OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
VOL. 17, Nº. 1
Maio 2026
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O LUGAR DO ANIMAL SYMBOLICUM NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
BRUNO J. M. BESSA
brunobessa10@gmail.com
Doutorando em Teoria Política, Relações Internacionais e Direitos Humanos, Universidade de
Évora e Universidade dos Açores (Portugal). Mestre em Relações Internacionais e Estudos
Europeus, Universidade de Évora. Membro colaborador do Centro de Investigação em Ciência
Política (CICP) https://orcid.org/0009-0004-1232-0738
Resumo
Aponta-se à reflexão sobre a relação entre o simbólico e as mudanças sociais, culturais e
políticas, colocando o homo symbolicus como figura de proa na compreensão nas dinâmicas
de poder e identidade nos dias de hoje. Explora-se o conceito de animal symbolicum como
abordagem para compreender o ser humano na sociedade contemporânea. Ao abordar as
noções de símbolo assim como de linguagem, este texto examina como estes elementos
moldam a identidade, a política e as relações sociais no contexto contemporâneo. Tendo como
ponto de partida as perspetivas teóricas de autores como Ernst Cassirer, procura-se contribuir
para um melhor entendimento sobre quais são as consequências do simbólico como elemento
central na construção do sujeito e nas dinâmicas políticas atuais, destacando a relação entre
o simbólico, o poder e a governança.
Palavras-chave
Perceção, Simbólico, Identidade, Contemporaneidade, Poder.
Abstract
It aims to reflect on the relationship between the symbolic and social, cultural and political
changes, placing homo symbolicus as a figurehead in the understanding of the dynamics of
power and identity today. The concept of animal symbolicum is explored as an approach to
understand the human being in contemporary society. By addressing the notions of symbol
as well as language, this text examines how these elements shape identity, politics, and social
relations in the contemporary context. Taking as a starting point the theoretical perspectives
of authors such as Ernst Cassirer, it seeks to contribute to a better understanding of what are
the consequences of the symbolic as a central element in the construction of the subject and
in current political dynamics, highlighting the relationship between the symbolic, power and
governance.
Keywords
Perception, Symbolic, Identity, Contemporaneity, Power.
Como citar este artigo
Bessa, Bruno J. M. (2026). O Lugar do Animal Symbolicum no Mundo Contemporâneo. Janus.net,
e-journal of international relations, VOL. 17, Nº. 1, Maio 2026, pp. 4-18.
https://doi.org/10.26619/1647-7251.17.1.1
Artigo submetido em 30 de março de 2025 e aceite em 1 de dezembro de 2025.
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O Lugar do Animal Symbolicum no Mundo Contemporâneo
Bruno J. M. Bessa
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O LUGAR DO ANIMAL SYMBOLICUM NO MUNDO
CONTEMPORÂNEO
BRUNO J. M. BESSA
Introdução
Uma premissa fundamental é a de que o ser humano é, na sua essência, um animal
simbólico. Pode-se verificar isto mesmo em tradições filosóficas e antropológicas, e é
esta premissa que permite sustentar que a capacidade humana de criar, de comunicar e
de interpretar símbolos não é apenas um atributo acessório, mas antes uma das
características estruturantes da nossa existência. O conceito de animal symbolicum diz
exatamente respeito a esta capacidade singular que distingue os seres humanos dos
restantes animais: a habilidade de infundir o mundo de significados e de significantes
que nos orientam, que recheiam as interações sociais e que nos permitem construir
identidades. Por outras palavras, o ser humano não se limita a viver a realidade, mas
permite-se a construí-la continuamente através de representações simbólicas. Se, no
passado, o ser humano se adaptava ao mundo, hoje, ele cria e reorganiza o mundo
através dos símbolos.
Cassirer (1944) define o ser humano como um animal symbolicum pois na sua perspetiva
a diferença mais básica em relação aos outros seres é a sua capacidade de produzir
signos e símbolos na relação com o mundo (p. 50). Nesta capacidade de criação e
pensamento simbólico está a base para o animal político ou o animal rationale visto que
se relacionam.
O conceito de animal symbolicum coloca a produção simbólica no centro da experiência
humana, que representa a capacidade única do ser humano de conferir significados, seja
através da linguagem, de imagens, da arte ou das instituições. Ernst Cassirer (1944) diz-
nos que a cultura se constrói basicamente através de símbolos. Os símbolos não são
apenas representações de qualquer coisa, eles detêm um poder simultaneamente
transformador e estruturante, detêm em si algo de transcendente. Na nossa sociedade
os símbolos que nos veiculam à realidade estão em constante mudança, tornando-se
relevante compreender como representações das várias realidades nos moldam a ação,
visão e, consequentemente, as relações de poder. O simbólico e a sua construção não se
constitui como algo apenas subjetivo como apêndice da vida social, trata-se efetivamente
como uma parte integrante da construção do real social como processo tanto individual
como coletivo.
Explora-se o conceito de homo symbolicus como perspetiva fulcral na leitura do papel
dos símbolos na própria constituição enquanto indivíduos e nas dinâmicas de poder e
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identidade na sociedade. À medida que as camadas sociais se transformam devido a
fenómenos tais como a globalização, a inovação tecnológica e a comunicação digital, a
importância do simbólico aumenta consideravelmente. Desta forma, os significados que
medeiam as relações (sociais, culturais e políticas) estão em constante mudança, sendo
permanentemente reinterpretados e negociados. Todos os campos do real social
encontram-se interligados com as transformações simbólicas, desde questões políticas,
questões relacionadas com a identidade individual e também coletiva, bem como as
próprias experiências sociais individuais. O estudo do homo symbolicus torna-se parte
fundamental neste quadro para uma melhor compreensão dos desafios que marcam o
século XXI, tanto no seio dos Estados como na arena internacional.
Cassirer (1929) afirma que os sujeitos não recebem e transformam os dados sensíveis,
mas os recebem já impregnados de significado.
por “pregnância simbólica” de entender-se o modo como uma vivência
perceptual, isto é, considerada como vivência “sensível” entranha ao mesmo
tempo um determinado “significado” não intuitivo que é representado
concreta e imediatamente por ela (p. 238).
A questão com a qual se lida a seguir centra-se, portanto, na forma como os símbolos
moldam as interações ou relações sociais e a política, quer no panorama interno dos
Estados, quer nas relações internacionais. O pilar está nas obras de autores como Ernst
Cassirer, famoso por conceber o ser humano como essencialmente simbólico e Clifford
Geertz, que proporcionou uma visão antropológica da cultura como sistema de
significados partilhados. O conceito de animal symbolicum de Ernst Cassirer deve ser
colocado em análise de acordo com a nova realidade social e política vigente no mundo,
em que os símbolos desempenha um papel ativo na sua construção e não se tratam
apenas de representações de uma realidade subjetiva.
Uma questão que é e será cada vez mais importante, é a relação entre simbolismo e
identidade. A identidade, amplamente vista como algo fixo e atribuído de forma
automática, pode ser hoje percecionada como algo fluido que é moldado constantemente
através de negociações permanentes de significados. Nesta aldeia global, as identidades
cruzam-se, sejam elas culturais, nacionais, de género ou de classe, levando a que os
indivíduos sejam forçados a reconstruir identidades devido aos símbolos difundidos,
partilhados e por eles próprios renegociados. Esta permanente reconstrução torna-se
dilatada pelo espaço público digital criado pelas redes sociais. Neste espaço a identidade
é afirmada e moldada por um ciclo de visibilidade versus invisibilidade simbólica. O homo
symbolicus contemporâneo é um sujeito ativo na emissão de significados altamente
suscetível aos símbolos que existem no universo digital.
Um aspeto é explorado neste artigo consiste na governança simbólica. Trata-se de um
conceito que se destina a descrever a forma sobre como o poder se exerce através de
uma consistente e intensa manipulação de representações culturais e simbólicas. O poder
não consiste apenas uso ou ameaça do uso da força coerciva ou da coação às normas,
mas, nos dias de hoje, da capacidade de influenciar a realidade, de construir e legitimar
as interpretações almejadas da realidade já que
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ideational rather than material forces shape the social world in the first instance; agents
and structures are mutually constitutive; internalisation and social learning legitimise and
reproduce social reality; and symbols and symbolic power are central to this (Theiler,
2005: p. 15).
Esta governança simbólica aponta ao controlo da perceção, através da internalização de
significados para garantir o consenso e o consentimento generalizado às estruturas de
poder criadas. O homo symbolicus é assim ator social imerso profundamente nas lógicas
simbólicas que estão por detrás do tecido organizacional da sociedade.
Para a compreensão da condição do homo symbolicus no seio das sociedades
contemporâneas, é essencial reconhecer que o mundo simbólico, apesar de estar longe
da realidade objetiva, é em si mesma a base sobre a qual se estruturam as relações,
sociais e políticas, ou entre indivíduos e destes com as instituições.
Ao longo das próximas linhas procura-se entender mais aprofundadamente como é que
as dinâmicas simbólicas se ligam a formas de poder e de identidade no mundo
contemporâneo.
Animal Symbolicum entre definições e fundamentos
O conceito de animal symbolicum apesar de o parecer não se reduz a uma abstração
filosófica. Trata-se, acima de tudo, de um conceito capaz de se colocar no centro da
discussão do ser humano enquanto elemento constituinte de sociedades e da sua relação
com o mundo. No decorrer da História, alguns paradigmas, quer de carácter filosófico,
quer de carácter antropológico, visaram destrinçar o ser humano dos restantes animais
pela sua habilidade de simultaneamente criar e de manipular símbolos. A ideia do ser
humano enquanto ser fundamentalmente simbólico pode ser originalmente vista em
Ernst Cassirer, que, no início do século XX, apresentou uma abordagem sui generis sobre
o tema. O autor considerou o símbolo como o fator decisivo na constituição da cultura e
do próprio ser considerando-o, mais do que racional um ser simbólico. Para Cassirer, o
ser humano não se limita a interagir com o meio que o rodeia de forma direta como ser
biológico, mas também a transformar a sua realidade através de sistemas simbólicos,
como a linguagem, a mitologia, a arte, etc. O autor argumenta assim que a cultura é
toda uma complexa rede de significados, cujos símbolos não se limitam a um papel de
representação, mas como instrumentos estruturais à própria experiência humana.
Ernst Cassirer: A essência do simbólico
O filósofo Ernst Cassirer estabeleceu um marco ao desenvolver o conceito de animal
symbolicum, representando o ser humano como ser simbólico por excelência. Na obra
Filosofia das Formas Simbólicas (1956), Cassirer explora o universo simbólico onde os
seres humanos vivem, por outras palavras, o ser humano filtra e reinterpreta o mundo
que o rodeia através de sistemas de significados. Desta forma, o ser humano não é mero
observador no mundo, vive uma realidade envolvida em símbolos e é um criador de
realidades através de significados. Linguagem, arte, ou religião são, de acordo com
Cassirer, expressões simbólicas que, moldam cada uma à sua maneira e todas em
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conjunto as experiências humanas. Para Cassirer (1956) o conhecimento do mundo
pelo ser humano dá-se através das formas simbólica.
por "forma simbólica" de entender-se aqui toda a energia do espírito em
cuja virtude um conteúdo espiritual de significado é vinculado a um signo
sensível concreto e lhe é atribuído interiormente. Neste sentido, a linguagem,
o mundo mítico-religioso e a arte se nos apresentam como outras tantas
formas simbólicas particulares (p. 163).
Cada forma simbólica oferece uma forma própria de compreender e modificar a realidade,
permitindo transcender a simples perceção sensorial. Desta forma, o símbolo não é mais
um simples elemento do mundo, mas um importante instrumento de construção da
realidade para o ser humano. A linguagem, uma das formas simbólicas, deixa de ser
meramente utilizada para descrever o mundo e torna-se ferramenta para construção,
uma vez que moldam o entendimento das sobre as coisas. Ao explorarmos ainda mais
as formas simbólicas, a arte e a religião, são formas simbólicas que entendem, exprimem
e transmitem aspetos da existência do ser humano aos quais não se conseguem ter
acesso pela razão ou pelos sentidos. Cassirer abandona uma posição algo exclusiva sobre
o ser humano como ser puramente racional e abraça o lado simbólico, colocando-o no
cerne da existência humana. O animal symbolicum alia ao ser racional uma aptidão
natural de criar e interpretar significados que o permitem estruturar uma determinada
visão que se estende a toda a realidade.
Clifford Geertz: A cultura e os significados
Ainda que Cassirer tenha sido fundamental no estudo do simbólico, o aprofundamento
de determinadas formas simbólicas continuou com outros autores. A conceção da cultura
como sistema simbólico foi desenvolvida por autores como Cliford Geertz. Este autor
propôs, na obra A Interpretação das Culturas (1973), uma perspetiva antropológica na
análise da cultura colocando os símbolos como no âmago desta. A cultura é um “sistema
de significados (Geertz, 2008: p. 4) partilhados, que norteia as práticas sociais e a
organização social. A cultura é desta forma vista como um processo de construção de
significados coletivos, que envolvem os indivíduos e através do qual é possível a
construção das suas identidades.
Como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (...) a cultura não é um poder, algo
ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os
comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual
eles podem ser descritos de forma inteligível isto é, descritos com densidade (Geertz,
2008: p. 10)
Deste modo a cultura não é apenas a soma dos comportamentos ou instituições, mas
transforma-se numa complexa rede de símbolos, capaz de moldar o comportamento
humano. Geertz (1973) faz uso da expressão teia de significados de modo a ilustrar como
os indivíduos vivem ligados uns aos outros e estes a um mundo simbólico que se traduz
na interpretação e reinterpretação de significados, à procura do significado(Geertz,
2008: p. 4). À cultura deixa de estar reservado o plano secundário no qual as ações do
indivíduo tomam forma, mas o meio pelo qual essas ões têm sentido. Esta postura em
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relação à cultura enfatiza a interpretação dos símbolos como um processo coletivo, com
repercussão nos grupos e nas sociedades, recusando o fenómeno como meramente
subjetivo ou sem repercussão na vida ativa dos indivíduos. Ao interpretar a cultura como
sistema simbólico, o autor demonstra o quão importante é a envolvência na produção e
partilha dos significados, o que nos diz que as identidades culturais são algo sempre
sujeito a reinterpretação e não fixo.
Linguagem: o campo de batalha do simbolismo
A relação entre identidade, linguagem e poder torna-se numa tríade que se pode designar
como fundamental ao analisar o ser humano enquanto ser simbólico. A linguagem
configura-se como campo de batalha do simbolismo ao invés de simples meio de
comunicação. A linguagem carrega significados que o além do que palavras e
expressões significam, a linguagem detém em si própria poder e controlo. Em Foucault
(2008) a linguagem é em si própria um dispositivo de poder, pois quem controla a
produção dos significados controla também a perceção e por sua vez a ação social.
o enunciado circula, serve, se esquiva, permite ou impede a realização de um desejo, é
dócil ou rebelde a interesses, entra na ordem das contestações e das lutas, torna-se
tema de apropriação ou de rivalidade (Foucault, 2008: p. 124)
Nesta senda de percebemos que os discursos, várias vezes contraditórios, multiplicam-
se constantemente, essencialmente na esfera publica digital e mediática, o simbolismo
na linguagem é uma das armas mais importantes na construção da realidade e na
legitimação das estruturas existentes de poder. Por mais que o quiséssemos a linguagem
não é neutra. Drulak (2006) refere que nas Ciências Sociais “... language is seen not only
as a simple mirror of social reality but as a médium of its own, wich contributes to the
very constitution of the social reality (p. 3). A linguagem detém em si mesma a
capacidade de disputa e de negociação de relações de poder. Na política a influência dos
símbolos, através de slogans, imagens ou discursos, tem esse intuito de legitimação de
poder, de autoridade. O ser humano é assim ativo nesta construção simbólica através da
linguagem até mesmo em contexto de disputa ideológica.
O papel na construção identitária
Nos dias de hoje a identidade é na sua essência simbólica. Os significados intersubjetivos
têm atributos estruturais que não apenas limitam ou capacitam atores. Eles definem
também sua realidade social(Adler, 1999: p. 211) levando a que a própria identidade
se torne algo dinâmico, discutível, de negociação de significados.
A identidade, como o animal symbolicum demonstra, não deve entendida apenas como
de caracter biológico ou psicológico, trata-se antes de uma construção simbólica, que é
continuamente reconfigurada através de uma intrincada teia de símbolos, símbolos esses
de múltiplas esferas culturais, sociais e políticas. À data, este conceito de identidade
tornou-se altamente difuso. Os sujeitos são hoje obrigados a definirem e a redefinirem
constantemente quem são, recorrendo a símbolos culturais que circulam na sociedade,
seja no plano físico ou digital.
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O processo de construção de identidades pode ser mais facilmente constatado no mundo
do consumismo, nas redes sociais ou nos processos de tentativa de mobilização política.
Num mundo globalizado, as identidades existentes não estão ancoradas a territórios ou
regiões, o sim amplamente construídas via símbolos que se constroem e circulam a
nível global. A internet revolucionou as formas de relacionamento dos sujeitos com os
símbolos, assim como a própria criação simbólica.
A Política e a importância do Simbólico
Este conceito de animal symbolicum transcende o ser humano, elevando-o da sua
condição natural. As suas determinações, decisões ou ações, são estruturadas por
símbolos que invariavelmente agem no subconsciente, e a política insere-se nesta lógica.
A política reflete a dimensão simbólica dos sujeitos. A sociedade do espetáculo, como
nos transmite Guy Debord (1997), demonstra a importância que imagens e símbolos
adquiriram na legitimidade política. Esta, transformou-se em pouco mais, do que num
combate constante pela dominação sobre as representações sobre as narrativas na
esfera pública. É uma disputa simbólica, onde os significados e a quantidade de indivíduos
aos que se chega e imprime as imagens pretendidas é mais importante do que qualquer
política especifica.
Os grandes conflitos políticos continuam a fazer-se em momentos de resistência e de
mutação social. Nestes contextos denota-se o animal symbolicum na forma como os
indivíduos e os grupos de indivíduos mobilizam símbolos em prol da sua luta. Estes
movimentos mobilizam símbolos, onde as imagens e os slogans são cruciais na
propaganda, tornando-se verdadeiros dínamos na mobilização e recrutamento dos
sujeitos contra as estruturas existentes.
O papel do simbólico na política no presente
É no campo da política onde encontramos com grande papel principal o simbólico. Isto
porque se no passado a ideologia política se ligava acima de tudo a uma corrente de
pensamento ou a teorias económicas, na contemporaneidade a disputa pelo poder faz-
se no campo do simbólico. Como nos diz Bourdieu (1998) o poder simbólico é “poder de
constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de
transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o
mundo...” (p. 14). O poder, nos dias de hoje, não está marcadamente ligado à
propriedade material ou à coerção, hoje as formas de poder encontram-se na
manutenção das narrativas e no controlo sobre os símbolos que modelam a perceção da
sociedade.
Temos então hoje um poder que se exerce através da influência e controlo dos símbolos
que estruturam a vida em sociedade. Trata-se de agir de modo a que haja uma aceitação
por parte dos indivíduos evitando o confronto direto. O poder político exerce-se não
através da imposição de normas ou de ideias, exerce-se sim através do poder simbólico,
na influência ou, se se preferir, do moldar das perceções dos indivíduos de forma a que
aceitem de livre vontade o que se pretende.
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A luta pelo poder tornou-se hoje, a luta pelo domínio da verdade, ou da disputa pela
construção das narrativas, tal como Bourdieu (1998) nos expõe existe “uma luta
propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos
seus interesses...” (p. 11).
O nosso mundo é hoje um local saturado de símbolos. As campanhas políticas, por
exemplo, são autênticas disputas pelo controlo e manutenção do simbólico, senão
vejamos, as campanhas eleitorais ou as manifestações políticas são fortemente
associadas a representações visuais ou verbais, as partes entram em confronto, não para
um debate de razões pelas melhores ideias políticas, mas sim pelo controlo das
representações na esfera mediática, já que permitirá a dominação do espaço público, ou
seja, a dominação também se dá no plano simbólico, o simbólico revisitado aqui na força
oculta da linguagem, da fala e do poder de quem tem a fala” (Setton, Rego & Pereira,
2023: p. 13).
Ao simbólico é-lhe atribuído um papel crucial na esfera política. Não o devemos confundir
somente como comunicação ou até como elemento de persuasão, mas antes como
elemento estruturante do poder. O poder político é exercido através deste controlo de
símbolos que por sua vez afetam a receção das mensagens, alterando a perceção do
público em geral e moldando as relações entre indivíduos. A revolução da comunicação
através da elevação das novas tecnologias digitais da informação e comunicação
agregaram ainda mais valor à política do espetáculo, transformando como campo de
disputa as próprias redes sociais, onde se disputa legitimidade e autoridade.
Manipulação dos significados discursos e poder
Através da visibilidade almejada ou da criação de determinadas imagens, o poder
simbólico procura algo concreto, a manipulação dos significados e a construção e
manutenção de narrativas. Landtsheer, De Vries & Vertessen (2008) sublinham o papel
que as metáforas exercem no discurso político, nomeando-as como “indispensable
devices for politicians who want to convey persuasive messages” (p. 224). Bourdieu
(1996; 1999) fala-nos no poder simbólico da linguagem e demonstra o facto de que a
linguagem é um instrumento simbólico eficaz na construção da realidade.
Nos dias de hoje, o controlo ou a manipulação do simbólico envolve mais do que apenas
as elites tradicionais, tais como agentes como os meios de comunicação ou grandes
corporações empresariais. Algo que é visto como verdadeiro ou justo pode, na realidade,
ser o resultado de um longo processo simbólico, de uma operação de moldagem de
construção e de perceção. O poder, entendido nestas linhas, não é coercivo, nem
normativo, mas sem vida o poder é simbólico. Quem domina os símbolos domina a
realidade, influenciando os indivíduos e a normas. A legitimidade das forças políticas
passa pela aceitação das narrativas construídas e amplamente disseminadas através de
símbolos. O sucesso da construção destas narrativas de justificação de ações ou inações
junto dos indivíduos está dependente da dominação simbólica. Este poder exerce-se
sobretudo em termos simbólicos, na comunicação com os indivíduos, onde as imagens e
os discursos se impõem como cruciais no estabelecer de uma realidade desejável pelos
proponentes do poder, num período da pós-verdade, onde, na exteriorização das ideias
políticas a honestidade não está entre as prioridades (D’Ancona, 2017: p. 17).
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A construção da identidade
A identidade é desta forma também construída pelos indivíduos e disputada pelos
intervenientes políticos. Este tipo de identidade é construído através de uma continua
exposição simbólica, onde se pretende que os indivíduos se envolvam, se associem aos
símbolos, às imagens e às narrativas, que os irão definir perante os outros indivíduos e
à sociedade. O conceito de hegemonia, proposto por Antonio Gramsci (1955), trata de
construir, por parte das elites dominantes, uma visão do mundo para todos, que fará
com que os indivíduos aceitem como natural, permitindo uma consolidação da autoridade
pelos poderosos.
Esta ação visa precisamente operar no reino simbólico onde as ideias e os valores são
internalizados. Nos dias de hoje questões raciais, de classe, de género ou de identidade
são orientadas por uma panóplia de ações que visam moldar, influenciar, manipular as
perceções individuais e dos grupos. Existe toda uma disputa em ação nos meios onde
se veiculam as mensagens, algumas mais subtis do que outras, pelo controlo pela
interpretação da realidade.
Elemento central de governança: O Poder Simbólico
Podemos perceber o poder crescente dos símbolos na organização social, nas relações
de poder e na formação de identidade. A centralidade do poder simbólico é inseparável
da política contemporânea, contaminada pelo espetáculo e construções simbólicas, onde
a comunicação e as plataformas digitais transformam a forma como o poder se obtém e
mantém. Bourdieu diz-nos que o poder simbólico é "um poder de construção da
realidade" (Bourdieu, 1989: p. 9)
O animal symbolicum está envolvido diretamente neste processo simbólico, estando na
centralidade do campo das disputas simbólicas que permeiam todos os aspetos da
realidade e onde não se alheia de ser simultaneamente agente ativo na construção de
significados.
A identidade no nosso mundo
A identidade é uma construção simbólica. A imersão em conteúdos simbólicos, nos dias
de hoje, é incessante devido à constante ligação da globalização e digitalização, o que
orienta os indivíduos, inconsciente ou conscientemente, nas suas escolhas e
comportamentos, como nos mostram, aliás, conceitos como o de Zygmunt Bauman
(2001) com a modernidade líquida.
Os fluidos se movem facilmente. (…) contornam certos obstáculos, dissolvem outros e
invadem ou inundam seu caminho. (…) A extraordinária mobilidade dos fluidos é o que
os associa à ideia de “leveza” (p. 07).
A construção identitária é dinâmica. Ela é alimentada simbolicamente através do
consumo de elementos simbólicos veiculados pelas interações sociais e internalizados
através dos mass media e das redes sociais. Estes elementos demonstram como o ser
humano se rodeia de símbolos e os utiliza para marcar e definir o seu lugar no mundo.
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Esta fluidez é melhor observável nas questões relacionadas com temas específico, como
com o género, etnia ou nacionalidade, onde os símbolos tratam de desenhar os
sentimentos de pertença/exclusão. As redes sociais, como espaço predileto no espaço
digital de mobilização simbólica, desempenham um papel mencionado de reivindicação
e de conflitualidade. Por um lado, indivíduos ou grupos procuram cimentar a sua posição
em determinada senda, por outro travam-se confrontos por legitimidade e
reconhecimento.
A identidade é uma construção simbólica, moldada por interações sociais e culturais, mas
também, e cada vez mais, tecnológicos.
A construção do eu não está dependente, apenas, de experiências particulares ou de
qualquer introspeção privada. Acima de tudo, hoje, está particularmente ligada à
exposição a símbolos coletivos que direcionam os indivíduos nas sociedades, tal como
Taylor (2011) nos diz “o meu descobrir a minha identidade não que dizer que a trabalho
em reclusão, mas que a negócio através do diálogo, parcialmente exposto, parcialmente
internalizado, com outros (p. 55). A identidade é então um elemento fluído, moldável,
suscetível de mudança. Deixa de ser um reflexo do indivíduo, mas antes um reflexo das
como algo interações do indivíduo com os outros e com as estruturas simbólicas que os
rodeiam.
A comunicação e produção cultural de hoje, proporciona um ambiente de intensa
construção simbólica.
A fluidez identitária
O conceito de fluidez, nos moldes propostos por Bauman, é essencial numa compreensão
mais completa da identidade na contemporaneidade. Nesta modernidade líquida, as
estruturas aparentemente sólidas de identificação, tais como o Estado-nação, a classe
social, a religião ou a família, dissolvem-se, surgindo em contrapartida uma variedade
de novas formas de pertença e de identificação, que por sua vez, podem ser substituídas
ou reformuladas. Esta fluidez identitária demonstra a efeméride das relações e a
transitoriedade cultural, onde os limites identitários se revelam porosos.
Uma vida dedicada à procura da identidade é cheia de som e de ria. Identidade significa
aparecer: ser diferente, por essa diferença, singular e assim a procura da identidade
não pode deixar de dividir e separar. E, no entanto, a vulnerabilidade das identidades
individuais e a precariedade da solitária construção da identidade levam os construtores
da identidade a procurar cabides que possam, em conjunto, pendurar seus medos e
ansiedades individualmente experimentados e, depois disso, realizar os ritos de
exorcismo em companhia de outros indivíduos também assustados e ansiosos. É
discutível se essas “comunidades-cabide” oferecem o que se espera que ofereçam um
seguro coletivo contra incertezas individualmente enfrentadas; mas sem vida marchar
ombro a ombro ao longo de uma ou duas ruas, montar barricadas na companhia de
outros ou roçar os cotovelos em trincheiras lotadas, isso pode fornecer um momento de
alívio da solidão (Bauman, 2003: p. 21).
A identidade é moldada pelo consumo, pelas imagens mediáticas e pela constante
interação, quer com outros que partilham semelhantes fluxos simbólicos, quer com
outros que aparentemente numa categoria contraria permite a negociação identitária,
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cujas trocas vão reconfigurar os fluxos simbólicos. toda uma lógica de mercado em
torno das trocas simbólicas de narrativas e símbolos cujas mensagens podem modelar
comportamentos e crenças. Bauman (2005) diz-nos que neste nosso mundo fluido … as
identidades são para usar e exibir, para armazenar e manter(p. 96). O homo symbolicus
experimenta desta forma uma construção identitária flexível e adaptável, como resposta
às novas formas de comunicação e construção simbólica na esfera pública.
O consumo do simbólico
A cultura do consumo é, de acordo com Arnould & Thompson (2005) um arranjo social
em que as relações entre a cultura vivida e os recursos sociais, e entre as formas
significativas de vida e os recursos simbólicos e materiais dos quais elas dependem o
mediadas pelos mercados (p. 869) e a própria construção identitária está, como vimos
até agora, intrinsecamente relacionada com um consumo do simbólico. Somos
consumidores de símbolos. Este consumo não é um qualquer processo passivo, é um
processo ativo, de escolha de símbolos com os quais os indivíduos se identificam e com
os quais existe uma reconstituição criando nesta interação nos sentidos para os símbolos
a partir de cada indivíduo ou grupo de indivíduos.
Baudrillard (1995) diz-nos que o consumo de objetos não se dá pela sua função, mas
antes pelo que significa adquirir esse mesmo objeto, o próprio consumo torna-se desta
forma simbólico, relacionando-se com a afirmação do indivíduo ou com a procura pelo
reconhecimento.
A pegada digital do animal symbolicum
A formação da identidade do animal symbolicum -se essencialmente nas plataformas
digitais e em grande parte através destas. A identidade já não se constitui a um nível
meramente intrínseco ou no seio de um determinado grupo, mas ao nível de transmissão
contínua de símbolos e da sua negociação constante de significados e representações
que circulam nessas redes. As redes sociais, tornaram-se palco desta nova forma de
identidade política criada através destas negociações simbólicas lembrando que o
processo histórico de individualização pressupõe um desenvolvimento gradual das
relações de tuo reconhecimento em formas cada vez mais complexas de interacção
(Lóia, 2009: p. 201).
Esta construção identitária é amplamente influenciada pala procura de uma voz própria,
ou do reconhecimento. A necessidade de ser reconhecido e ouvido orienta a forma como
se pretende projetar uma imagem e uma mensagem na esfera digital moldando a posição
política. As métricas simbólicas deste posicionamento m em conta as quantidades de
interações nas redes sociais como os likes, os seguidores ou os reposts, simbolizando o
grau de aceitação social daquele movimento em específico ou daquele indivíduo.
A procura do reconhecimento
A identidade relaciona-se com o conceito de política do reconhecimento, um tema
debatido por autores como, por exemplo Charles Taylor (2011), que nos diz que
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A importância do reconhecimento é agora universalmente reconhecida de uma forma ou
de outra; em um plano pessoal, estamos todos cientes de como a identidade pode ser
formada ou malformada em nosso contato com outros significantes (p. 57).
A política do reconhecimento trata da luta por reconhecimento e validação por parte dos
indivíduos e grupos na sociedade. Esse reconhecimento pode ser social ou simbólico e, à
data, a luta por reconhecimento e validação é central na construção das identidades
políticas.
As redes sociais são um meio privilegiado de disputa deste reconhecimento sociopolítico.
Grupos minoritários, como grupos indígenas, raciais, ou como comunidades LGBTQIA+,
usam as redes sociais desta forma, como meio para afirmação das suas identidades.
Simultaneamente, este mesmo meio funciona como palco por outros grupos para disputa
e contestação, contribuindo para a reconfiguração de identidades.
Estes processos de reconhecimento são basilares na construção duma identidade coletiva
e para uma declaração de direitos numa comunidade democrática. Vista desta forma, a
identidade, não é apenas uma construção individual per se, trata-se duma negociação
coletiva de significados que implica questões de poder e sentimentos de pertença, tal
como Lóia (2009) explica seria extremamente difícil manter um horizonte de significado
pelo qual nos identificamos se não fossemos reconhecidos por aquilo que somos(p.
203).
O papel da globalização
A globalização tornou ainda mais complexa a construção identitária por todo o mundo. O
intenso fluxo de informação, a multiplicação de imagens e a partilha entre culturas
tornam as identidades muito pluridimensionais. O animal symbolicum contemporâneo é
por isso um ser que navega por dentro dos diferentes espaços culturais e simbólicos,
permanentemente consumindo e reinterpretando símbolos de diversas origens
geográficas e sociais.
A perceção e a influência o a chave. Tudo é permanentemente reinterpretado e
recontextualizado pelos indivíduos e de acordo com o grau de influência do remetente da
mensagem. Os indivíduos, mediados pela sua perceção maleável, criam uma identidade
que não está exclusivamente associada a um espaço geográfico ou cultural, mas sim a
uma rede universal de significados, tratando-se de uma construção plural e também
conflituosa o que denota a complexidade do mundo atualmente.
A reter
A formação da identidade é um processo simbólico. A identidade é uma construção
dinâmica, moldada pelas interações sociais, pelas imagens veiculadas pelos media e pelo
reconhecimento. A fluidez das identidades, a centralidade do simbólico e do consumo do
simbólico, assim como o impacto das redes sociais atualmente, redefinem a forma como
entendemos os indivíduos na atualidade e o seu lugar no mundo.
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Conclusão
O conceito de animal symbolicum oferece uma forma para a compreensão do papel dos
símbolos no quotidiano, seja na formação do indivíduo, seja na dinâmica da política no
contexto contemporâneo. A aptidão natural que o ser humano tem ao nível de criação e
interpretação de símbolos e da internalização de significados contribui significativamente
para a organização social assim como de forma preponderante na construção da base
identitária individual e coletiva. Os símbolos o mais do que meras representações da
realidade, eles atuam diretamente no exercício do poder e na fixação das estruturas de
autoridade ao longo do tempo. Nestas linhas explora-se o simbólico no panorama
contemporâneo em diferentes frentes.
Primeiro, observa-se que a própria condição humana não pode ser separada de sua
habilidade de criação simbólica. Ao criar um universo de significados, o animal
symbolicum não molda a sua própria existência, mas também organiza as suas
comunidades, lançando os alicerces para a formação da cultura e das instituições.
Cassirer e Geertz oferecem instrumentos valiosos para entender como as sociedades se
estruturam através de sistemas simbólicos e a importância da interpretação desses
sistemas na formação das relações na sociedade. Portanto, a importância do simbólico
ultrapassa a mera questão epistemológica e coloca-se como parte integrante da vida.
No âmbito político, observa-se uma significativa mudança nas formas de governança e
nas relações de poder ao analisar-se o poder simbólico. Segundo Bourdieu, Debord, ou
Foucoult o poder não é apenas uma questão de força física ou coação, mas sim uma
disputa pelas narrativas que direcionam a ação da comunidade. A política do espetáculo,
impulsionada pelos meios digitais, meios de comunicação ou redes sociais, transforma-
se numa arena simbólica, onde imagens, memes ou slogans possuem capacidade para
mobilizar as massas, criar legitimidade e redefinir relações de poder. Dessa forma,
controlar o simbólico é a ferramenta de governança vital no panorama político atual,
internalizando normas e determinadas categorias, quer ao nível dos Estados, quer ao
nível das relações internacionais.
No que diz respeito à identidade, constata-se que se trata de uma construção dinâmica
e fluida. Como nota Bauman, a fluidez identitária é um traço característico do indivíduo
contemporâneo, que está em permanente redefinição no seu lugar no mundo através
dos símbolos a que es sujeito e dos significados que cria através da sua própria
perceção. A globalização e a revolução nos meios digitais expandiram as áreas de atuação
onde estas trocas simbólicas ocorrem, dilatando os momentos de formação de
identidade, e por outro lado intensificando os conflitos relacionados ao reconhecimento,
à pertença ou à exclusão. A identidade o é um fenómeno individual, é sim coletivo,
influenciado por processos culturais e sociais, através de imagens e narrativas. A política
de reconhecimento, debatida por Taylor ou Lóia, manifesta-se atualmente nas interações
digitais, tornou-se num local onde grupos marginalizados procuram visibilidade e
legitimidade, empregando os mesmos mecanismos simbólicos que frequentemente os
marginalizavam.
Em suma, demonstra-se que o simbólico, continua a ser a força motriz por detrás das
transformações sociais, culturais e políticas. Através duma reflexão crítica sobre estas
dinâmicas, é possível compreender melhor como o simbólico estrutura a vida social e
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construção de sentido e de pertença na contemporaneidade.
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