concomitantemente, construções sociais e representações da sua relação com a
envolvente exterior, das quais se tornam indissociáveis (Santos, 2018).
Neste sentido, a crescente importância do ciberespaço nas sociedades contemporâneas
resulta não somente dos desenvolvimentos tecnológicos ocorridos desde o último terço
do século passado e em curso, que estão na origem, entre outros, do advento da
Internet, mas também da forma como a sociedade se apropriou da tecnologia resultante
daqueles progressos (Cardoso et al., 2015). Logo, atualmente, não é possível pensar as
sociedades coetâneas sem considerar a sua vertente tecnológica, uma vez que esta é um
reflexo indissociável da componente material da sua atividade (Simões, 2005).
Assim, num mundo caraterizado por transformações constantes que afetam praticamente
todas as vertentes da vida nas sociedades hodiernas, assente numa ordem
global/sistema mundo, cuja principal caraterística é a globalização (Giddens, 2010), que
se desenvolve e alicerça em tecnologias de grande velocidade de comunicação e em
sistemas de informação, assiste-se a um aceleramento do processo de digitalização e de
interconectividade em todas as áreas da atividade humana, com reflexos profundos em
termos económicos, sociais e políticos (Castells, 2007), impactando em larga escala a
realidade envolvente e promovendo a criação e a emergência de novos espaços de
interação e disputa, como é o caso do ciberespaço (Leonard, 2022; Nunes, 2015; Santos,
2014), que se carateriza não só pela sua qualidade de não-lugar antropológico (Augé,
2012), mas também por ser uma estrutura não-física, socialmente e discursivamente
construída (Santos, 2018).
O ciberespaço, ou, na sua evolução terminológica mais recente, metaverso (Fevereiro,
2022; L. B. Martins & Wolfe, 2023), conceito criado por William Gibson, em 1984, no
romance Neuromancer, como metáfora para descrever um espaço não-físico concebido
por redes de computadores, resulta, assim, das referidas revoluções tecnológicas que
estão na génese do advento da Internet, que, como é conhecido, potenciou, de forma
exponencial, as capacidades de comunicação através da World Wide Web (WWW), e que
está na origem de uma fusão cada vez maior entre o mundo físico e a realidade
virtual/digital (L. B. Martins & Wolfe, 2023).
Esta crescente fusão entre os espaços físico e digital (L. B. Martins & Wolfe, 2023), como
consequência dos já mencionados avanços tecnológicos registados na área das
comunicações e a nível dos sistemas de informação, que favorecem não só a integração
dos mercados à escala global, mas também a circulação de fluxos de capitais, de ideias,
de pessoas e de bens, diluindo, progressivamente, as fronteiras entre o real e o digital,
e criando novas geografias (Dodds, 2019), tem conduzido a uma maior preponderância
do mundo virtual, tanto do ponto de vista geopolítico como geoeconómico, na vida das
sociedades contemporâneas, designadamente, enquanto palco privilegiado de interação
e de disputa pelo poder por parte dos diferentes atores que nele operam (e.g. Estados,
organizações internacionais, organizações transnacionais, empresas, organizações
ligadas à criminalidade transnacional, organizações não governamentais, entre outros)
(Jøsang, 2024; Leonard, 2022; Schwab, 2017).
A título de exemplo desta crescente importância do ciberespaço nas sociedades
coetâneas, vejam-se os documentos estratégicos de ciberdefesa e cibersegurança
produzidos por diversos Estados (e.g. Portugal, Estados Unidos da América (EUA) e