desestabilizadores da guerra de informação russa (Lin, 2019; Virág & Tancsa, 2023;
Hernández‑Benito, 2024; Simola & Leppänen, 2025; Intrisec, 2025).
A retração política dos EUA, num contexto de crescente pressão isolacionista, acentua a
necessidade da UE repensar, à luz da realpolitik, a sua estratégia pan‑europeia e
reinventar a sua autonomia estratégica. A “coligação das vontades” permanece
indispensável ao apoio militar e económico à Ucrânia, mas a dependência estrutural do
“guarda‑chuva” de segurança norte‑americano tornou‑se um fator de risco acrescido num
cenário em que “apenas poder pode limitar poder” (John Randolph of Roanoke apud
Kaplan, 2022, p. 51). O investimento coordenado em capacidades de defesa, nucleares
e convencionais, articulado com uma política externa verdadeiramente estruturada,
poderá permitir à UE aproximar‑se do estatuto de “super‑estado” regional, dotado de
forças armadas e política externa únicas, capaz de influenciar decisivamente a
configuração de poder no hemisfério ocidental (Spykman, 1944, 2017; Kaplan, 2022;
Verdú, 2025). A atual janela estratégica oferece à Europa continental uma oportunidade
para desenvolver capacidades autónomas de dissuasão híbrida e estratégica, reduzindo
a dependência da garantia de segurança externa e fortalecendo a resiliência societal face
às operações de influência. Nesta perspetiva, a defesa da ordem liberal não é apenas um
imperativo normativo, mas uma necessidade geoestratégica e existencial.
Em termos de agenda de investigação, o estudo abre três linhas de aprofundamento que
decorrem diretamente dos resultados obtidos. Em primeiro lugar, a análise comparativa
entre o neo‑eurasianismo russo e outros projetos civilizacionais – como o “sonho chinês”,
o “mundo russo”, em sentido estrito, ou variantes de nacional‑populismo ocidental –
poderá clarificar padrões comuns de contestação à ordem liberal e de articulação entre
a ideologia, geografia e tecnologia (Brzezinski, 1997; Hurrell, 2015; Lake, Martin & Risse,
2021). Em segundo lugar, a incorporação sistemática de dados quantitativos sobre
ciberincidentes, fluxos energéticos, investimentos em defesa e perceções públicas
permitirá testar, com maior robustez, a relação entre o discurso ideológico e as práticas
geoestratégicas, bem como aferir empiricamente o impacto das estratégias de FIMI em
diferentes contextos nacionais (Simola & Leppänen, 2025; Gouliev, 2025). Em terceiro
lugar, a investigação sobre a recetividade societal às narrativas neo‑eurasianas, tanto na
Europa como no espaço transatlântico, é crucial para compreender os limites e as
potencialidades da resiliência democrática num contexto de multipolaridade emergente
e de proliferação de “realidades alternativas”, magnificadas pela IA generativa
(Zarocostas, 2020; Fernandes, 2022, 2024b; Allen & Nehrin, 2025).
Os próximos meses serão decisivos para o desfecho deste duelo entre autocratismo e
democracia, sob o olhar atento de Pequim e de outras potências revisionistas. Apesar da
gravidade da conjuntura geopolítica, a reflexão de Mikhail Gorbatchov oferece uma nota
de esperança: “(…) mais cedo ou mais tarde, os nossos esforços comuns darão frutos:
os nossos povos viverão numa sociedade próspera e democrática” (Gorbatchov, 2024).
Do mesmo modo, Ronald Reagan lembrava que, “(…) hoje em dia, é difícil ser‑se otimista,
não só porque a democracia é menos vigorosa, mas também porque os inimigos da
democracia refinaram os seus instrumentos de repressão. Mas deve‑se ser otimista
porque a democracia revela, dia após dia, não ser, de modo nenhum, uma frágil flor”
(Reagan, 2024, p. 215). Se a ordem internacional liberal enfrenta, hoje, uma contestação
estrutural estimulada pelo neo‑eurasianismo, a sua sobrevivência dependerá menos da