidade
histórica e densidade civilizacional a decisões estratégicas moldadas por imperativos de
poder, segurança e oportunidade (Clover, 2016; Shekhovtsov, 2021; Umland, 2022;
Tkachuk, 2025; Simola & Leppänen, 2025).
A Ascensão do Eurasianismo na Política Externa Russa
O contexto geopolítico atual caracteriza-se pela prevalência da impermanência,
imprevisibilidade e da volatilidade na relação entre os múltiplos atores do Sistema Político
Internacional. A política externa russa reflete, na sua essência, um pensamento
geopolítico de matriz irredentista, influenciado pela ideologia euroasiática radicada no
expansionismo e na dominação mundial (Freire, 2023). O neo-eurasianismo postula a
constituição de um eixo geopolítico euroasiático liderado pela Rússia, articulando
potências como China, Índia, Irão e Turquia numa configuração de alianças hierárquicas
que contestam a hegemonia ocidental no sistema internacional (Dugin, 1997; Clover,
2016). Esta visão civilizacional rejeita o universalismo liberal em favor de uma pluralidade
de espaços culturais autónomos, nos quais a RússiaEurásia assumiria primazia no
Heartland continental (Ferreira & Terrenas, 2016; Milhazes, 2016). Mais do que isso, esta
doutrina defende a necessidade de fragmentar a União Europeia (UE) símbolo vivo do
internacionalismo liberal , exaurir a influência dos Estados Unidos da América (EUA) no
plano global e, especificamente em relação à Ucrânia, propõe a sua dissolução como
2
Foreign Information Manipulation and Interference (FIMI) reporta-se a ações coordenadas e intencionais,
conduzidas por atores estatais ou não estatais, que manipulam a informação para influenciar processos
políticos, desestabilizar sociedades e enfraquecer instituições democráticas. Na UE, estas práticas visam
amplificar divisões internas, fomentar a polarização e comprometer a sua posição global, afetando a tomada
de decisões e a execução de políticas estratégicas. Atores estatais russos e entidades afiliadas ao Kremlin
coordenam-se para conduzir operações de FIMI. Estas ões são realizadas através de redes diplomáticas
russas, serviços de segurança, meios de comunicação estatais, plataformas de redes sociais, empresas privadas
e intermediários locais. Todos estes elementos são utilizados de forma compreensiva e integrada para se
reforçarem mutuamente, maximizando o alcance e o impacto da desinformação e da manipulação informativa.
A FIMI “(…) refere-se a comportamentos, em geral não ilegais, de natureza intencional e coordenada, levados
a cabo por atores estatais ou não estatais ou seus intermediários com o objetivo de distorcer informação,
influenciar valores, processos políticos e decisões democráticas” (Serviço Europeu para a Ação Externa, 2024,
p. 4).
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entidade soberana e independente, passando a ser parte integrante do território
periférico da grande Rússia, considerando as suas afinidades ao nível da língua, costumes
e raça (Dugin, 1997; Cláudio, 2015; Umland, 2022).
Esta lente revisionista do equilíbrio de poderes na geopolítica global, com enfoque
russocêntrico, inspira-se em correntes geopolíticas clássicas como as teorias do geógrafo
Halford Mackinder
3
, segundo as quais o eixo do destino da geopolítica mundial assenta
no Heartlanddo supercontinente euroasiático, área que corresponde, sensivelmente,
ao território onde se encontra a Ucrânia a “terra fronteiriça” (Kaplan, 2022). Segundo
esta tese, o domínio do espaço da Eurásia garantiria a supremacia global, despertando,
por isso, a atenção das grandes potências da Ásia interior, nomeadamente a Rússia e a
China, tradicionalmente mais belicosas e dogmáticas (Sloan, 1999a). E assim a Ucrânia,
estrategicamente localizada entre as zonas de influência europeia e russa, tornou-se o
áxis e o ponto de ignição da disputa de poder mundial (Milhazes, 2016; Kaplan, 2022).
Um dos defensores mais exaltados desta visão imperialista, Alexander Dugin, categorizou
a Ucrânia como um elemento-chave no que apelidou de “luta civilizacional” com o
Ocidente, sustentando que a independência ucraniana constitui uma grave ameaça à
sobrevivência da Rússia ante o avanço da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(OTAN), consequente da Mauerfall (1989) e do colapso da União Soviética
4
, a 26 de
dezembro de 1991. A ideologia supremacista prórussa, enraizada em precursores como
Nikolay Yakovlevich Danilevsky (1822-1885), cujos “tipos cultural-históricos” geosóficos
concebem a Eurásia como civilização espacialmente autónoma e antiocidental, é
profusamente desenvolvida nos trabalhos de Dugin (Danilevsky, 1888). A sua obra
seminal “Fundamentos da Geopolítica”, publicada em 1997, parece influenciar, de modo
transversal, os sectores do pensamento político e geoestratégico do Kremlin. Embora
Dugin exerça uma influência ideológica periférica no establishment pós-soviético
(Shekhovtsov, 2021), o neo-eurasianismo funde-se organicamente com a doutrina de
guerra o linear de Valery Gerasimov (2013). Em 2024, esta filosofia materializou-se
em mais de 1.200 incidentes cibernéticos russos registados na UE (Bartles, 2016; Simola
& Leppänen, 2025). Charles Clover (2016) documenta esta hibridização como uma
síntese pragmática entre o eurasianismo radical e a realpolitik putinista, refletida numa
retórica oficial de “democracia soberana” (Dugin, 1997; Umland, 2022; Fairclough, 2023;
3
Halford John Mackinder, geógrafo, académico e político inglês, é amplamente reconhecido como um dos
fundadores da geopolítica clássica e da geoestratégia. Em 1904, publicou o artigo The Geographical Pivot of
History”, no qual formulou a “Teoria do Heartland”, um conceito que, desde então, influenciou a política externa
das grandes potências mundiais, especialmente a Rússia pós-soviética e a China. Segundo esta doutrina, a
potência que consiga controlar a Ásia Central “o grande pivot” tornar-se o Estado mais poderoso na
política internacional. O autor tinha uma visão de um mundo dividido entre potências terrestres e marítimas, à
semelhança do que se verificou na Primeira Guerra Mundial (Bassin & Aksenov, 2006). Durante a maior parte
do século XX, os EUA consideraram crucial impedir que qualquer potência ou grupo de potências dominasse o
território euroasiático, confirmando a influência da Teoria do Heartland na política das Grandes Potências
(Fettweis, 2003). No extremo ocidental, Finlândia, Estados Bálticos, Polónia e Ucrânia constituíam uma zona
neutra de enorme interesse estratégico para prevenir o avanço da Aliança euro-atlântica. Hodiernamente, o
Heartland euroasiático corresponde à Rússia e às antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central Cazaquistão,
Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão , sendo balizado pela bacia do Cáspio e pela Geórgia
(Scott & Alcenat, 2008).
4
O colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi um dos eventos geopolíticos mais
marcantes do século XX. A dissolução da superpotência comunista (1922-1991) teve profundas consequências
políticas, económicas e sociais no mundo inteiro. Na sua origem estiveram uma crise económica crónica; a
corrupção e estagnação política; a invasão do Afeganistão e os vários conflitos separatistas; as reformas da
Perestroika (reestruturação económica) e da Glasnost (liberdade de expressão); e as crescentes exigências
independentistas das repúblicas soviéticas.
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Zakaria, 2025). A tradução do neo-eurasianismo em práticas de política externa ocorre
através de mediações institucionais concretas, envolvendo elites políticas, complexos
securitários, aparelhos mediáticos e redes informais de influência, o que explica a
coexistência de coerência discursiva e pragmatismo tático na ação externa russa.
A crescente centralidade da Ásia-Pacífico tem reforçado este posicionamento da Rússia,
antecipado por Geoffrey Sloan no final do século passado (Sloan, 1999b). A determinação
da política externa russa contra a “globalização do Ocidente”, intrinsecamente marcada
por esta perspetiva irredentista, continua a pôr em causa a ordem internacional liberal
estabelecida com o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, desafiando convenções,
tratados e princípios fundamentais do direito internacional
5
. Remontando às raízes dos
postulados marxistas-leninistas, o regime russo assume que a sua influência “(…) deve
necessariamente acarretar mudanças, não apenas na forma e instituições da democracia,
mas mais especificamente uma mudança que garanta a extensão, de uma forma inédita,
na história do mundo (…)” (Lenine, 2024, p. 68).
Deslizando entre a apatia e a comoção, a comunidade internacional esforça-se por
acompanhar a escalada da conflitualidade contemporânea, procurando aplacar o
expansionismo de Moscovo, mormente através de sanções político-diplomáticas e
económicas (Redação DN, 2022). Apesar da condenação generalizada por parte da
comunidade internacional da “Operação Militar Especial na Ucrânia”, levada a cabo pela
Rússia em fevereiro de 2022, a UE enfrenta tensões internas, marcadas por desafios
persistentes no domínio da confiança tua entre os Estados-Membros, perante a
necessidade de definição de uma resposta coordenada para travar as ambições do
agressor russo ao território e às reservas de minerais raros da vizinha Ucrânia. Este
cenário foi agravado pela inesperada retirada de apoio norte-americano e pela apatia do
Reino Unido agora separado da UE , contrariando os compromissos diplomáticos
firmados no Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança, assinado em 1994
(Sahuquillo, 2024). Assistimos, como nunca, a um crescendo de incerteza e a um mero
exponencial de riscos globais, instantaneamente mediatizados e instrumentalizados na
conquista do poder (Bauman, 2001; Beck, 2009). O alargamento estratégico da orla
europeia ou Rimland”, como foi teorizada por Nicholas Spykman, em 1942 até ao
Mar Negro e a adesão de novos países à OTAN (nomeadamente, a Suécia e Finlândia,
sem esquecer a promessa de abertura à Ucrânia), parece surgir como farol da esperança
na contraposição da democracia ao autocratismo. A rivalidade Heartland (de orientação
terrestre) Vs. Rimland (de valência marítima) é, presentemente, uma realidade
incontornável nas Relações Internacionais (Spykman, 1944 e 2017; Kaplan, 2022;
Colibășanu, 2023).
Depois de ter desmerecido os repetidos alertas de Charles de Gaulle
6
, a Aliança
(trans)Atlântica, firmada pelo Tratado do Atlântico Norte em 4 de abril de 1949, corre
5
A este respeito, assinalamos as invasões russas à Polónia e à Finlândia (1939), à Estónia e Lituânia (1940),
à Hungria (1956), à Checoslováquia (1968), ao Afeganistão (1979), à Chechénia (1994 e 1999), à Geórgia
(2008) e à Síria (2015). O desejo intemporal de combinar o poderio em terra com o marítimo esteve na origem
da invasão ao Afeganistão e na tentativa de desestabilização do Paquistão na década de 1980 (Kaplan, 2022).
6
O general De Gaulle acreditava que a Europa deveria ser uma potência geopolítica por si só, com uma política
de defesa própria, sem submissão a Washington. O seu pensamento crítico do Atlantismo” e defensor da
independência da defesa militar francesa influenciou inúmeros debates sobre a autonomia estratégica da
Europa. A mudança de posicionamento de Trump em relação à defesa europeia confirmou essa teoria (Verdú,
2025).
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agora um perigo de morte face à expansão russa e ao posicionamento transacional da
administração norte-americana. O distanciamento dos EUA em relação à guerra russo-
ucraniana, iniciada, em 2014, com a anexação unilateral da península da Crimeia e
alargada à escala total, em 2022, com a ocupação dos territórios do leste da Ucrânia,
nomeadamente os oblast do Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson; a ameaça de
bloqueio e retirada norte-americana da OTAN; e a aproximação entre Trump e Putin,
colocam em perspetiva a viabilidade de um cessar-fogo consequente ou mesmo a eficácia
de uma eventual reação da Europa em defesa da Ucrânia (Plesha, 2020; Sosa, 2024). A
UE enfrenta três limitações estruturais na sua capacidade de resposta estratégica: a
ausência de forças armadas próprias com comando unificado; a dependência histórica da
garantia de segurança dos EUA no quadro da OTAN; as divergências internas entre
Estados-Membros, permeáveis a operações de influência externa (Barata, 2014;
Applebaum, 2025). Estas fragilidades estruturais comprometem a formulação de uma
política externa comum coerente e coesa ante as ameaças híbridas russas
7
. Conclui-se
que a fragmentação da resposta europeia não resulta apenas de défices materiais, mas
de uma assimetria narrativa estrutural, na qual a UE privilegia discursos normativos e
procedimentais, enquanto a Rússia opera com narrativas estratégicas simplificadas,
emocionalmente mobilizadoras e historicamente ancoradas.
A administração republicana dos EUA tem evidenciado ainda práticas de favorecimento
de redes empresariais próximas do poder executivo, designadas na literatura como crony
capitalismo (Haggard & Kang, 2020), em simultâneo com uma diplomacia europeia
marcada por divergências internas entre os Estados-Membros. Esta conjugação de
fatores dificulta a reversão das alterações territoriais ocorridas desde 2014,
nomeadamente na Crimeia e no leste da Ucrânia (Agência Lusa, 2025). Assistimos, em
direto, ao redesenho do mapa geopolítico do século XXI. Ao fazer um paralelo com as
mudanças políticas e socioeconómicas operadas na ordem internacional durante a
ascensão e queda do Terceiro Reich, pode argumentarse que a segunda presidência de
Donald Trump está a contribuir para uma transformação da ordem mundial
contemporânea, ainda de contornos, tendências e efeitos incertos, mas potencialmente
tão disruptiva quanto outras inflexões autoritárias do século XX (Fairclough, 2023). A
Pax Americana (longa paz), decorrente da hegemonia dos EUA, transformou-se numa
Totius Mundi Dubitationem (incerteza global), compelindo a um novo olhar sobre o
tabuleiro internacional, repleto de novos desafios, obstáculos e dubiedades (Bauman,
2001; Colibășanu, 2023; Sahuquillo, 2025).
Todavia, é plausível que este momento de adversidade global se revele uma
oportunidade única para a França e o Reino Unido as únicas potências nucleares do
“Velho Continente” , bem como a Alemanha motor da economia europeia ,
assumirem, de uma vez, as rédeas da defesa europeia e emanciparem o seu complexo
securitário e militar. O caminho percorrido pela Polónia serve de lição à dormência dos
demais Estados-Membros da OTAN defronte da iminência de um confronto aberto com a
Federação da Rússia num futuro próximo. Atualmente, a Polónia, reconciliada com uma
7
Neste quadro difuso, atenda-se, por exemplo, à Hungria de Viktor Orbán, tida como o país mais corrupto da
Europa e com estreitas afinidades à Rússia; à Eslováquia de Robert Fico, forte crítico do apoio militar à Ucrânia;
ou ao financiamento russo da candidata presidencial de extrema-direita, Marine Le Pen, em França, no ano de
2014 recentemente condenada por desvios de fundos europeus , casos que constituem algumas das muitas
perplexidades que a UE enfrenta no seu rculo interno, superestimuladas por Moscovo (Barata, 2014;
Applebaum, 2025).
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Alemanha economicamente solidária e desbelicizada, despende mais do seu produto
interno bruto (PIB) com a defesa do que qualquer outro país da OTAN. No primeiro
trimestre de 2025, o presidente polaco, Andrzej Duda, anunciou a intenção de investir
4,7% do PIB na infraestrutura militar (Euronews & EBU, 2025).
Numa inversão de paradigma, os EUA outrora apresentados como sentinelas da
liberdade e da democracia evidenciam sinais de captura por dinâmicas iliberais, em
parte convergentes com o “putinismo”, fenómeno nacionalista que reconfigurou os
equilíbrios de poder no frágil tabuleiro internacional (Zakaria, 2025; Sellers, 2025c). Em
20 de janeiro de 2025, o retorno de Trump à Casa Branca, enquanto 47.º presidente dos
EUA, polarizou a sociedade norte-americana e gerou uma avalanche de arbitrariedades
geopolíticas e geoeconómicas desde a “guerra das tarifas” aduaneiras à manifestação
pública de interesse na anexação do Canal do Panamá, do Canadá e da Gronelândia
com implicações globais e que sugerem o despontar de uma mudança histórica que
poderá acelerar a substituição da ordem internacional liberal
8
por uma “ordem das
grandes potências”, como propagandeada pelo neo-eurasianismo (Dugin, 2025).
O lema “Make America Great Again” (MAGA), central na retórica da segunda presidência
Trump, projeta uma visão nacionalista que, em certos aspetos discursivos,
designadamente a crítica à globalização liberal e a exaltação da soberania nacional,
apresenta afinidades funcionais com elementos do imaginário neo-eurasiano, ainda que
enraizado em tradições ideológicas distintas (Fairclough, 2023; Zakaria, 2025; Dugin,
2025). Esta convergência retórica não implica, contudo, uma coordenação estratégica
formal, mas antes uma sintonia conjuntural em torno da rejeição do universalismo liberal
(Rufo, 2023). Segundo Robert Kaplan, “democracia e moralidade não são sinónimos”
(Kaplan, 2022, p. 51). Ao advogar o regresso da política hardline, o executivo dos EUA
reconhece a primazia da “lei do mais forte”, de pendor quase isolacionista, favorecendo
o seu relacionamento pragmático com outras grandes potências, nomeadamente a
Federação da ssia, a República Popular da China e a República Popular Democrática
da Coreia (Coreia do Norte), em detrimento da promoção dos valores liberais ou do apoio
à segurança e desenvolvimento sustentável dos países mais vulneráveis (Nye, 2003).
A ascensão, a nível global, de uma propensão nacionalista de índole autoritária, em parte
patrocinada pelo regime de Putin, constitui um dos traços mais marcantes da atual
conjuntura política internacional (Rufo, 2023). A reescrita da história, ao estilo da
Revolução Cultural Chinesa (1966-1976), destaca-se como uma das principais táticas
utilizadas pelos regimes autoritários, desde os fascistas aos neo-eurasianos, para apagar
progressos em áreas como a raça, identidade, género e classes sociais. Para tal, o
totalitarismo recorre à securitização e a um sistema de ensino hermético, antemurado
por mass media e por redes sociais totalmente controladas pelo Estado (como o Truth
Social de Trump, a VKontakte de Putin ou a Weibo de Xi Jiping). A consolidação e
manutenção do poder é caucionada pelo controlo da narrativa, ao jeito do que Nietzsche
designou de “perspetivismo”: “(…) não fatos, interpretações [Interpretationen].
(…) Tudo é subjetivo (…)” (Nietzsche, 2008, p. 260). Perante a perversão transversal do
ecossistema de informação, afigura-se crucial, mais do que nunca, preservar uma
8
Conjunto de relações globais, baseadas em regras e estruturadas, baseadas no liberalismo político-económico
e no internacionalismo liberal desde o final da década de 1940 (Lake, Martin, & Risse, 2021).
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memória coletiva que reconheça as lutas e conquistas sociais (Clover, 2016; Stanley,
2025).
A multipolarização políticoideológica das sociedades da era digital temse revelado
extremamente fraturante, servindo, em grande medida, o propósito estratégico do
maquiavelismo neoeurasiano. Atenda-se, a este respeito ao que se passa nos EUA, em
particular o antagonismo entre republicanos e democratas (Rufo, 2023). A degradação
da ordem internacional liberal, fundada em regras convencionadas, cede espaço ao caos
do oportunismo transacional e à cobiça do autoritarismo (Hurrell, 2015). Segundo Anne
Applebaum (2024), a ganância, a cleptocracia, o controlo da narrativa, a transformação
do sistema operativo e a difamação das democracias constituem os cinco pilares dos
regimes ditatoriais. Os sistemas autocráticos coevos são apoiados por redes sofisticadas,
compostas por estruturas financeiras cleptocráticas, avançadas tecnologias de vigilância
e conglomerados de propagandistas profissionais (prestadores de serviços) aos vários
regimes, desde a Rússia à China e do Irão à Coreia do Norte. Estes regimes autocráticos
dispõem de redes avançadas que integram estruturas financeiras opacas, tecnologias
modernas de vigilância e capacidades de influência informacional profissionalizada,
articuladas numa estratégia integrada de projeção de poder global (Goudarzi, 2022;
Applebaum, 2024). O condicionamento de apoio militar dos EUA à celebração de acordos
com a Ucrânia para a exploração de depósitos de minerais de terras raras, ilustra uma
estratégia de barganha assimétrica em que o suporte securitário é instrumentalizado
para obter contrapartidas económicas estratégicas (Umland, 2022; Alexandre, 2025).
Esta postura traduz as tensões entre os princípios declarados da ordem liberal e os
imperativos de realpolitik nas relações transatlânticas (Zakaria, 2025).
Com recurso à tecnologia
9
e ao poderio militar, o “trumpismo” dividiu a América e parece
convergir com o putinismo, numa inflexão política de 180 graus, para moldar a ascensão
de uma ordem mundial, ainda volátil, mas que resulta num realinhamento significativo
para o cenário geopolítico do século XXI
10
(Hurrell, 2015; Rufo, 2023; Fernandes, 2024a,
2024b, 2025a). Incontornavelmente, a emergência do populismo conservador e o
impacto de Trump na política internacional ocidental traduzem fenómenos reais e
relevantes para a contemporaneidade, com ressonâncias imprevisíveis. A provocação que
sobressai do neo-eurasianismo de Dugin oferece uma perspetiva alternativa e
desafiadora sobre a ordenação mundial vigente, questionando a globalização liberal
9
Disseminada no envolvente mediático digital, a “infodemia pode ser compreendida como a proliferação
excessiva de informações, tanto verídicas quanto imprecisas, que compromete a capacidade dos indivíduos de
localizar fontes fidedignas e orientações confiáveis, sobretudo em contextos de tomada de decisão urgente
(Zarocostas, 2020).
10
A ligação de Donald Trump à Rússia remonta, pelo menos, a 1977, altura em que o seu casamento com a
cidadã checa, Ivana Marie Zelníčková, o colocou na mira dos serviços de inteligência checos, a StB, e soviéticos,
o Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti (KGB). No entanto, especula-se que o cultivo de relações do Kremlin
com Trump terá ocorrido no final da década de 1980, quando o empresário visitou a União Soviética e arrecadou
vários investidores para os seus negócios. Segundo Yury Shvets, antigo agente do KGB, a ligação foi facilitada
por Semyon “Sam” Kislin, um empresário ucraniano ligado aos serviços de inteligência e segurança soviéticos
(Sellers, 2025a). Os ataques verbais que propalou contra a OTAN aquando do seu regresso aos EUA
despertaram a especulação de Trump ter sido aliciado e colaborado ativamente com os soviéticos. Segundo
Alnur Mussayev, antigo responsável do KGB no Cazaquistão, o norte-americano tornou-se num ativo do KGB
com o nome-código Krasnov” (Sellers, 2025b). A maioria das acusações sobre a conexão entre Trump e a
KGB gira em torno de transações financeiras envolvendo dinheiro russo, i.e., de transações que podem ser
vistas como indícios de manipulação ou apoio do KGB (Unger, 2018). Neste contexto, importa não esquecer a
comprovada interferência russa nas eleições presidenciais dos EUA, em 2016, em favor de Donald Trump (U.S.
Senate Select Committee on Intelligence, 2020; Fernandes, 2022).
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ocidental na disposição multipolar das grandes potências soberanas (Wilson, 2008;
Dugin, 2025).
O caso da guerra de longa duração entre russos e ucranianos revela-se paradigmático.
Assente no domínio geográfico a base da estratégia, da geopolítica e da geoeconomia
(Kaplan, 2022) e na supressão e no revisionismo histórico, o irredentismo da Rússia
compagina-se com as políticas czaristas e soviéticas. Desde logo, o putinismo põe em
causa a legitimidade da Ucrânia como um país independente, livre e soberano. Em 2022,
o antigo presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, ridicularizou publicamente “(…) uma
pseudo-história do estado ucraniano (…)” e defendeu que o objetivo de Moscovo é “(…)
uma Eurásia aberta entre Lisboa e Vladivostok” (Redação DN, 2022). Notoriamente,
assiste-se a uma mobilização sistémica para reescrever a narrativa histórica e projetar a
Heartland russófona para o comando político do mundo, mediante a absorção dos
territórios limítrofes (Colibășanu, 2023). Efetivamente, a estratégia implícita à política
externa russa baseia-se num ideal expansionista, autoritário e radical que encara a
dissolução da União Soviética como um grave erro histórico e que deve ser corrigido, a
qualquer custo. A doutrina do neo-eurasianismo sustenta, entre outros posicionamentos
extremistas, que a Rússia deve restaurar o seu magistério de influência sobre o antigo
espaço soviético, nele incluindo a Finlândia, os Estados Bálticos (Estónia, Letónia e
Lituânia) e a Polónia, os quais, à semelhança da Ucrânia, são considerados como
obstáculos estratégicos à projeção do poder russo na Mitteleuropa (Europa Central), no
Mar Báltico e no palco mundial (Rodríguez Cobos, 2024).
O expansionismo por parte daquele que é o maior país do mundo, com profundidade de
distância e território estendido ao longo de 170 graus de longitude , materializa-se
não apenas através de ações militares típicas, mas sobretudo através de mecanismos de
guerra híbrida, que combinam recursos tipicamente militares com ações não
convencionais, tal como os ciberataques, os veículos de desinformação, a pressão
económica e diplomática, as operações de influência e psicológicas, a sabotagem, a
espionagem e os confrontos diretos, entre outras estratégias
11
(Lin, 2019; Simola &
Leppänen, 2025; Fernandes, 2025a, 2025b). “Para o capitalismo, o movimento
revolucionário internacional não traz a paz, mas espada” (Jones, 2022, p. 27). Estas
táticas insidiosas, que esbatem os limites dos arquétipos normativos internacionais e
11
Entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, os grupos de intrusão UAC-0050 e UAC-0006, com ligações a
interesses russos, levaram a cabo campanhas cibernéticas com motivações financeiras, de espionagem e
desestabilização política, com particular incidência sobre a Ucrânia. Os alvos destas operações incluíram
entidades governamentais, empresas dos setores da defesa, energia e gás, bem como jornalistas e
organizações não-governamentais envolvidas no contexto do conflito. Paralelamente, registaram-se operações
psicológicas, como o envio de ameaças de bomba e terrorismo, dirigidas a instituições ucranianas e a países
aliados, nomeadamente Suíça, Alemanha, Polónia e França. Estas ações apresentam características compatíveis
com o modus operandi do grupo UAC-0050, associado à designação “Fire Cells Group”. Estes grupos operam
como extensões informais de estruturas estatais, atuando de forma híbrida entre o cibercrime e os serviços de
inteligência. As suas atividades abrangem a infiltração de infraestruturas críticas, a manipulação da informação
e a extração ilícita de recursos financeiros. Embora os ataques se concentrem maioritariamente na Ucrânia,
empresas internacionais também se revelam alvos preferenciais quando representam interesses estratégicos
para os Estados envolvidos. A utilização de serviços de alojamento resistentes à fiscalização (bulletproof
hosting) revela uma estreita articulação entre agentes do cibercrime e redes de inteligência. Esta infraestrutura
beneficia de mecanismos legais opacos, baseados em empresas fictícias sediadas em paraísos fiscais e em
identidades virtuais, dificultando a responsabilização legal e o desmantelamento destas redes. O caso da
Zservers provedor de serviços de hospedagem com sede na Rússia é paradigmático: apesar das sanções
impostas pelo governo dos EUA, os seus administradores não foram detidos, tendo conseguido relocalizar as
suas operações e reforçar a segurança dos seus sistemas, demonstrando a elevada adaptabilidade e resiliência
destas estruturas clandestinas (Intrisec, 2025).
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intervêm prolificamente nos seus interstícios, constituem uma parte substancial da
doutrina russa de confronto indireto ou por procuração (by proxy), inspirada por uma
longa tradição de subversão política e militar, bem patenteada na doutrina Gerasimov
(Gerasimov, 2013; Bartles, 2016; Fernandes, 2024a). A “desinformação-como-serviço”
é, presentemente, uma das armas mais portentosas do aparelho bélico russo na arena
global, estendendo-se em todo o plano da geopolítica digital como uma ameaça
existencial (Umland, 2022; Mecklin, 2024; Gouliev, 2025; Intrisec, 2025).
A Ameaça aos Estados Bálticos e o Corredor de Suwałki
Neste intrincado enquadramento, a posição fronteiriça da Polónia, da Lituânia, Letónia e
Estónia todos Estados-Membros da OTAN desde 1999 (Polónia) e 2004 (Estados
Bálticos), respetivamente , fez com que se tornassem alvos prioritários da estratégia
disruptiva do Kremlin, sofrendo sucessivos ataques cibernéticos e campanhas massivas
de manipulação da opinião pública nos media e, sobretudo, na manosphere
12
. A guerra
híbrida russa tem sido particularmente intensa contra a Estónia, Letónia e Lituânia, países
que, apesar de pequenos em dimensão, ocupam, juntamente com a Finlândia (membro
da OTAN desde 2023), um espaço estratégico fundamental junto do Mar do Báltico,
essencial para a contenção da influência russa no norte da Europa (Kaplan, 2022).
Segundo relatórios independentes, em 2024, os Estados Bálticos enfrentaram cerca
de 4.500 ataques cibernéticos atribuídos à Rússia, o que ilustra a operacionalização da
sua doutrina híbrida (Simola & Leppänen, 2025; Tkachuk, 2025). A desconexão
energética dos Estados Bálticos à Rússia e à Bielorrússia (BRELL), concretizada em 2025,
integrou os três países Bálticos no sistema elétrico europeu (ENTSO-E), mitigando as
chantagens russas sobre as infraestruturas críticas e exemplificando uma notável
resiliência estratégica (Rodríguez Cobos, 2024; Bellamy & AP, 2025).
A Estónia foi um dos primeiros alvos dessa estratégia quando, em 2007, enfrentou um
ciberataque maciço atribuído a fábricas de trolls, bots e hactivistas de aluguer pró-
Kremlin, após a remoção de um monumento da era soviética, em Tallinn. Este ataque
paralisou as infraestruturas críticas do país, incluindo bancos, redes governamentais e
meios de comunicação, demonstrando a poderosa capacidade da Rússia em utilizar a
envolvente digital como um campo de batalha (Ottis, 2008; Vaidišová, 2022; Fernandes,
2024a).
Desde então, ataques semelhantes m sido lançados, de modo massificado e por
diferentes meios, contra as instituições, serviços e empresas (públicas e privadas) da
Letónia e da Lituânia, visando não apenas as suas redes digitais, mas também
espalhando campanhas de desinformação que procuram deslegitimar os seus governos
e fomentar a desordem social. Em 2022, a Lituânia sofreu intensos ciberataques a
entidades governamentais e infraestruturas essenciais, na sequência do bloqueio parcial
do trânsito de mercadorias russas para Kaliningrado, um exclave estratégico russo no
Báltico (Łukasik-Turecka & Malužinas, 2023).
12
Comumente traduzida como “manosfera”, a expressão significa o conjunto de comunidades online de homens
com interesses ou ideologias específicas, muitas vezes controversas, sujeita a um elevado risco de
radicalização, especialmente junto dos mais jovens.
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A Polónia, pela sua posição como elo fundamental entre a Europa Ocidental e os Estados
Bálticos, também tem sido alvo frequente de campanhas de desinformação e múltiplas
operações de guerra híbrida. A Rússia tem disseminado narrativas falsas sobre a política
polaca, promovendo desconfiança em relação à OTAN e amplificando tensões históricas
entre Varsóvia e Kyiv (Kruttke, 2024). Estes intensos ciclos de hostilidade fazem parte
de um esforço amplo de um ecossistema p-Kremlin, criado para desestabilizar a coesão
europeia e enfraquecer o apoio à Ucrânia (Kuczyńska-Zonik, 2016; Shuker & Topor,
2021).
Neste particular, a Polónia e a Lituânia partilham um ponto geograficamente vulnerável,
conhecido como o Corredor de Suwałki, o qual constitui um estreito intervalo de território,
com menos de 100 quilómetros de extensão, que separa Kaliningrado da Bielorrússia,
aliada de Moscovo. O Corredor de Suwałki constitui o único ponto de ligação terrestre
entre os Estados Bálticos e o território principal da OTAN, configurando um chokepoint
estratégico que, em caso de bloqueio pelas forças russo-bielorrussas, isolaria
militarmente a Estónia, Letónia e Lituânia do apoio aliado (Sadowski & Maj, 2022).
Exercícios militares russo-bielorrussos, nome-código Zapad, têm simulado cenários de
neutralização deste corredor, elevando a sua saliência na doutrina estratégica da OTAN
e contribuindo para a mudança de postura de não-alinhamento militar de países como a
Suécia e a Finlândia (Broeker, 2025).
A escalada da guerra híbrida russa tem também um forte impacto na segurança
marítima, particularmente no Mar Báltico, onde a Rússia tem sido acusada de ataques a
infraestruturas submarinas, como cabos de comunicação e gasodutos. Em outubro de
2022, foi registada uma explosão nos gasodutos Nord Stream 1 e 2, levantando suspeitas
sobre a autoria do ataque e demonstrando a vulnerabilidade das infraestruturas
energéticas europeias a operações de espionagem e de sabotagem (Virág & Tancsa,
2023). A segurança das redes de comunicação submarinas também está em risco. Os
cabos de fibra ótica que ligam os Estados Bálticos ao resto da Europa são alvos potenciais
da estratégia russa de guerra não convencional. Qualquer interrupção nestes sistemas
comprometeria as comunicações civis e militares, colocando em risco a capacidade de
resposta da OTAN em caso de conflito (Hernández-Benito, 2024; Simola & Leppänen,
2025).
Desde a declaração de independência da URSS, em 1990, e a subsequente dissolução do
bloco soviético, no ano seguinte, os Estados Bálticos têm mantido relações tensas com a
Rússia, despertando a necessidade de resiliência geopolítica multidimensional. Nos
últimos anos, o referido desmantelamento do BRELL, no contexto da criação de uma
nova rede energética integrada com o restante espaço da UE, reforçou a resiliência dos
Estados Bálticos. Esta infraestrutura inclui, entre outros elementos, cabos submarinos no
Mar Báltico (como o Harmony Link, entre a Lituânia e a Polónia; o Baltic Sea Submarine
Cable, entre a Suécia, Estónia e Finlândia; e o Fenno-Skan 3, entre a Suécia e a
Finlândia), reforçando a interligação energética com a UE. Os três países bálticos, que
partilham uma fronteira terrestre de 1633 quilómetros com a ssia e a Bielorrússia,
notificaram Moscovo e Minsk da sua intenção de concretizar a desconexão em 2024,
numa estratégia destinada a minimizar o risco de uma reação hostil por parte destas
potências totalitárias. Em 2025, depois de décadas de dependência de Moscovo, a adesão
ao ENTSO-E revestiu um profundo significado simbólico e geopolítico para os Estados
Bálticos (Bellamy & AP, 2025). A independência do gás russo passa por novas
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interligações entre a Lituânia, Polónia e Finlândia (Balticconnector), bem como pelo
programa nuclear (Olkiluoto 3, na Finlândia) e a aposta nas energias eólica e solar no
Mar Báltico. De facto, os ensinamentos a retirar das experiências da Suécia, Finlândia e
Polónia no campo da energia nuclear podem ser muito benéficos para enfrentar as
intimidações nucleares da Rússia (Broeker, 2025). Um investimento semelhante está a
ser desenvolvido ao nível das linhas de ferro instaladas entre os Estados Bálticos e a
Europa Central, como a Rail Baltica, que liga Tallin a Varsóvia, ou o desenvolvimento do
túnel subaquático que ligará Tallin a Helsínquia. Nos termos do Regulamento (UE)
2024/1679 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 13 de junho de 2024, a Rede
Transeuropeia de Transportes promete revolucionar as estradas, caminhos de ferro,
aeroportos e infraestruturas hídricas, aumentando os fluxos entre os Estados Bálticos e
o resto do continente europeu. Como seria de esperar, todo este reforço sistémico da
coesão social, económica e territorial da UE exaltou o regime russo, que aumentou a
pressão sobre os sectores críticos da energia, transportes, comunicações e defesa na
Rimland europeia.
Os casos dos Estados Bálticos exemplificam a operacionalização concreta da doutrina de
guerra híbrida russa no Rimland europeu, combinando a pressão militar convencional no
Corredor de Suwałki com a disrupção digital e dependência energética. Esta estratégia
confirma a centralidade do neo-eurasianismo como matriz legitimadora de uma política
externa expansionista que contesta, simultaneamente, a coesão da OTAN e a autonomia
dos Estados sucessores da URSS. Neste contexto, a gigantesca máquina de propaganda
e desinformação russa, recentemente enformada pela Global Fact-Checking Network
(GFCN) moscovita, criada em contraposição à International Fact-Checking Network
(IFCN) ocidental, reveste uma importância angular na prossecução da estratégia neo-
eurasiana (Lin, 2019; Oledan, et al., 2021; Colibășanu, 2023; Fernandes, 2024a, 2024b;
Sadeghi, 2025). A reescrita da história e o controlo da narrativa, ainda que falsa, são
objetivos primordiais das autocracias (Applebaum, 2024; Fernandes, 2025a, 2025b).
O Holodomor e a Desinformação no Cenário Global
As intimações russas, apoiadas pelo exclave de Kaliningrado, à segurança da Ucrânia,
Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia, principalmente no Corredor de Suwałki e
no Mar Báltico, atestam que a guerra híbrida e a desinformação multimédia, promovida
pelo Kremlin, continuam a ser os maiores desafios à segurança europeia no século XXI.
O revisionismo histórico e territorial insere-se, como vimos anteriormente, numa tradição
mais ampla de repressão dos ímpetos autonomistas e independentistas da Ucrânia, cuja
opressão remonta ao período czarista e soviético (Fernandes, 2025a, 2025b).
Nesta comensuração, o Holodomor
13
(1932-1933), reconhecido como genocídio por 26
Estados e pelo Parlamento Europeu (Resolução 1481/2008), constitui um precedente
histórico da instrumentalização da fome como arma política pelo regime soviético,
visando suprimir a identidade nacional ucraniana e a resistência camponesa à
coletivização forçada (Applebaum, 2022). Esta prática estabelece uma continuidade
13
O termo vem do ucraniano e significa morte por fome”. O Holodomor é um dos eventos mais trágicos da
história da Ucrânia, sendo relembrado anualmente no quarto sábado de novembro, como um dia de
homenagem às vítimas.
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estrutural com as atuais campanhas russas de negação do Holodomor, enquanto “mito
nacionalista ucraniano”, conforme documentado em discursos oficiais pós-2014.
O jornalista galês, Gareth Jones, foi uma das poucas testemunhas ocidentais do
Holodomor, a “Grande Fome” que devastou a Ucrânia sob o regime comunista. O
Holodomor traduziu-se numa política deliberada de confiscação de colheitas e extensa
repressão dos camponeses ucranianos, causando a morte de milhões de pessoas. Em
1933, Jones viajou para a União Soviética e, desafiando as restrições impostas aos
jornalistas estrangeiros, deslocou-se clandestinamente para as zonas rurais da Ucrânia.
Nos seus relatos, descreveu aldeias inteiras despovoadas, pessoas morrendo à beira das
estradas e camponeses desesperados que não tinham acesso a bens essenciais,
enquanto os soviéticos exportavam as grandes quantidades de cereais requisitadas para
financiar o triplo objetivo do Plano Quinquenal
14
. Documentando os testemunhos de
alguns sobreviventes, Gareth Jones expôs publicamente a instrumentalização da fome
como um crime premeditado pelo regime comunista contra os ucranianos. Ao regressar
ao Ocidente, o jornalista publicou alguns artigos nos principais jornais britânicos e norte-
americanos, denunciando uma tragédia humana e morticínio sem precedentes. No
entanto, a sua voz foi parcialmente abafada por propagandistas p-soviéticos que
minimizaram as denúncias e ajudaram a perpetuar a negação do Holodomor por décadas
a fio (Jones, 2022).
A manipulação da narrativa histórica e a disseminação de desinformação foram os pilares
fundamentais da estratégia soviética para encobrir os crimes do regime, incluindo a
“Fome Vermelha” e outras formas de repressão contra os povos que integravam a antiga
União Soviética (Applebaum, 2022). O Hotel Metropol de Moscovo desempenhou uma
função central na manipulação da narrativa e disseminação de desinformação,
funcionando como um epicentro de controle e monitorização dos jornalistas estrangeiros
deslocados na URSS (Philps, 2024). Ali, os correspondentes ocidentais eram aliciados
através de subornos, luxos e regalias, ou intimidados com ameaças diretas ou
chantagens comprometedoras (Kompromat), de forma a garantir que transmitiam para
o Ocidente uma imagem idílica e distorcida da verdadeira realidade soviética (Jones,
2022; Applebaum, 2022). Rememore-se que, durante a década de 1930, Moscovo era
um dos destinos mais difíceis para os jornalistas estrangeiros, os quais enfrentavam
severas restrições à circulação e ao acesso à informação. O decadente Metropol, um dos
edifícios mais luxuosos da cidade, tornou-se o local onde o regime soviético mantinha os
correspondentes ocidentais sob vigilância constante, de modo a controlar a narrativa
além-fronteiras (Philps, 2024).
De entre os muitos jornalistas estrangeiros que se fixaram no Hotel Metropol, o
correspondente do New York Times em Moscovo, Walter Duranty, destacou-se como um
dos mais influentes e controversos. Este jornalista recebeu elogios pela sua cobertura da
União Soviética e até mesmo um Prémio Pulitzer, em 1932, mas as suas reportagens
omitiram intencionalmente os horrores do Holodomor, perfilhando a linha oficial do
regime durante os catorze anos que ali esteve colocado. Duranty, tido por George Orwell
como um “criptocomunista” e uma marioneta do bolchevismo revolucionário, publicou
um artigo no New York Times, de 31 de março de 1933, com o título: “Os russos têm
14
O plano, delimitado entre outubro de 1928 a 30 de setembro de 1933, visava a a industrialização rápida, a
coletivização completa da agricultura e a eliminação de todos os elementos capitalistas na Rodina-mat'
(“Pátria Mãe”).
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fome, mas não estão famintos”. Na peça, o correspondente anglo-americano escreveu:
“Não fome real ou mortes por fome, mas mortalidade generalizada por doenças
devido à desnutrição” (Jones, 2022, p. 100). Relatos posteriores indicam que Duranty,
tal como outros jornalistas, desfrutava de acesso privilegiado a bens de luxo e eventos
exclusivos organizados pelas autoridades soviéticas, enquanto enfrentava pressões das
elites comunistas para não relatar qualquer informação que pudesse comprometer a
imagem da URSS no plano internacional. As suas reportagens sugeriam que as alegações
sobre fome em massa na Ucrânia eram exageradas ou infundadas, alinhando-se com a
estratégia soviética de desinformação (Duranty, 1944; Jones, 2022; Applebaum, 2022).
Enquanto Gareth Jones arriscava a própria vida para relatar a aterradora realidade do
Holodomor, Duranty e outros colegas ajudavam a construir uma narrativa falsa e
distópica que encobria a verdade (Philps, 2024).
O protótipo da “manipulação e interferência de informação estrangeira”, então,
personificado no Hotel Metropol, era apenas uma parte de um esforço maior do regime
soviético para controlar a perceção externa da realidade dentro da URSS. A estratégia
do Soviete Supremo incluía, antes de tudo, restrições ao acesso e à liberdade de
circulação dos jornalistas estrangeiros. Na prática, os correspondentes eram limitados a
áreas específicas e podiam viajar para outras regiões com autorização prévia, quase
sempre acompanhados por “guias” do regime. Seguidamente, qualquer material
jornalístico enviado ao exterior passava por um rigoroso processo de censura e
escrutínio. Os jornalistas que publicassem reportagens desfavoráveis ao regime soviético
eram declarados persona non grata e expulsos do país. Para criar um ambiente de
cooptação, os jornalistas estrangeiros eram expostos à propaganda soviética e
persuadidos, através de benefícios ou de intimidações, a adotar uma postura favorável
ao regime. Neste contexto, a URSS investiu sistematicamente em operações de
desinformação para desacreditar jornalistas e eliminar dissidentes, perseverando na
promoção de explanações falsas no Ocidente. No caso do Holodomor, utilizou agentes e
simpatizantes no estrangeiro para denegrir as denúncias como propaganda “anti-
soviética” (Jones, 2022; Philps, 2024).
Aqui chegados, certificamos que a manipulação-interferência-corrupção do ecossistema
de informação internacional tem sido uma ferramenta primordial do imperialismo russo
ao longo da história, quer ao tempo da União Soviética, quer da atual governação de
Putin. A herança soviética neste domínio deixou marcas profundas, sendo visível na
forma como a ssia contemporânea conduz as suas operações de espionagem e
desinformação, difamação e sabotagem, entre outras, recorrendo à massificação de
campanhas multidimensionais para ocultar crimes de guerra, justificar agressões
militares e incitar divisões no seio dos países ocidentais. A guerra híbrida russa,
caracterizada por ataques cibernéticos e pela disseminação sistemática de fake news
através de hordas de hactivistas, trollagem institucionalizada, botnets e outlets de
desinformação (oficiais e by proxy), reproduz os três princípios fundamentais da
propaganda soviética, ainda vigentes: o controlo absoluto da informação; a construção
de narrativas manipuladas; e a difamação de fontes que denunciam a realidade dos
factos (Applebaum, 2022; Intrisec, 2025; Fernandes, 2025a, 2025b).
A mais recente reedição dos relatos de Gareth Jones surge num contexto em que a
Ucrânia enfrenta uma redobrada vaga de hostilidades encomendadas por pelo regime
russo, tornando-se um testemunho ainda mais relevante da longa tradição de resistência
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e sacrifício ucraniano à dominação russa. Ainda hoje, o Holodomor continua a ser um
elemento central na assunção da identidade nacional ucraniana, sendo um símbolo da
impiedosa repressão histórica imposta pelo Kremlin. Anne Applebaum aprofundou a
análise das causas e consequências deste genocídio, demonstrando como a “Grande
Fome” foi utilizada como um cruel instrumento de repressão política, destinado a
aniquilar sentimentos autonomistas e nacionalistas ucranianos. A sua investigação revela
ainda uma continuidade histórica entre a repressão estalinista da década de 1930 e a
política autocrática da Rússia contemporânea, mormente com a invasão da Ucrânia em
2014 e 2022 e a degradação sistemática da sua soberania, identidade nacional e
integridade territorial. A instrumentalização da fome e da repressão política pelo regime
soviético encontra paralelos diretos nas atuais táticas de Moscovo, que continua a
privilegiar o uso da desinformação e da manipulação da opinião pública como armas
estratégicas. Recordamos, nesta oportunidade, as palavras da escritora ucraniana
Victoria Amelina, uma das muitas vítimas mortais dos bombardeamentos russos: “O
sistema soviético nunca comemorou o Holocausto. Uma razão para isso é que, a partir
do momento em que se define e identifica um genocídio, passam a ser reconhecíveis
outros crimes genocidas. O império soviético não queria que aprendêssemos a nossa
história” (Amelina, 2023).
Acontece, porém, que a estratégia de distorção da realidade empregue pelo maquinismo
de Putin não se confina à Ucrânia, estendendo-se a toda a Europa e ao espaço
transatlântico (Fernandes, 2024a). Presentemente, mais do que “factos alternativos”,
assistimos a “realidades alternativas”, geradas por inteligência artificial generativa (IA
generativa) e magnificadas por computer generated images, que corroboram as
narrativas autocráticas e iludem a perceção das pessoas do mundo que as rodeia
15
(Fernandes, 2022 e 2024b; Zelenskyy, 2025). A realidade e a ficção influenciam-se,
interpenetram-se e confundem-se uma com a outra (Allen & Nehrin, 2025).
Nos últimos anos, a UE e a OTAN têm expressado crescente preocupação com os
constantes ataques cibernéticos e campanhas massivas de manipulação e interferência
na informação pró- Kremlin. Países como a Ucrânia, Polónia, Lituânia, Letónia, Estónia,
Suécia e Finlândia têm sido os alvos preferenciais destas ofensivas, dada a sua posição
geopolítica e a sua história de resistência à influência russa. A crescente militarização da
região de Kaliningrado e a interferência (i.e., sabotagem) em redes de comunicações no
Mar Báltico intensificam as preocupações sobre uma possível ofensiva russa na área, seja
15
A rápida disseminação de ferramentas de IA generativa, como os modelos de linguagem de grande escala
(LLM), geradores de imagens e tecnologias de deepfake, está a transformar profundamente o cenário da
desinformação. Muitos especialistas comparam o impacto da IA generativa ao da invenção da imprensa ou da
internet, atribuindo-lhe um potencial de superalimentação” da desinformação, funcionando como um
amplificador de seu alcance e eficácia. Mesmo antes da popularização do ChatGPT, se discutia o potencial
desestabilizador das deepfakes, com alertas sobre a possível corrupção do ecossistema de informação e a IA
como uma arma de disrupção em massa. A IA generativa tem o potencial de tornar a desinformação mais
rápida (na geração e disseminação automatizada de conteúdos); mais barata (ao reduzir os custos humanos e
financeiros com produção e distribuição); mais persuasiva (através de conteúdos hiper-realistas como
deepfakes); mais personalizada (com base na análise de dados e adaptação da mensagem ao público-alvo); e
mais abrangente (graças à automação e à acessibilidade de ferramentas de IA para qualquer utilizador comum).
Adicionalmente, a IA generativa introduz dinâmicas mais complexas, criando falsas evidências, invertendo o
ónus da prova; questionando qualquer conteúdo como manipulado (“dividendo do mentiroso” ou “defesa
deepfake”); facilita a criação de personagens falsas críveis (bots, avatares, apresentadores digitais); e promove
um efeito psicológico de superpotência, motivando criadores de desinformação a confiar cegamente na eficácia
da IA. Em suma, a IA generativa aumenta a quantidade, a qualidade e a capacidade de disseminação da
desinformação, inaugurando uma nova era de falsificações potencialmente indistinguíveis da realidade,
comprometendo, mesmo que indiretamente, a integridade da informação (Allen & Nehrin, 2025).
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através de incursões convencionais ou de operações híbridas. Mas também Portugal,
Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, Chéquia, Eslováquia, Balcãs, Geórgia, Arménia
e Moldávia, sem esquecer a miríade de países que compõem os continentes americanos,
africanos e asiáticos, têm sido objeto destas operações de influência de longo alcance,
sobretudo pelos novos territórios geopolíticos digitais (Fernandes, 2024a, 2024b).
Segundo os alarmantes resultados de um estudo realizado nos EUA, um terço dos
americanos acredita amplamente na desinformação russa sobre os mais variados temas
quotidianos, nomeadamente a atinente à guerra russo-ucraniana (Skibinsk, 2025;
Zelenskyy, 2025; Fernandes, 2025a).
Pode concluirse que a chamada “roletarussa de desinformação e propaganda não
constitui um fenómeno novo, mas antes a continuidade de uma estratégia de longo prazo
que remonta a períodos antigos. Enquanto “agente do caos”, a ssia continua a utilizar
táticas de manipulação e influência para moldar a perceção global dos seus atos,
esconder crimes de guerra e justificar as agressões contra países circunvizinhos.
“Antes de uma nação poder ser reconstruída, os seus cidadãos têm de perceber como
em primeiro lugar foi destruída: como foram minadas as suas instituições, como foi
retorcida a sua linguagem, como foram manipuladas as suas pessoas. Precisam de
conhecer pormenores concretos e não teorias gerais e precisam de ouvir histórias
específicas, não generalizações sobre as massas. Precisam de uma melhor compreensão
do que motivou os seus predecessores, de -los como pessoas reais e não como
caricaturas a preto-e-branco, vítimas ou vilões. então é possível, lentamente,
reconstruir” (Applebaum, 2023, p. 609).
A análise da propaganda soviética e das suas complexas redes de desinformação, tal
como expostos por Jones e profundados por Applebaum, revelam-se essenciais para
compreender as ameaças da Rússia contemporânea. Uma vez consolidado esse
entendimento, importa maximizar a capacidade conjunta das democracias ocidentais
para resistir ao polimorfismo neo-eurasiano e à sua estratégia integrada de projeção de
poder global (Goudarzi, 2022; Fernandes, 2025a, 2025b; Simola & Leppänen, 2025).
Podemos confiar na Rússia?
Ao olharmos para o passado, a história revela-nos como a Rússia tem vindo a transgredir
repetidamente uma série de acordos e tratados internacionais, desrespeitando os
compromissos diplomáticos assumidos e os princípios fundamentais do direito
internacional. Este comportamento censurável tem gerado grandes preocupações ao
nível global, especialmente devido ao impacto na estabilidade regional (Clover, 2016;
Fernandes, 2024a, 2024b, 2025a).
De entre os principais acordos quebrados, destacamos o Memorando de Budapeste
(1994), assinado pela Rússia, EUA e Reino Unido, o qual garantia a soberania e a
integridade territorial da Ucrânia em troca da sua renúncia às armas nucleares soviéticas
estacionadas no seu território. A anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, e a
intervenção militar no Donbass (2014-2022) violaram diretamente esse compromisso,
comprometendo a soberania territorial da Ucrânia, conforme consagrado na Resolução
da Assembleia Geral das Nações Unidas ES-11/4 (2022) (Olszański, Sarna, &
Wierzbowska-Miazga, 2014; Plesha, 2020).
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Os Acordos de Minsk I (2014) e Minsk II (2015), concebidos para estabelecer um cessar-
fogo e criar as condições para uma solução política do conflito no Donbass, também
foram desrespeitados pela Rússia e pelos separatistas apoiados por Moscovo. Embora
esses acordos tenham sido uma tentativa de resolver o conflito, o Kremlin violou
repetidamente os compromissos estabelecidos através da manutenção de apoio militar
às forças separatistas no Donbass, do estacionamento de tropas e armas pesadas da
linha de frente e do desrespeito pelo cessar-fogo. Estas ões disruptivas prolongaram o
conflito e minaram a eficácia dos acordos (Pifer, 2016; Zbigniew, 2015).
Em 2022, a invasão militar da Ucrânia representou mais uma violação flagrante da Carta
das Nações Unidas (1945), da qual a Rússia é signatária e membro permanente do
Conselho de Segurança. Os princípios da não agressão e da proibição do uso da força
contra Estados soberanos foram reiteradamente transgredidos (Bowett, 2009; Wood,
2013). Além disso, a Rússia violou o Tratado de Amizade, Cooperação e Parceria
celebrado com a Ucrânia (1997), conhecido por Big Treaty, que reconheceu formalmente
as fronteiras ucranianas, incluindo a Crimeia, e estabeleceu princípios de respeito tuo
e cooperação. A incorporação da Crimeia e o apoio militar aos separatistas no Donbass
constituem, como vimos, uma violação direta deste tratado, que proibia alterações
unilaterais das fronteiras (Sorokowski, 1996; Litvinenko, 2016; Plesha, 2020).
As Convenções de Genebra (1949) e o Protocolo Adicional I (1977), que regem o direito
internacional humanitário, foram igualmente desprezadas. Estas normas proíbem a
ocupação ilegal de territórios e a deportação forçada de populações civis, tendo a ssia
sido acusada de cometer crimes de guerra, como a deportação forçada de civis
ucranianos (inclusive, crianças) para o seu território, execuções sumárias, bombardeios
indiscriminados e destruição de infraestruturas civis (Canton, 2021). Apesar das
Convenções de Genebra e dos seus Protocolos Adicionais; do Estatuto de Roma do
Tribunal Penal Internacional (1998); da praxe internacional; e do jus cogens, proibirem
expressamente ataques contra as populações civis, quase diariamente registam-se
baixas ucranianas não militares, como atestou o ataque russo a Sumy (Pereira, 2025;
Kherson & Rih, 2025).
Finalmente, a Convenção de Montevidéu (1933), que estabeleceu os critérios para o
reconhecimento de Estados e o princípio da não ingerência nos seus assuntos internos,
foi identicamente ignorada por Moscovo. O apoio aos separatistas do Donbass, a
anexação da Crimeia e o reconhecimento ilegal das “repúblicas populares” de Donetsk e
Luhansk, em 2022, trespassam os princípios de não intervenção e de respeito pela
integridade territorial dos Estados (Plesha, 2020; Egede, 2025).
Todas estas transgressões revelam o aparente desrespeito da Rússia pelas normas
internacionais fundamentais e pelos direitos humanos (Parlamento Europeu, 2025). No
entanto, a Rússia justifica as suas ações como “autodefesa preventiva”, invocando o
disposto no Artigo 51da Carta das Nações Unidas. O argumento, apesar de refutado
pelo Tribunal Internacional de Justiça, através de um parecer consultivo em 2024,
enfatiza uma hermenêutica no direito internacional humanitário e sublinha a necessidade
de mecanismos robustos na ordem liberal. Pelo exposto, a Rússia surge, no presente
quadro empírico, como um ator estruturalmente pouco fiável e contestado como parceiro
internacional (Zelenskyy, 2025).
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Conclusão
A análise desenvolvida ao longo desta investigação demonstrou que a política externa
russa recente é estruturada por uma lógica irredentista e uma estratégia de projeção de
poder que articula instrumentos militares convencionais com operações de guerra
híbrida, ciberataques e campanhas de desinformação, tecnologicamente sofisticadas
(Fernandes, 2024a, 2024b, 2025a; Parlamento Europeu, 2025). O neoeurasianismo, tal
como radicalizado por Alexander Dugin, fornece uma gramática ideológica que legitima
a reconstrução de esferas de influência no espaço póssoviético e a contestação da ordem
liberal internacional, ancorando a ambição de uma Eurásia alternativa ao Ocidente liberal
(Umland, 2022; Applebaum, 2023). A anexação da Crimeia, a intervenção no Donbass e
a invasão alargada da Ucrânia com o apoio operacional da Coreia do Norte e da China
ilustram esta lógica de expansão de “espaço vital”, reinterpretando, em chave
contemporânea, os conceitos clássicos de Lebensraum e de Heartland (Ratzel, 1901;
DiazMaurin, 2024, 2025; Kaplan, 2022).
Os resultados do estudo mostram que o neoeurasianismo não pode ser reduzido a mera
retórica putinista, devendo antes ser entendido como um enquadramento
espacialidentitário que articula a tradição geopolítica, o revisionismo histórico e a visão
civilizacional multipolar (Danilevsky, 1888; Clover, 2016). A sua matriz conceptual
assenta na leitura geosófica de Danilevsky, na centralidade do Heartland mackinderiano
e no Lebensraum ratzeliano, combinados com a “Quarta Teoria Política” de Dugin,
concebida para ultrapassar o liberalismo, o comunismo e o fascismo (Bassin & Aksenov,
2006; Dugin, 1997, 2012). A convergência desta arquitetura ideacional com a doutrina
Gerasimov potencia o uso sistemático da desinformação, de FIMI e de operações
cognitivas como instrumentos estruturais da política externa russa, em continuidade com
práticas de manipulação e corrupção do ecossistema informacional, enraizadas no
período soviético (Applebaum, 2022; Serviço Europeu para a Ação Externa, 2024;
Intrisec, 2025; Fernandes, 2025a, 2025b). Ao situar a Ucrânia, os Estados Bálticos e o
Corredor de Suwałki como espaçoscharneira entre a Heartland e a Rimland, a análise
evidencia a centralidade destas fronteiras na atual disputa hegemónica e na
vulnerabilidade estrutural da ordem liberal euroatlântica (Spykman, 1944, 2017;
Colibășanu, 2023; Rodríguez Cobos, 2024).
Do ponto de vista normativo e estratégico, a investigação sugere que a resposta das
democracias liberais o pode limitarse à gestão episódica de crises, exigindo antes uma
combinação de hard power credível, resiliência societal e capacidade de contra narrativa
estratégica, capaz de disputar a legitimidade, a memória histórica e a autoridade
interpretativa no espaço informacional global. A recorrência de violações de tratados
revela um padrão de desrespeito russo por normas basilares da ordem internacional
(Bowett, 2009; Wood, 2013; Pifer, 2016; Canton, 2021; Parlamento Europeu, 2025).
Neste quadro, iniciativas como a ProtectEU e o reforço da cooperação UEOTAN apontam
no sentido de uma maior autonomia estratégicomilitar europeia, mas permanecem
manifestamente insuficientes face à escala e sofisticação do dominacionismo”
neoeurasiano (Cabral, 2009; Nações Unidas, 2024; Simola & Leppänen, 2025). A
proteção de infraestruturas críticas, em especial no Mar Báltico e no Corredor de Suwałki,
bem como o investimento em literacia mediática, cibersegurança e mecanismos robustos
de verificação de factos, constituem condições necessárias para mitigar os efeitos
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desestabilizadores da guerra de informação russa (Lin, 2019; Virág & Tancsa, 2023;
HernándezBenito, 2024; Simola & Leppänen, 2025; Intrisec, 2025).
A retração política dos EUA, num contexto de crescente pressão isolacionista, acentua a
necessidade da UE repensar, à luz da realpolitik, a sua estratégia paneuropeia e
reinventar a sua autonomia estratégica. A “coligação das vontades” permanece
indispensável ao apoio militar e económico à Ucrânia, mas a dependência estrutural do
“guardachuva” de segurança norteamericano tornouse um fator de risco acrescido num
cenário em que apenas poder pode limitar poder (John Randolph of Roanoke apud
Kaplan, 2022, p. 51). O investimento coordenado em capacidades de defesa, nucleares
e convencionais, articulado com uma política externa verdadeiramente estruturada,
poderá permitir à UE aproximarse do estatuto de superestado regional, dotado de
forças armadas e política externa únicas, capaz de influenciar decisivamente a
configuração de poder no hemisfério ocidental (Spykman, 1944, 2017; Kaplan, 2022;
Verdú, 2025). A atual janela estratégica oferece à Europa continental uma oportunidade
para desenvolver capacidades autónomas de dissuasão híbrida e estratégica, reduzindo
a dependência da garantia de segurança externa e fortalecendo a resiliência societal face
às operações de influência. Nesta perspetiva, a defesa da ordem liberal não é apenas um
imperativo normativo, mas uma necessidade geoestratégica e existencial.
Em termos de agenda de investigação, o estudo abre três linhas de aprofundamento que
decorrem diretamente dos resultados obtidos. Em primeiro lugar, a análise comparativa
entre o neoeurasianismo russo e outros projetos civilizacionais como o “sonho chinês”,
o “mundo russo”, em sentido estrito, ou variantes de nacionalpopulismo ocidental
poderá clarificar padrões comuns de contestação à ordem liberal e de articulação entre
a ideologia, geografia e tecnologia (Brzezinski, 1997; Hurrell, 2015; Lake, Martin & Risse,
2021). Em segundo lugar, a incorporação sistemática de dados quantitativos sobre
ciberincidentes, fluxos energéticos, investimentos em defesa e perceções públicas
permitirá testar, com maior robustez, a relação entre o discurso ideológico e as práticas
geoestratégicas, bem como aferir empiricamente o impacto das estratégias de FIMI em
diferentes contextos nacionais (Simola & Leppänen, 2025; Gouliev, 2025). Em terceiro
lugar, a investigação sobre a recetividade societal às narrativas neoeurasianas, tanto na
Europa como no espaço transatlântico, é crucial para compreender os limites e as
potencialidades da resiliência democrática num contexto de multipolaridade emergente
e de proliferação de realidades alternativas, magnificadas pela IA generativa
(Zarocostas, 2020; Fernandes, 2022, 2024b; Allen & Nehrin, 2025).
Os próximos meses serão decisivos para o desfecho deste duelo entre autocratismo e
democracia, sob o olhar atento de Pequim e de outras potências revisionistas. Apesar da
gravidade da conjuntura geopolítica, a reflexão de Mikhail Gorbatchov oferece uma nota
de esperança: “(…) mais cedo ou mais tarde, os nossos esforços comuns darão frutos:
os nossos povos viverão numa sociedade próspera e democrática” (Gorbatchov, 2024).
Do mesmo modo, Ronald Reagan lembrava que, “(…) hoje em dia, é difícil serse otimista,
não porque a democracia é menos vigorosa, mas também porque os inimigos da
democracia refinaram os seus instrumentos de repressão. Mas devese ser otimista
porque a democracia revela, dia após dia, não ser, de modo nenhum, uma frágil flor
(Reagan, 2024, p. 215). Se a ordem internacional liberal enfrenta, hoje, uma contestação
estrutural estimulada pelo neoeurasianismo, a sua sobrevivência dependerá menos da
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inércia das instituições e mais da capacidade das democracias em articular poder,
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Omnes Omnibus
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