ocidental, em aparentes “contenções” anticomunistas: são os casos do Estado Novo, em
Portugal, desde 1933, e do franquismo, em Espanha, desde 1939.
Na América Latina, as ditaduras também alimentavam esse imaginário para se sustentar
no poder. O historiador Camero afirma que o medo ao comunismo potenciou a coligação
militarista de sectores sociais conservadores com sectores das Forças Armadas,
colocando entraves ao caminho da democracia até à década de 1980 (Camero, 2019, p.
39). Algumas dessas ditaduras ultrapassaram quarenta anos de vigência, outras
subsistiram por muito menos tempo. Mas, perto do final da década de 1970, todas elas
coincidiram na linha temporal: Nicarágua, Paraguai, Guatemala, Brasil, Haiti, Chile, El
Salvador, Perú, Uruguai, Honduras, Argentina e Bolívia. Não havia só autoritarismo de
direita: a Revolução cubana, alinhada com a antiga URSS, também perturbava a
democratização desde 1959. E, na Nicarágua, os opositores sandinistas davam sinais de
paulatina radicalização à ultraesquerda.
Na década de 1970, as democracias fortes da região seriam apenas as da Costa Rica
(desde 1949), Colômbia e Venezuela (desde 1958), e México — embora a sua
democracia, estabelecida em 1929, fosse questionada pela hegemonia do Partido
Revolucionário Institucional (PRI).
Neste enquadramento, são três os momentos e os perfis, por vezes paralelos e
complementares, desde os quais Mário Soares construiu uma relação com América
Latina:
1) como líder socialista português e opositor ao Estado Novo;
2) como parte da chefia da Internacional Socialista (IS), na promoção da social-
democracia;
3) como representante de Portugal em prol de relações de mútua conveniência.
Como líder socialista e opositor ao Estado Novo
Soares fez várias viagens à região, durante o seu exílio, nos tempos do Estado Novo. No
primeiro painel do Colóquio, intitulado Mário Soares e América Latina, Isabel Soares
aludiu a uma primeira viagem, em 1970, ao Brasil, Venezuela, Porto Rico, México e aos
Estados Unidos da América.
Segundo o investigador Joaquim Vieira, Soares nunca esclareceu a função política
daquele percurso, ainda que lhe tenha sido útil para entrar em contacto com
simpatizantes dos socialistas portugueses e dos republicanos espanhóis, exilados na
Venezuela, e com portugueses em Nova Iorque, agregados ao movimento Acção
Socialista Portuguesa (ASP) — partido antecessor do PS, fundado no exílio, em 1964 por
Soares, Francisco Ramos da Costa e Manuel Tito de Morais (Vieira, 2022, p. 277).
Mas existiu uma viagem anterior àquela. Vieira regista que, em 1964, Soares fez uma
visita incógnita a Havana, em companhia de José Fernandes Fafe. O convite do governo
cubano foi facilitado, em 1963, pelo encarregado de negócios em Portugal, Raúl Amado-
Blanco, tendo sido garantido o anonimato e o secretismo da deslocação (Vieira, 2022, p.
181). Após esta e outras visitas a países comunistas, Soares rejeitou esse sistema e