OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
VOL. 16, N.º 2
novembro 2025abril 2026
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NOTAS E REFLEXÕES
“ORGULHOSAMENTE ACOMPANHADOS”: OLHAR PARA A AMÉRICA
LATINA COMO MÁRIO SOARES
ANDREA IMAGINÁRIO BINGRE
andreaimaginario@gmail.com
Frequenta o doutoramento em História na Universidade Autónoma de Lisboa. É licenciada em
Artes e Magister Scientiarum em Literatura comparada pela Universidade Central da
Venezuela, onde é professora associada (Venezuela). Nesta instituição exerceu também os
cargos de Coordenadora Académica e Coordenadora de Serviço Comunitário, e membro de
diversas comissões académicas. Investiga em História Cultural e nos Estudos Culturais.
Realiza atividade de extensão no âmbito musical, a través álbuns e eventos musicais que
exploram a interculturalidade luso-venezuelana e o vínculo entre música e poesia
portuguesas, motivo pelo qual a Associação de Luso-descendentes da Venezuela conferiu-lhe
a Medalha de Honra na divulgação da cultura portuguesa na Venezuela.
DÉBORA DUARTE
dsfduarte@gmail.com
Licenciada em Direito pela Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Direito Internacional Público
e Europeu pela Universidade Católica do Porto. Foi oficial do Exército Português, onde
desempenhou funções como jurista, entre 2018 e 2023 (Portugal). Colaborou na implementação
de programas de formação profissional sobre temas de cooperação civil-militar, segurança e
acesso humanitário em diferentes organizações internacionais e não governamentais. Encontra-
se a frequentar o curso de mestrado em Relações Internacionais - Paz, Segurança e
Desenvolvimento da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
O Teatro Thalia, em Lisboa, recebeu, no dia 8 de abril de 2025, o Colóquio Mário Soares
e a América Latina: Passado, Presente, Futuro, inserido nas comemorações do centenário
deste político português. Por ter sido Presidente da República e Primeiro-Ministro de
Portugal, é natural o interesse em destacar o seu pensamento no país cuja democracia
ajudou a construir. Mas porquê voltar os olhos sobre a relação de Mário Soares com a
região latino-americana?
uma questão que obriga a refletir sobre o assunto: cresce perigosamente o
autoritarismo na América Latina, como cresce também no mundo. Considerando os elos
históricos, culturais e políticos daquela região com a Península Ibérica, convém revisitar
o papel que Mário Soares cumpriu em defesa da social-democracia latino-americana,
tomando como ponto de partida os debates gerados no calor do Colóquio.
O despertar da relação de Mário Soares com América Latina
Na Guerra Fria, que começou após a Segunda Guerra Mundial, o confronto entre
capitalismo e comunismo atingiu um alto grau de tensão. As ditaduras de direita,
herdadas da primeira metade do século XX, reforçaram as suas posições no mundo
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ocidental, em aparentes “contenções” anticomunistas: são os casos do Estado Novo, em
Portugal, desde 1933, e do franquismo, em Espanha, desde 1939.
Na América Latina, as ditaduras também alimentavam esse imaginário para se sustentar
no poder. O historiador Camero afirma que o medo ao comunismo potenciou a coligação
militarista de sectores sociais conservadores com sectores das Forças Armadas,
colocando entraves ao caminho da democracia até à década de 1980 (Camero, 2019, p.
39). Algumas dessas ditaduras ultrapassaram quarenta anos de vigência, outras
subsistiram por muito menos tempo. Mas, perto do final da década de 1970, todas elas
coincidiram na linha temporal: Nicarágua, Paraguai, Guatemala, Brasil, Haiti, Chile, El
Salvador, Perú, Uruguai, Honduras, Argentina e Bolívia. Não havia autoritarismo de
direita: a Revolução cubana, alinhada com a antiga URSS, também perturbava a
democratização desde 1959. E, na Nicarágua, os opositores sandinistas davam sinais de
paulatina radicalização à ultraesquerda.
Na década de 1970, as democracias fortes da região seriam apenas as da Costa Rica
(desde 1949), Colômbia e Venezuela (desde 1958), e México embora a sua
democracia, estabelecida em 1929, fosse questionada pela hegemonia do Partido
Revolucionário Institucional (PRI).
Neste enquadramento, são três os momentos e os perfis, por vezes paralelos e
complementares, desde os quais Mário Soares construiu uma relação com América
Latina:
1) como líder socialista português e opositor ao Estado Novo;
2) como parte da chefia da Internacional Socialista (IS), na promoção da social-
democracia;
3) como representante de Portugal em prol de relações de mútua conveniência.
Como líder socialista e opositor ao Estado Novo
Soares fez várias viagens à região, durante o seu exílio, nos tempos do Estado Novo. No
primeiro painel do Colóquio, intitulado Mário Soares e América Latina, Isabel Soares
aludiu a uma primeira viagem, em 1970, ao Brasil, Venezuela, Porto Rico, México e aos
Estados Unidos da América.
Segundo o investigador Joaquim Vieira, Soares nunca esclareceu a função política
daquele percurso, ainda que lhe tenha sido útil para entrar em contacto com
simpatizantes dos socialistas portugueses e dos republicanos espanhóis, exilados na
Venezuela, e com portugueses em Nova Iorque, agregados ao movimento Acção
Socialista Portuguesa (ASP) partido antecessor do PS, fundado no exílio, em 1964 por
Soares, Francisco Ramos da Costa e Manuel Tito de Morais (Vieira, 2022, p. 277).
Mas existiu uma viagem anterior àquela. Vieira regista que, em 1964, Soares fez uma
visita incógnita a Havana, em companhia de José Fernandes Fafe. O convite do governo
cubano foi facilitado, em 1963, pelo encarregado de negócios em Portugal, Raúl Amado-
Blanco, tendo sido garantido o anonimato e o secretismo da deslocação (Vieira, 2022, p.
181). Após esta e outras visitas a países comunistas, Soares rejeitou esse sistema e
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entendeu, como nos lembrou tor Ramalho no Colóquio, que a oposição entre
comunismo e socialismo converter-se-ia numa oposição entre ditadura e democracia.
Embora estas viagens não contemplassem no seu horizonte a missão de influir na
América Latina, nem sequer formassem parte de um programa da ASP, tal como afirma
Vieira, nelas começaram a tecer-se as redes de apoio na luta em prol da social-
democracia em Portugal e na América Latina.
Como parte da chefia da Internacional Socialista (IS)
Segundo Valeska Hesse, a social-democracia apresentava-se, no quadro da Guerra Fria,
como alternativa ao capitalismo americano e ao comunismo soviético (2022). O problema
era que a influência da IS estava restrita à Europa. Com base no pensamento de Bernd
Rother, Hesse assinala que Willy Brandt, do Partido Social Democrata da Alemanha
(SPD), teve a visão de incorporar a América Latina na social-democracia e integrar os
partidos afins na IS. Existia mais do que uma razão:
similitude das estruturas partidárias;
urgência dos conflitos na região, especialmente na América Central;
necessidade de “independência” da região relativamente aos EUA, mas sem conflito;
descrédito dos EUA, após a guerra do Vietname e a crise do petróleo de 1973;
descrédito da Rússia e da China, pela sua “benevolência” com as ditaduras militares
(Hesse, 2022).
Nessa altura, Mário Soares começava, por vários motivos, a dar sinais de ser uma
figura idónea para concretizar a aproximação desejada por Brandt. Já tinha uma rede de
contatos desde 1970. Em 1972, a ASP entrou na IS. Soares foi convidado por Brandt a
formar parte do conselho da revista latino-americana Nueva Sociedad, fundada em 1972.
Finalmente, em 1976, o político português foi eleito para o seu primeiro mandato como
Primeiro-Ministro. Segundo afirmou Rother no Colóquio, isto garantia-lhe um peso
institucional favorável para chefiar a missão da IS, numa altura em que Espanha ainda
não consolidara a sua social-democracia.
Assim, Soares foi múltiplas vezes à América Latina naqueles anos enquanto vice-
presidente da IS, cargo que desempenhou desde 1976. Podemos referir dois exemplos
paradigmáticos: primeiro, a sua visita à Venezuela, com ocasião da Conferência da IS
em Caracas em 1976. A conferência foi presidida por Rómulo Betancourt, representante
do partido venezuelano Acción Democrática (AD), no contexto do governo de Carlos
Andrés Pérez. Esta conferência favoreceu a adesão de muitos partidos latino-americanos
no horizonte democratizador da IS e, para Betancourt, deu visibilidade a Mário Soares,
a Felipe González e a Pérez como líderes internacionais na defesa da social-democracia
(Straka, setembro de 2022). O segundo exemplo é a participação de Mário Soares como
representante da IS nas eleições da República Dominicana, em 1978, quando exercia
também o cargo de Primeiro-Ministro de Portugal. Nessas eleições triunfou o candidato
opositor Antonio Guzmán, apesar dos intentos de Balaguer por se manter no poder.
A presença de Soares teve uma grande influência nos acontecimentos.
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Como representante de Portugal
Quer como Primeiro-Ministro, quer como Presidente da República, Mário Soares
organizou ou respondeu a convites oficiais para se reunir com os mandatários latino-
americanos, e subscreveu diferentes acordos e programas, em matérias muito diversas,
mas com orientação democrática. Como Presidente da República influenciou
determinantemente a participação portuguesa nas cimeiras ibero-americanas, iniciadas
em 1991 (Vieira, 2022; Gomes, 2014). No Colóquio, Nancy Gomes apresentou Soares e
Felipe González como defensores da identidade linguística lusófona e hispânica, e da
cultura ibero-americana como espaço comum para a cooperação (Gomes, 2014).
Portugal e as Cimeiras Ibero-Americanas
Num discurso pronunciado na Cimeira Socialista de 1976 (Soares, 1976), celebrada na
Póvoa do Varzim, Mário Soares afirmou que é «por vias diferentes e face a condições
nacionais muito diversas» que os objectivos comuns da liberdade, fraternidade e da paz
podem ser alcançados. No entanto, reiterou a sua convicção de que Portugal é um «país
no cruzamento de todos os povos do Mundo».
Portugal buscava, por esta altura, um novo modo de entender a sua identidade. Era
urgente ganhar consciência dos perigos da política externa isolacionista e exclusivamente
atlântica do Estado Novo, «sendo necessário também uma integração europeia»
(Sebastião, 2010, p. 105). Soares rejeitou, contudo, um corte com a tradição atlântica,
propondo uma terceira via, de “nação euro-atlântica”, de ponte entre o Velho Continente
e o Novo Mundo.
Sonho aparentemente simples, não consegue impor-se sem mais aos traumas históricos
do povo e à relação atribulada com os vizinhos espanhóis. Encravado entre o mar e
Espanha, Portugal divide-se no fascínio pelas virtudes de D. Quixote e na mágoa pela
tirania dos Filipes (Ferreira, 2013, p.358). É por esta razão que, perante a convocatória
para a Cimeira Ibero-Americana, em 1990, Portugal reage timidamente. «Era evidente
um certo receio quanto às pretensões da Espanha, e eram muitas as dúvidas, do ponto
de vista estratégico, quanto às vantagens acrescentadas para o país» (Gomes, 2014, p.
214). Motivado também pela participação do Brasil, Portugal abraça a iniciativa e faz-se
representar ao mais alto nível o Presidente da República era, então, Mário Soares.
Unamuno explicava estas relações históricas como uma «unidade espiritual, uma alma
una num território atravessado por contradições» (Ferreira, 2013, p. 358). Com as
cimeiras, transforma-se a ideia de hispanidade, abrindo-se espaço a uma participação
solidária, marcada mais pelos laços de amizade do que pelos benefícios da cooperação
económica. Dizia Soares, em Guadalajara, que existe uma «solidariedade natural
resultante das raízes comuns, da proximidade das culturas e da identidade dos laços
entrecruzados pela história e a vizinhança geográfica. Portugal também é Ibero-América»
(Gomes, 2014, p. 215).
Na sua intervenção no Colóquio, Cristina Manzano, sublinhou a importância dos três
princípios criadores da Comunidade Ibero-Americana, que ainda hoje permanecem: a
horizontalidade, pela simetria das relações; a inclusão de todos na mesa das negociações
sem com isso abdicar da defesa da Democracia e dos Direitos Humanos; e o consenso,
que não é sinônimo de unanimidade. Face ao momento histórico de polarização que
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vivemos, a materialização destes princípios, segundo Manzano, pode ser um processo
complicado; mas quando se consegue, a força política que tem também é muito
importante.
Aqui reside o espaço privilegiado de Portugal para exercer a sua vocação de ponte entre
dois mundos. Na esteira de Mário Soares, capaz de estabelecer relações interpessoais
que dão voz a todos, podem trazer-se os mecanismos de negociação da América Latina
até às instituições europeias. No entanto, apesar da sua participação de alto nível nas
Cimeiras Ibero-Americanas, bem como do cada vez maior contributo para o seu
Secretariado, as reticências sentidas inicialmente adiaram por anos a decisão de incluir
a Ibero-América nas prioridades da política externa nacional talvez pelo receio de
sobreposição em relação ao espaço político da CPLP.
Em períodos de crise económica na Europa, perante a «dependência excessiva que a
economia portuguesa incluindo as empresas têm no mercado europeu, o mercado
ibero-americano passa a ser valorizado» (Gomes, 2014, p. 222). Raquel Patrício, na sua
intervenção no Colóquio, apontava no mesmo sentido: «a própria região da América
Latina surge como uma boa alternativa se quisermos pensar em soluções extra-Europa
para Portugal». Acrescentava ainda que «aquilo que é a especificidade de Portugal no
seio da União Europeia (…) é a ligação privilegiada que tem, não com a África, mas
também com a América Latina por via do Brasil».
Esta não é, contudo, uma posição inovadora. o defendia rio Soares, naquela sua
intervenção de 1976: «este contexto (…) obriga o Povo Português a uma reflexão
profunda relativamente à integração de Portugal com a Europa, preservando o seu
destino histórico de país europeu com especiais qualificações para apresentar-se como
“intermediário privilegiado” nas relações da Europa» com o mundo. Portugal possui, no
seu entender, uma vocação “terceiro-mundista”, que não se opõe à sua participação
plena na União Europeia pelo contrário, beneficia-a (Soares, 1976).
Relações Europa América Latina
«O viés eurocêntrico reside no modo como a compreensão do regionalismo (que, muitas
vezes, tem origem numa leitura particular da integração europeia) condiciona a
percepção de como este deve implementar-se noutros lugares do mundo» (Söderbaum,
2014, p.14). Ana Paula Zacarias, no Colóquio, apontava esta mesma visão como um dos
calcanhares de Aquiles na relação Europa-América Latina e Caribe: «nós [Europa], ao
olharmos para a CELAC, estamos à espera de ter do outro lado um interlocutor similar,
coisa que não acontece. A CELAC não é a UE. Nem o Mercosul é a UE. São entidades com
integrações diversas, (…) estruturalmente diferentes da UE».
Portugal encontra-se, aparentemente, face a um dilema. Em terra, a sua identificação
civilizacional com o contexto europeu. No mar, a sua ligação histórica, cultural e afectiva
com os países da América Latina. Se, aquando da sua adesão à CEE, em 1986, se
posicionou como porta aberta entre dois mundos, com a queda da URSS e o posterior
alargamento da UE para o leste Europeu, em 2004, assistiu a uma inversão de prioridades
que poderiam ter feito desmoronar o sonho de um novo universalismo.
Mas Portugal, cuja transição democrática foi foco de tensões durante a Guerra Fria,
oferece-nos «uma boa ilustração sobre os dilemas de um Estado pequeno, com
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capacidade de influência limitada, e como o nível doméstico e europeu interagem no
processo de tomada de decisão» (Neves, 2016, p. 266). Perante o alargamento da UE,
investiu em quatro dimensões:
1) apoio continuado às relações com os países de Leste;
2) estratégia de “preservação da solidariedade”, propondo uma redefinição dos
requisitos para apoio económico em que continuasse a ser incluído;
3) posição favorável (e ambiciosa) quanto ao alargamento e
4) partilha da sua experiência de negociação e adesão, contribuindo para uma
diplomacia informal (Neves, 2016).
Este aparente paradoxo de intenções consiste na materialização daquilo que Mário Soares
havia identificado, em 1976, como «vozes que procuram conciliar as duas orientações,
destacando a nossa pertença à Europa enquanto cultura e civilização, valorizando os
imperativos de ordem geopolítica e económica (...), para partir por um caminho realista
de projecção de Portugal aos países que costumamos considerar como parte do Terceiro
Mundo» (Soares, 1976). Dando voz e lugar a novas formas de estar, Portugal granjeou,
em 2004, simpatias e (pequenos, mas múltiplos) aliados continentais para as suas
iniciativas atlânticas. Estas parcerias diversificadas viabilizam o sucesso das propostas
Portuguesas (e Ibéricas) levadas a cabo durante as Presidências da UE. De facto, como
reparava Cátia Miriam Costa no Colóquio, «quem fizer um estudo sobre as relações da
União Europeia com a América Latina, percebe perfeitamente picos de atividade quando
Portugal ou Espanha têm a presidência».
Esta dinâmica de integração europeia com os olhos postos além-fronteiras é complexa e
requer capacidade de gerar equilíbrios. Mário Soares era um crítico da globalização sem
critérios e, por essa razão, no fim da sua vida demonstrava algum cepticismo quanto
à evolução do Projecto Europeu. Andrés Malamud, na sua intervenção no Colóquio, foi
peremptório: «o mundo de Mário Soares não existe». Importa, então, pensar os
desafios de hoje à luz das três dimensões que sempre nos propunha Mário Soares,
«democracia, desenvolvimento e descolonização».
Existe ainda muito caminho a percorrer para estreitar as relações entre a Europa e a
América Latina. No entanto, mantemos o optimismo de Mário Soares em 1976:
A Europa, hoje, é uma ideia em permanente evolução, dotada de uma
dinâmica capaz de transcender os particularismos nacionais e de se situar na
determinação e definição de aspirações comuns (…) de actuar em função de
uma solidariedade profundamente enraizada nos interesses comuns.
O futuro será propício?
Pairam sobre o mundo atual os fantasmas do século passado: um intenso combate entre
narrativas de direita e esquerda aquece o mundo das comunicações, e influi nos padrões
eleitorais em favor de candidatos autoritários e populistas, cada vez mais próximos ao
poder, quando o mesmo vencedores da corrida presidencial. A este problema, Carlos
Quenan, no Colóquio, somou a crise climática, a revolução tecnológica, a rivalidade EUA-
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China, a crise da globalização e a poli-crisis, o impacto de práticas empresariais como o
nearshore e o dilema manufatura vs. “mentefatura”.
Além do regime cubano, a Nicarágua e a Venezuela (país sul-americano que fora exemplo
de sucesso democrático) adotaram modelos autoritários de extrema-esquerda. Na
Argentina e em El Salvador, os governos são tendencialmente autoritários, e aproximam-
se da extrema-direita. Na Europa, as desigualdades socioeconómicas são cada vez mais
profundas e os movimentos autoritaristas ganham força e representação institucional,
aumentando fenómenos como a violência social e institucional contra os migrantes. Em
simultâneo, nos EUA, a democracia e o Estado de Direito encontram-se fragilizados. Este
enquadramento demonstra que a democracia e a liberdade não podem ser dadas por
garantidas, e que mantê-las requer atenção permanente, ações concretas e coerência
por parte das instituições.
Francisco Aldecoa Luzárraga sugeriu, no Colóquio, que o segundo mandato de Trump
poderia ser uma oportunidade para impulsionar a aproximação entre a Europa e a
América Latina, especialmente face às tensões sobre as questões migratórias nos EUA.
Mas nem todos se mostraram tão otimistas: Ramón Jáuregui afirmou que a América
Latina está fraturada e que, na região, a Europa tem perdido o seu peso económico em
comparação com a China.
Estes oradores concordavam, contudo, num ponto-chave: «a Europa que queremos é
fraterna com a América Latina. Constrói caminhos e constrói pontes», sublinhou Jáuregui.
Esta era a Europa com que sonhava Mário Soares, com quem ele tinha tanto a partilhar,
mas também a aprender.
Porque a democracia não é um valor particular, mas universal, torna-se urgente
encontrar, para o nosso tempo, carismas como o de rio Soares que, modelo de
moderação política, foi um combatente contra qualquer forma de ditadura (González).
na reconciliação dos extremos se recupera o horizonte democrático e de liberdade.
Para tal, continua a fazer sentido caminhar orgulhosamente acompanhados”, como dizia
Soares.
No Colóquio, mais do que recordar um político, puseram-se em comum sonhos para o
futuro, propostas de solução ou desafios partilhados para a Ibero-América. Nem sempre
visões concordantes, é certo, mas olhos nos olhos, à mesma mesa ao estilo das relações
de amizade e solidariedade que tanto agradavam a Mário Soares.
«Numa iniciativa de centenário», concluiu Paulo Neves, «falámos do futuro. Mário Soares
estaria orgulhoso».
Referências
Colóquio (por ordem do programa):
Cordeiro, P., Soares, I., Figueroa, B., Ramalho, V. e Sepúlveda, B. (8 de abril de 2025):
Mário Soares e a América Latina [Painel 1]. Colóquio Mário Soares e a América Latina:
Passado, Presente, Futuro, Teatro Thalia, Lisboa.
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Gomes, N., Torres, J., Rother, B., Schuster, M., Fonseca, A., e González, F. (8 de abril
de 2025): A Internacional Socialista e a América Latina [Painel 2]. Colóquio Mário Soares
e a América Latina: Passado, Presente, Futuro, Teatro Thalia, Lisboa.
Neves, P., Manzano, C., Gomes, N., Patrício, R. e Vitória, R. (8 de abril de 2025): Portugal
e as Cimeiras Ibero-Americanas [Painel 3]. Colóquio Mário Soares e a América Latina:
Passado, Presente, Futuro, Teatro Thalia, Lisboa.
Romão, F., Gaspar, C., Zacarias, A., Malamud, A., e Costa, C. (8 de abril de 2025):
Relações Europa-América Latina [Painel 4]. Colóquio rio Soares e a América Latina:
Passado, Presente, Futuro, Teatro Thalia, Lisboa.
Cordeiro, P., Aldecoa, F., uregui, R., e Quenan, C. (8 de abril de 2025): América Latina:
olhar o futuro [Painel 5]. Colóquio Mário Soares e a América Latina: Passado, Presente,
Futuro, Teatro Thalia, Lisboa.
Fontes bibliográficas e hemerográficas:
Camero, Y. (2019). La irrupción del populismo. Editorial Alfa.
Gomes, N. (2014). A Política de Portugal para a Ibero-América a partir de 1991. Tese de
doutoramento. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.
Hesse, V. (março 2022): Cuando la Internacional Socialista pisaba fuerte. Tradução:
Carlos Díaz Rocca. Nueva Sociedad. https://nuso.org/articulo/auge-y-ocaso-de-la-
internacional-socialist/
Rollo, M. (coord). (2013). Atas. I Congresso de História Contemporânea.
Santos Neves, M. (2016). The Paradoxo f EU Enlargement and Member States’ Policies:
Dilemmas and Challenges The Case of Portugal. Megatrend revija Megatrend Review,
13(3), 263286.
Sebastião, D. (2010). Mário Soares e a Europa: Pensamento e Acção. Faculdade de
Letras, Universidade de Coimbra.
Soares, M. (1976). Portugal en el actual contexto europeo. Nueva Sociedad, 23, p. 25-
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Söderbaum. F. (2013). Rethinking Regions and Regionalism: Georgetown Journal of
International Affairs, 14 (2), pp. 9-18
Straka, T. (setembro de 2022). Nueva Sociedad o el nacimiento de una socialdemocracia
global. Nueva Sociedad. https://nuso.org/articulo/nueva-sociedad-socialdemocracia-
venezuela/
Vieira, J. (2022): Mário Soares: uma vida (biografia revista e ampliada). Reverso Editora.
Como citar esta nota
Bingre, Andrea Imaginário & Duarte, Débora (2025). “Orgulhosamente Acompanhados”: Olhar
para a América Latina como Mário Soares. Janus.net, e-journal of international relations. VOL. 16,
Nº. 2, novembro 2025-abril 2026, pp. 461-496. DOI https://doi.org/10.26619/1647-7251.16.2.01