recíprocas, forçando Pequim a atuar conforme interesses mútuos com a Europa
nomeadamente a modelação do comportamento da Rússia, procurando estabilizar as
suas políticas externas, que embora para o autor não representem uma ameaça militar
direta para a Europa são persistentemente subversivas à esfera de influência da UE nos
países previamente soviéticos, procurando alcançar o enfraquecimento da coesão e
determinação Europeias.
No Capítulo 4 (“Europe and its neighbours”), Biscop sustenta que a UE deve abandonar
políticas gerais e separar claramente a vizinhança oriental e meridional. A Leste (Ucrânia,
Moldávia, Bielorrúsia, Geórgia, excetuando Arménia e Azerbaijão), a periferia é
“europeia”: há maior proximidade ao modelo europeu e esta condicionalidade tem melhor
probabilidade de produzir convergência, sobretudo quando existe (ou existiu) perspetiva
de adesão. Ainda assim, o autor recomenda avançar com prudência (“festina lente”) e
enquadra o espaço intermédio entre UE e Rússia como “Zwischeneuropa” (p.81), onde a
prioridade deve ser salvaguardar a soberania dos parceiros (capacidade de escolha sem
coerção, tanto Europeia como Russa), sem aceitar a pretensão russa de exclusividade.
No Sul, o diagnóstico é mais cético. Biscop argumenta que a condicionalidade europeia
é frequentemente percepcionada como continuidade de colonialismo/imperialismo, o que
reduz legitimidade e tração política. Neste contexto, critica o recurso crescente à
“resiliência” como princípio orientador: por ser defensivo e pouco preciso, pode deslizar
para uma lógica de “Estado-tampão” (buffer state) e deixa ambígua a pergunta
“resiliência de quem” (sociedade, Estado ou regime), arriscando que “estabilização”
signifique, na prática, reforço de aparelhos coercitivos potencialmente usados contra o
próprio governo (p.84).
No Capítulo 5 (“Europe, military power, and NATO”), Biscop defende uma doutrina de
intervenção mínima: usar força fora do território europeu apenas quando indispensável
e quando outros instrumentos não bastem, orientada por três prioridades (bens comuns
globais, prevenção de spillover e defesa da soberania de parceiros).
Intervenção mínima não é sinónimo de indiferença, implica diplomacia e coerção
económica e uma leitura não automática da Responsability to Protect (R2P). Em termos
de capacidades, o problema europeu está menos no efetivo e mais nos strategic enablers
(projeção, Intelligence, Surveillance, reabastecimento, comunicações). Na relação UE-
NATO, o autor destaca a dependência de enablers norte-americanos como fator limitativo
à autonomia europeia.
Para o Capítulo 6 (“European Defence and maybe even a European army”), a hipótese
de um “exército europeu” serve para expor o problema central: a fragmentação das
forças nacionais produz duplicações e reduz capacidade operacional. Biscop critica o
benchmark dos 2% do PIB se não houver orientação para lacunas prioritárias e contributo
efetivo para operações conjuntas. Defende igualmente a integração (não apenas
interoperabilidade), começando por enablers e por um planeamento comum “como se”
existisse uma força única. O European Defense Fund (EDF) é apontado como incentivo
para projetos multinacionais e para orientar esforços nacionais, mas o autor reconhece
potenciais entraves político-industriais (nomeadamente o protecionismo comercial de
cada país) e o risco de se criarem mais rótulos burocráticos sem integração efetiva.